Mandy e Elisabeth

Diário de Serviço Social
 
Mandy* é a minha cliente mais idosa e debilitada. Ela tem 100 anos, não consegue ouvir direito ou andar. Os longos anos de locomoção através de um andador a deixaram completamente curvada. A memória é cada dia mais ausente. A pele esfarelando, os dentes quase inexistentes, a voz sufocada. Os cabelos brancos e ralos. É uma criança. Uma criança cansada. Quando quer algo e não é prontamente atendida, joga as coisas na parede. Quando se sente ameaçada, grita. Chego um tempo que o tempo da vida humana anda para trás.
 
Quem cuida de Mandy é Elisabeth*, uma amiga. Eu demorei muito para descobrir o laço de ambas. Só depois de muitos meses trabalhando com elas, senti-me na liberdade de perguntar. Elisabeth “adotou” Mandy por amor e necessidade. Soa redundante assim escrevendo, “amor e necessidade”, como se fossem, obviamente, a mesma coisa.
 
Elisabeth conheceu Mandy através de uma amiga que morava no mesmo prédio que Mandy. Visitava essa amiga rotineiramente e sempre se deparava com Mandy circulando pelo edifício. Elisabeth tinha acabado de perder sua avó quando conheceu Mandy, a qual já era uma velhinha. A identificação foi momentânea: Elisabeth viu a sua vó em Mandy, e rapidamente desenvolveu grande afeto pela velhinha desconhecida, passando a visitá-la frequentemente.Em uma dessas visitas, Elisabeth achou Mandy caída no hall, inconsciente. No hospital avisaram Elisabeth que Mandy já não podia andar com firmeza e que também, devido à sua idade, precisava de ajuda, de cuidados. Mas Mandy era totalmente sozinha em Montreal. A irmã mais próxima, que vivia nos Estados Unidos, veio visitar Mandy devido ao acidente, e propôs à Elisabeth que morasse com ela, como uma “roommate” (colega de quarto). Assim Elisabeth economizaria no aluguel e nas contas, não precisando pagá-las, e em troca cuidaria de Mandy. Elisabeth que estava passando por árduas necessidades financeiras, e que também era sozinha, aceitou. Desde então passou a ser o mundo de Mandy: sua cuidadora e única companhia. Com o passar dos anos Elisabeth desenvolveu um sentimento e responsabilidade “materna” diante à Mandy, como costuma acontecer. Mas Elisabeth não é mãe ou filha ou se quer parente de Mandy. É apenas uma “roommate”. E isso inevitavelmente lhe cai em contradição. Mesmo assim, o fardo não lhe a soterra, porque o sentimento é maior. Elisabeth é uma verdadeira altruísta. Já presenciei incríveis demonstrações de empatia vindo dela, mas assim, algo não normal. Como ela chorar ao escutar o vizinho esmurrando a parede, porque tinha dó dele, porque ele era sozinho, e ela queria ajudar e não conseguia. Hoje entendo que muito além de sentimento, é essa sua nobreza que sempre a manteve ao lado de Mandy, durante todos esses difíceis anos.
 
Mandy e Elisabeth são muito humildes. Elas moram em um apartamento minúsculo onde mal suportaria uma pessoa. Então Elisabeth dorme no quarto e Mandy na sala, em um sofá. Sofá normal, não sofá-cama. Eu acredito que isso se formatou por causa do tamanho de Elisabeth, ela não caberia em um sofá normal, já Mandy, tão pequena e frágil, tranquilamente cabe. Sendo assim, o sofá tornou-se o único cenário de Mandy. E isso é um soco em meu estômago. É lá, no sofá, em sua minúscula sala, que ela dorme, come, permanece. 24 horas. No verão a levamos para pequenas voltas no quarteirão, no inverno as voltas se limitam ao corredor do seu andar, o qual ela percorre com o entusiasmo de quem saí num dia de domingo para passear. Pergunto se não quer ir ao hall principal do prédio, para variar um pouco, mas não, ela diz: “eu prefiro o corredor”. Então vamos pelo corredor, indo e voltando, quatro, cinco vezes, às vezes cantando outras contando os passos em francês. Sempre paramos na porta que leva à escadaria, e ela se põe a contar que antigamente não existia aquela porta, e então seu antigo gato se perdia pelos andares do edifício. – Imagine, precisávamos parar em cada andar e chamá-lo!
 
No começo eu me desesperei diante à Mandy. Não sabia como lidar com ela, principalmente pela limitação auditiva e vocal. Eu não a entendia e tampouco ela me entendia. Mandy foi um dos pilares que edificou o ensinamento mais importante que Montreal me deu: a conexão além das palavras. Logo eu, uma estudante de psicologia cética que questionava arduamente a aplicabilidade dessa ciência via à comunicação; a sua principal ferramenta. Mas a comunicação está além das palavras. Montreal me ensinou.
 
A música tornou-se o nosso maior vínculo. Mandy é louca por música, especialmente clássica; piano, Bach, “Goldberg variations”, mais especificamente. É surreal o efeito que a música provoca nela. Surreal. Ela entra em uma quase transe quando coloco em meu celular ou tablete “Goldberg variations” para escutarmos. Mas não é só isso, uma vez ela cismou que queria escutar rádio, ela mesma se pôs a escolher a estação. Optou por uma que estava tocando POP, aquele POP atual bem clichê com aquela base eletrônica. Imediatamente se levantou e começou a dançar. Imaginem agora o que foi ver aquela velhinha, que mal para em pé, dançando no meio da sala ao som de POP adolescente. Foi inacreditavelmente lindo.
 
Diferente de muitos idosos que atendo, Mandy não perdeu a capacidade de deslumbre, e isso é a sua salvação.
 
Nesta semana uma cena me tocou forte. Cheguei ao apartamento e Mandy estava no meio de uma crise, jogando tudo contra a parede, aos gritos. Ela também estava com as mãos inteiras pintadas de batom vermelho. Elisabeth imediatamente saiu quando eu cheguei. Perguntei a Mandy qual era o problema, ela disse que estava com frio e ninguém se importava. Eu peguei um xale, coloquei em seus ombros, e busquei na minha bolsa um lenço umedecido para limpá-la. Após limpar, peguei um hidratante e comecei a passar em suas mãos. Então ela disse: – Deixa-me fazer isso em você também, é muito bom! – referindo-se ao ato de massagear a mão com creme. A delicadeza daquele momento é algo difícil de descrever.
 
A gente começa a estuda psicologia querendo descobrir e compreender teorias e teorias que se propõem a desvendar a mente em sua condição motriz sobre a complexidade humana. Só assim achamos que vamos conseguir fazer a diferença. Mas não. É no oposto da complexidade que está a chave: na delicadeza quase invisível e esquecida. É essa que consegue penetrar na gigantesca dimensão onde a razão, não alcança.

 

 

Anúncios

Controle-me

– Diário de Serviço Social

Queria contar sobre Sonia, egípcia, 95 anos, há 50 morando no Quebec, Canadá. Ela é uma é uma de minhas clientes aqui, em Montreal, onde há um ano realizo “estágio” em serviço social com idosos. Estágio com aspas porque não sou, oficialmente, uma estudante universitária. É difícil explicar – até para mim – o que é exatamente o meu trabalho aqui. Então resumo em “estágio” para facilitar. O que faço são visitas residenciais a clientes fixos, os quais já atendo há quase 1 ano. A necessidade dessas visitas varia totalmente, mas quase sempre é uma mescla de acompanhamento externo com “friendly visit”, a qual também se ramifica em inúmeras atividades. Tenho um cliente, por exemplo, Rafael, que não fala nem inglês nem francês, só espanhol, além de ser sozinho aqui, com 80 anos. A sua maior necessidade é ajuda com a comunicação; agendar uma consulta, ligar para solicitar qualquer serviço, resolver qualquer problema; tudo se torna um bicho-de-sete-cabeças pela limitação linguística. Já Magda, outra cliente, possui uma grave enfermidade nas mãos e não consegue fazer praticamente nada sozinha. Com Magda além de acompanhamento externo faço de tudo um pouco: auxilio em pequenas arrumações diárias, cozinho para ela coisas simples como panquecas e cookies – uma gigantesca alegria para ela que se tornou totalmente dependente de comida pronta, e ouço-a a falar por horas sobre a vida, enquanto tomamos café e comemos os quitutes recém-feitos.

Agora sobre Sonia, a minha cliente mais “difícil”, a qual eu diversas vezes já pensei em conversar sobre com a minha coordenadora, arrumando uma desculpa para não mais atendê-la. E Sonia é o meu atendimento mais rápido e “simples”. Costumo apenas acompanhá-la em um grupo social de idosos às quartas-feiras. Mas Sonia tem “ansiedade crônica”. Em fortes aspas porque não sou pró-rotulação psíquica. Não creio que a mente se limite a um diagnostico clínico. Mas é assim que Sônia foi/é diagnosticada. E por isso toma doses e doses de ansiolíticos, cada vez mais potentes, para mantê-la “controlada”. Mas sempre a vejo em total descontrole.

Sonia tem quase 100 anos, mas mora sozinha. Realidade típica aqui. Recebe serviços de cuidado pessoais do governo, duas vezes por dia funcionárias vão à sua cada para ajudá-la a comer, limpar-se e a manusear os medicamentos. Seu filho, sua única família, mora a metros de distância, vivendo mais em sua casa do que na dele, dando total assistencialismo também. Mas morar sozinha só é possível porque Sonia é apta fisicamente e mentalmente. É lúcida. A ansiedade patológica, a meu ver, foi uma resposta às suas limitações cognitivas, as quais, inevitavelmente, a idade trás. Principalmente a falta de memória. Não lembrar-se o que aconteceu há poucos minutos, onde se colocou a chave, os sapatos, a carteira… Medo. Medo de si. Falta de confiança em tudo. O mundo tornando-se um lugar cada vez mais instável e quebradiço. Desespero. Eu creio que essa conjuntura em sua repetição totalizou-se em tamanha inquietude psíquica. Sonia nunca está bem. Sempre está em pânico, pensando – ponderando – todas as possibilidades de erro e fatalidade. O reflexo é sempre físico: tontura, palpitações, falta de ar, exaustão. Chega a um lugar já querendo ir embora. Não consegue se concentrar em nada. Tudo é hostil. Tudo agride.

Hoje cheguei a sua casa para levá-la ao Social Club. O seu filho usualmente vai antes para ajudá-la a se vestir e para estimulá-la a ir. Hoje ele não foi e ela estava rendida. Deitada no sofá com pijamas, dizendo estar cansada demais para sair. É delicado dialogar com Sonia. Dizer uma simples frase como: “se você quiser podemos ficar aqui”, já é motivo de conflito. Ela desespera-se diante à escolha. Então eu disse: vamos ficar aqui então. Podemos dar uma volta, aproveitar que não está tão frio hoje. “não sei se quero sair”. Então ficamos aqui – eu disse. – Mas o que podemos fazer aqui? – Podemos conversar. – E jogar cartas? – Sim, podemos jogar cartas. Nesse momento o seu filho ligou e insistiu a ela para sair para caminhar um pouco e ir a um café, já que não iríamos mais ao Social Club. Guiada pelo filho, sentiu-se quase na obrigação de sair. Então, eu sugeri: vamos jogar cartas no café! Ela riu: – As pessoas fazer isso? – Sim, fazem! Vamos, vai ser divertido.

Já fui outras vezes com Sonia em cafés assim como em pequenas caminhas pelo bairro, todas às vezes a conjuntura foi a mesma: o mesmo desespero e incômodo com tudo. Chega ao café e já quer ir embora etc… Eu já esperava por algo assim hoje, mas não. Foi diferente. A caminhada foi rápida porque a temperatura despencou, então entramos rapidamente em um café e lá permanecemos por 2 horas! E só saímos porque eu tive que insistir.

Achei um baralho jogado no fundo da estante de Sonia. Um baralho infantil, tipo jogo de memória, cada carta com um animal desenhado, algo do tipo. Tirei o baralho do bolso no café. – Você sabe como funciona isso? – me perguntou. Não, mas vamos descobrir. Cada carta tinha 3 repetições. Dividi as cartar entre nós duas e começamos a jogar: quem montasse os “pares” primeiro e acabasse com as cartas ganhava. Quando terminamos a primeira rodada pensei: que coisa boba meu deus, ela deve ter odiado isso. Foi aí que escutei: again¿ E isso se repetiu pelas 2 horas seguintes.

Essa foi a primeira vez que vi Sonia em paz. Contente. Ela repetia durante as jogadas: it’s quite nice isn’t? Entre as jogadas também eu puxava assunto sobre asua vida. Isso se prolongava durante o jogo: – Esse animal aqui, tem no seu país? Você já foi na Africa para ver elefante? E assim se desenrolou as horas. Em nenhum segundo ela reclamou ou preocupou-se. Usualmente ela telefone para seu filho repetidamente. Seu filho que acabou me telefonando para saber se estava tudo bem, pois estava “sem notícias”.

Antes de irmos embora, ela soltou: – Foi bom eu ter saído. Quase deixei a minha mente me vencer. É que tem algo aqui (apontando pra cabeça) me controlando sabe.

O Mindfulness, abordagem psicológica, aplica que o bem-estar está na plena atenção/concentração ao momento. Em um mundo de múltiplos estímulos, distrações, preocupações; esmagamos o presente entre angústias do passado e anseios do futuro. O que todos buscamos em comum é alívio. Um momento de conexão com algo ou alguém que nos finque; que nos “controle”.

 

Take my Leave of You – Ólafur Arnalds

Outono, Montreal

Fim de setembro, Montreal. As ruas ganham um cenário idílico. As árvores, em suas individualidades, mudam de cor em diferentes tempos, mas como isso é lindo. Um encontro de folhagens verdes, amarelas, vermelhas e marrons, emoldura a cidade. O vento gelado, os dias cinza, muita chuva, nunca choveu tanto aqui. Outono é transição. E eu estou no meio disso.

Às vezes me flagro com os olhos fechados, procurando algum apoio, dizendo-me: falta pouco para eu ir embora. Calma, calma. Porque às vezes, parece que não vou aguentar, sinto me despencando junto com as folhas exaustas. Noutras, desespero me com a fugacidade dos dias. Passo por essas ruas já sentindo saudade, espremendo os olhos, tentando reter cada cor, sensação, detalhe.

Comprar uma bicicleta me fez ver Montreal. Antes eu me locomovia embaixo da terra, hoje atravesso a cidade diariamente na superfície, à flor da pele. Pela manhã, faço todos os dias o mesmo percurso, e me surpreendo com a mudança silenciosa da paisagem. Sem alarde. Parece que em um piscar de olhos tudo mudou. Mas não, a mudança é sempre lenta, tão lenta, que não a percebemos. É perigoso isso, pois não sentindo a evolução, não vemos o resultado. Sentimo-nos estagnados. Dentro dos dias, das estações, do tempo.

Sinto-me desesperadamente só, hoje, nesse outono, e me pergunto qual a diferença de agora para antes, quando estava igualmente só no Brasil. Não sei. Talvez todos os detalhes estrangeiros que me cercam, fazendo-me me sentir mais e mais à parte de tudo. Mas não é só escuro. Sinto-me numa espiral, girando, girando. Tudo é mudança. Lenta, silenciosa, mas em movimento. E no escuro da minha solidão, fecho os olhos para poder ver isso.

 

Unfurl – Katatonia

Are you willing to pay the price?

Sobre dificuldades e ciclovias

Você está disposto a pagar o preço?” Aprendi essa expressão em inglês há pouco tempo, e achei demais. O verbo “to will” significa algo como “desejar”, “ter vontade”. Disposição é ter vontade, principalmente diante do não agradável do caminho – de qualquer caminho. Pensei nisso hoje quanto pedalava para chegar ao trabalho. Há umas partes realmente cansativas no meu percurso diário, mas outras são puro deleite. O saldo de longe é positivo, trocar o caos do metrô pela liberdade das ciclovias foi a melhor coisa que fiz em Montreal. Muito mais do que isso, até virou uma terapia, uma coisa boa no dia. As íngremes subidas de alguns trechos, que me deixam ensopada de suor, são o preço. Sair mais cedo de casa também. Se antes demorava 15 minutos de metrô, agora são 45 minutos pedalando. Mas 45 minutos vividos.

Ando lendo sobre algo incrível: “SISU”, uma expressão/filosofia finlandesa. Seria algo semelhante à “resiliência”. Mas não se trata exatamente de “resistência” diante à dificuldade, mas sim “aceitação”. Aceitar que a dificuldade, o sacrifício, a demora, o imprevisto, o fracasso; existem. E mesmo assim, continuar. E mesmo assim querer continuar.

É incrível como o autoconhecimento é um caminho longo. De uma vida. A gente nunca se conhece o bastante. Ou bem. A gente costuma se conhecer muito pouco e errado. Talvez porque mudamos o tempo todo? Ou o que muda é a consciência, e nós continuamos o mesmo? Porque não somos a nossa consciência não. Posso ter a consciência que preciso mudar, e continuar o mesmo. Posso achar isso imponderável hoje, e amanhã estar o fazendo. O direcionamento mudou, não quem o direcionou.

A dificuldade sempre me pega de jeito. Eu creio que isso está ligado à minha imprudência. Esse meu ímpeto sonâmbulo de ir de olhos fechados. E assim, caio. Sempre. Ou quando acordo, não sei direito onde estou, ou porquê estou. Mas isso, como tudo, tem as suas vantagens. Aliás, li exatamente sobre isso pesquisando sobre o SISU. A conduta de “saltar sem olhar para baixo”. Creio ser essa imprudência aquilo que me leva. Quando nem eu sei como ir. Por outro lado, vejo em mim uma imensa incapacidade de lidar com a queda, toda vez que escorrego ou o chão se desmorona. Agora começo a entender que a natureza disso é a minha incapacidade de assumir o todo. Realmente assumir. Com vontade. Pois os buracos, as instabilidades, o cansaço, os tantos sacrifícios; existem. Em tudo. Assim como o lado bom, o qual precisa (deve) compensar.

 

Therein – Dark Tranquility

Longe

Neste semestre tenho dois grandes objetivos: Finalizar e lançar o meu projeto musical e aprimorar o meu inglês para alcançar uma boa nota no IELTS acadêmico, teste de proficiência. Percebi, recentemente, uma conexão forte entre ambos: vertigem. Mais do que isso: sensação de escuro. Bem, preciso explicar-me melhor. Quando estou cantando e ainda não domino a melodia, sinto-me caindo. Entro naquele trecho da música onde não consigo sustentar e a sensação de queda é quase palpável. Sinto-me cair. Ou caminhando no escuro, sem saber onde estou ou o que há em volta. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Das notas. Do percurso. E eu também sinto isso – exatamente isso – falando inglês. Tento dizer, mas encontro um buraco na minha frente, um escuro, onde não ando ou vejo. Não controlo. Perco-me. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Da fala. Daquilo que se quer expressar.

Muitas vezes no meio do ensaio paro, esfrego a mão no rosto e penso: estou tão longe meu deus. Tão longe de lapidar 30 músicas para começar a me apresentar com qualidade. Muitas vezes no meio do estudo paro, afundo-me na cadeira e penso: estou tão longe. Tão longe de falar inglês com domínio. De conseguir entrar numa universidade e apresentar aqueles seminários como a porta-voz do grupo – como eu costumava fazer no Brasil, na minha língua nativa.

Sussurro quase como um mantra: um passo de cada vez, um passo de cada vez. Calma. Calma. É normal quando se está longe de onde se quer chegar, não ver. Na estrada a gente não vê o destino. Mas estamos indo. Aproximando-se. E quanto mais distante o lugar, mais longa a viagem. Não tem jeito. Não tem poção mágica. Mas tem um kit de artefatos essenciais: Autoconfiança, paciência, persistência. Eu, Aline, por exemplo, escrevo quando o cansaço e a tristeza apertam, e eu preciso estacionar um pouco.

 

Hope – John Frusciante

Meu Tempo

Sábado, 21h, sozinha em casa. Fazia tempo que não reparava no aconchego da minha sala vazia. Vazia de móveis, vazia de gente. Mas como amo essa luz tímida de abajur, ou esses tons de vermelho vindo da cortina e do tapete, abraçando o ambiente. Senti uma paz que há tempos não sentia. Uma não pressa, um não dever. Precisava tanto disso, pensei. Precisava tanto de tempo para mim.

Recebi duas solicitações extras de clientes ontem. Falei não. Não tenho tempo. Acabo de terminar um relacionamento. Porque não tenho tempo. Preciso urgentemente de tempo para mim. Agora, hoje, nesses meus últimos 4 meses em Montreal, onde não só concluo uma grande fase, mas principalmente preparo-me para atravessar outra muito maior e desafiadora. Sem preparo, sem tempo, não vou conseguir.

Lembro-me forte de um amigo dizendo: “Acho que a gente devia se preocupar mais em criar um plano de ação do que simplesmente sair assim adoidado agindo, vivendo sem saber direito pra quê ou como.” Essa frase anda me infiltrando fundo. Preciso de um plano melhor, sinto, de um tempo mais canalizado e deliberado. É difícil isso na prática. Difícil acertar de primeira. Mas não tem outro jeito né, é insistir e reformular, e insistir e reformular.

A parte ruim da solidão é ter que tirar do próprio âmago apoio. Porque é normal sentir-se um lixo. Um incapaz. Não, não vai dar certo. Olhe como os resultados estão longe! Difícil o auto-acolhimento. Mas, muitas vezes, mesmo rodeado por pessoas queridas esse apoio não existe. Pelo contrário, o sentimento de fracasso multiplica-se. Você pensa: sou tão incompetente que nem quem gosta de mim é capaz de me apoiar. Não é isso, meu amor, é que as pessoas estão preocupadas e exaustas demais com suas próprias batalhas. Frase feita. Mas verídica. Eu também alego, apontando um ângulo não tão otimista e gentil, que as pessoas possuem um inconsciente instinto de competição, com tudo e todos. Resíduo da nossa parte animalesca lutando por sobrevivência. E esse instinto, inconscientemente, clama pelo fracasso do outro. Eu disse: inconscientemente. Não fazemos por mal não. Nem se quer deliberamos isso. É mais uma energia do que uma ação. É como se o fracasso do outro consolasse o nosso, o limite do outro normatizasse o nosso. E assim vai. Há quem chame isso de inveja ou coisa do tipo. A explicação psíquica me atrai mais.

Independente da parte lógica que tento encontrar com palavras, há algo indizível aqui pedindo espaço. Para mim, por mim. Para cuidar-me, preparar-me, consolar-me. Ou apenas descansar hoje, nesse domingo, na quietude da minha casa. Para acreditar melhor, amanhã.

 

Textura

Descobri uma mania estranha minha: passar as mãos nas superfícies. Por onde passo. Um poste, um muro, um tronco, uma cortina. Mas passo a mão assim quase acalcando, como se tentasse tirar um pedaço. Ou mergulhar os dedos.

Tenho outra mania que já conheço bem de tanto os outros me falar: olhar muito. Se entro na casa de alguém, por exemplo, olho os mínimos detalhes, numa conduta até indelicada; deixo o meu hóspede de lado e começo um tour não guiado em torno do cômodo. Mas a minha curiosidade não é só visual ou tátil. Outra mania é fazer perguntas. Essa também sei porque a primeira reação é: mas como você pergunta! A questão não é querer saber muito sobre alguém, mas saber melhor. Descobrir melhor. Embaixo da superfície.

Quando criança o que eu mais amava era ouvir história e criar história. Acho que comecei a escrever assim. Antes mesmo de saber escrever. Gastava um bloco de papel sulfite por dia, desenhando as minhas histórias. Hoje eu também penso que isso foi uma resultante da minha solidão, ou melhor; um escudo. Cresci imensamente sozinha. Sem ter com quem conversar ou narrar as minhas histórias. Por isso precisei usar o papel de entretenimento e ouvinte.

Ainda sobre a infância, lembro-me forte de um gravador o qual minha mãe comprou para gravar as histórias as quais ela me contava antes de dormir e eu pedia incontáveis vezes para ela repetir. Mas o gravador não respondia as minhas perguntas e nem ouvia as minhas próprias histórias. Foi aí, na continência desse silêncio, que eu comecei a sedimentar essa afoita necessidade de contato; de interação. Foram anos e anos de histórias guardadas e perguntas caladas. À espera. E isso virou um ciclo, como tudo vira nessa vida. Até hoje, já muito crescida, me vejo só diante de gigas e gigas de textos e canções, e interrogações. À espera.

É por isso que quando encontro algo ou alguém no meu caminho, enfio a mão, mergulhos os olhos, seco a garganta. E a pessoa costuma me olhar assim assustada, achando meio engraçado e um tanto estranho. Mas – quase nunca – isso é recíproco. Porque o outro não costuma entender nada sobre gravadores com voz de mãe e nem de histórias sem palavras. O outro não viveu a minha vida e nem possui a minha – exacerbada – necessidade de mergulho. Quase sempre o outro me toca a pele, acaricia-me os cabelos, beija-me sutilmente os lábios. E se vai. Saciado pela minha superfície. E eu fico nessa redoma lisa onde escorrego cada vez que tento agarrar algo ou apoiar-me.

 

Texture – Catherine Wheel

Você não me Salva

No final do dia quando eu não acredito mais em mim
Nas minhas tentativas desesperadas e frustadas
Na minha necessidade de me virar por fora
Porque eu estou dentro
Você fora
Você não me vê
E eu me perco todas às vezes
Buscando o meu reflexo nos seus olhos
Mas eu não me vejo.

Você não me salva
Do peso da minha solidão
Do nó da minha garganta
Das unhas quebradas de tanto cavar
Para você eu sou duas partes
A sua e a minha
Cuide-se você diz
Porque você não vai cuidar de mim

Quanto mais me salvar
De mim.

 

Alone – Depeche Mode

Balanço

Faz 4 semanas que não limpo minha casa. Logo eu, A virginiana, que outrora passava pano no chão todos os dias. É que essas últimas semanas foram uma loucura, e achei que tinha coisas mais importantes para me preocupar do que a poeira no chão. Tanta gente vivendo nas ruas, um chão suja não vai me matar não.

Um vento gelado já surge vez ou outra cortando o mormaço escaldante desse verão. Os dias já não são tão compridos. As florem caem. Fim de agosto traz um semblante de mudança, de movimento.

Era quinta-feira fim de tarde. Que dia difícil meu deus. Doído. Meu corpo latejava. Saí do trabalho e fui para o outro lado da cidade ao encontro de uma bicicleta velha que achei nos classificados. Tive que pegar um metrô e um ônibus, lotados de morrer. A fila do ônibus pegava todo o quarteirão. Horário de pico, de caos. Mas cheguei cedo no local, uns 40 min antes do horário combinado, e vi que tinha uma praça logo aí. Fui para lá.

Era uma tradicional praça de Montreal aquela. Um parque infantil no centro rodeado por árvores e mesas de madeira com grandes bancos. Fui direto no balanço. Balanço alto, que sorte. Passei meus 40 minutos ali, vivenciando algo tão forte que não sei direito como narrar.

Na minha frente algumas crianças brincavam, os pais acompanhavam, alguns adolescentes nos banco conversando, algumas bicicletas passavam. Duas senhoras com roupas étnicas apareceram. Africanas talvez. Uma delas sentou-se no balanço, olhou para mim e deu um sorriso largo de cumplicidade, balançou alguns segundos e sentou-se no banco com a colega. Começaram a conversar intensamente. Era um quadro aquele lugar, com aqueles personagens, naquela atmosfera tão oposta ao caos da cidade despedaçado no fim do dia.

Eu balançava alto, sem parar, e aquele vento atravessando o meu corpo parecia dissolver todo o cansaço, estresse, dor. Foi um momento extremamente espiritual esse. Difícil explicar por quê ou como. Mas foi, uma cura. O que mais me tocou foi o efeito daquela simplicidade; não aconteceu “nada”, eu não vi nada, não foi “nada” de surpreendente e palavras até me fogem perante tamanha subjetividade. E mesmo assim, significou tanto. As coisas mais importantes são silenciosas, pensei. E um tanto invisíveis.

A dualidade sempre vai permear a vida, a nossa vida. A rotina sempre vai ser essa mescla de massacre e milagre, misturados, dissolvidos, E só cabe ao indivíduo a capacidade de alquimia, de reversão, de cura. E como a cura é urgente. Todos os dias. Mais urgente ainda, é perceber que a cura está ali, logo ali, na simplicidade esquecida. Não nas ambições inalcançáveis, não no amanhã que ainda não existe. Mas logo ali, aqui, agora, por dentro.

 

Strip my Mind – Red Hot Chilli Peppers

Rugas

– 30 anos

Um leque de linhas finas me salta ao redor dos olhos, duas mais grossas envolta da boca, incontáveis dentro da alma. São marcas escavadas por todas as ventanias e correntezas que atravessei. Minha pele fina, fraca, humana; sede, sangra, sedimenta.

Data forte essa: 30 anos. Quando adolescente costuma ver uma pessoa de 30 anos como alguém muito maduro. Na idade da razão. Vida feita. Hoje já acho o contrário. Principalmente quando olho para os meus pais, ou para os tantos idosos com quem trabalho. Sinto-me imensamente jovem. Imensamente no princípio dessa atual existência.

Onde estou? Para onde estou indo? Como me sinto? Diariamente me interrogo. Enfrento o maior recomeço de minha vida aos 30 anos. País, língua, pessoas. Tudo é estrangeiro. Desconhecido e incerto. Eu, tão principiante. Regresso ou Recomeço?

Por toda vida quis sair do Brasil, achando que isso seria o mais longe que conseguiria ir. Por toda vida quis ir pra longe. Aos 30 anos estou no lugar mais longe que já estive. É uma vitória? Não sei. Ainda não consegui entender. É muito mais contemplação do que satisfação.

Tenho uma frase em francês tatuada no braço: “Protege moi de mes desirs”. Um velhinho ao ver tal tatuagem me disse: Então você já sabia que viria para o Quebec?  Por isso tatuou em francês? Não sei se a conexão faz muito sentido, mas eu fiquei muito emocionada.

Diariamente ainda me pergunto como vim parar aqui. Não entendo. Só contemplo.

Fui viajar por duas semanas. Atravessei o Canadá. Queria um lugar longe para estar. Longe do peso da rotina. Longe de mim. Aluguei uma bicicleta. Pedalava 30 a 40km por dia. Chegava no hostel toda encardida e com o corpo estalando. Era a última a dormir e a primeira a acordar. Tentei fazer amizades chamando algumas meninas, bem mais novas, para fazer trilha comigo. Elas me olhavam assustadas e diziam: Mas por que você quer ir pra tão longe? E quando eu dava os ombros dizendo: Ok, sem problemas, vou sozinha mesmo, elas diziam: você é bem louca né. E eu saia balançando a cabeça, achando graça, porque sempre foi assim. E ainda é.

Sinto-me imensamente jovem. Imensamente no princípio.

 

Immortality – Pearl Jam