Branco

Duas Semanas em Montreal

Quando o avião se aproximava de Montreal, o chão se tornava branco. Parece óbvio contando assim, mas, daquela altura, eu demorei um tempão para perceber que aquilo era neve. Eu nunca tinha visto neve. Era a primeira neve da estação, ainda tímida, invadindo a cidade.

Antes de vir para cá li um poema que refletia sobre a Lei do Eterno Retorno de Nietsche, dizia: “o meio do meio da vida; o momento em que o que já vivemos é exatamente igual ao que ainda não vivemos.” Seguirei eu os mesmos passos sobre um outro cenário? O que o lado de fora interfere no lado de dentro? Ou vice-versa.

Uma língua que não entendo. Pessoas que não conheço. Branco. Vazio. Durante esses 15 dias eu senti uma oscilação extrema entre liberdade e asfixia. Às vezes me deslumbro, noutras me sinto totalmente perdida.

Amo esse clima. Esse vento cortando a pele, essa fumaça saindo da boca, a neve caindo, acima de tudo a neve caindo.  Hoje fui ao Parque do Mont-Royal. Era o lugar que eu mais queria conhecer, e demorei duas semanas para ir, porque durante todos esses dias fiquei aqui toda louca atrás de casa. Essa mania de trocar o importante pelo urgente, ou seria o contrário? Eu sou obcecada. É uma característica primordial minha que dita todas as outras: dedicação, coragem,  perfeccionismo, teimosia… Quando começo a fazer algo, não consigo parar até terminar. Perco a noção do tempo . E não consigo fazer mais nada.

Fui numa loja indiana comprar um tecido com a imagem de Durga para colocar no meu quarto. Deparo-me com um de Kali, a terrível Kali. Era lindo e barato, sem pensar muito o comprei também.  Chegando em casa me arrependi. Quê pesado ter uma imagem de Kali na parede. Kali é sem dúvida a deidade mais complexa do panteão hindu. Deusa da morte e do tempo. Insaciável por destruição e renovação. Decidi devolver o tecido, mas não cheguei a tempo, a loja já estava fechada. Achei que era um sinal. Voltei pra casa e fui reler o mito da deusa. Kali é tão temida pois representa a sombra de tudo. A parte escura que os olhos não alcançam ou desviam. Kali foi a deusa que derrotou um exercito sanguinário de demônios e salvou assim todos os outros deuses. Deparar-se com Kali é deparar-se com os nossos demônios; ilusões, ego; tudo aquilo que não tem porquê, que só bloqueia e cega. O problema é que não queremos ver esses demônios, não queremos assumir que os possuímos. E assim tememos Kali; tememos a nossa sombra.

Coloquei a imagem de Kali na minha sala, bem visível.  A previsão da próxima semana é -15. O início é branco.

 

The dying of the Light – Noel Gallagher

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Um dia

Estar em Araraquara sempre me arremete a uma imagem da infância: o chão da cozinha da minha casa, eu sentada, encostada na parede, com os joelhos junto ao peito, de olhos fechados, espremidos. Eu tentava visualizar tudo daquilo que eu não conseguia ver. Eu começava a imaginar o que poderia haver além daqueles muros, lá na casa do vizinho, e depois o que haveria além do meu quarteirão, além do meu bairro, da minha cidade, das estradas, do estado, do país. E um desespero enorme me caía. Uma vontade de sair correndo. Um aperto. Uma falta de ar.

Araraquara me era um aquário. Cresci com a obsessão de pular fora da cidade. Pra qualquer lugar. De qualquer jeito. Todos os meus planos, durante toda a minha vida, giraram em torno desse plano de fuga. Qualquer lugar, menos aqui. E o quanto mais longe, melhor.

No meu último ano em Curitiba esse desespero infantil me atingiu. Eu tentava o dissecar, tentando compreender a sua origem. O problema não era a minha rotina, ou a cidade, ou a forma que eu, sobre ela, vivia. Então eu dava os ombros. Achando bobagem. Todos nós possuímos afinal essa vontade súbita de ir embora. “Minha dor não era dor, era só cansaço.” Lispector, se não me engano.

Eu não fui atrás do Canadá. Considero. Eu não cogitava em sair agora de Curitiba, quiçá do Brasil. Mas quando essa oportunidade surgiu, eu me agarrei a ela com tudo que eu tinha e não tinha. É difícil, até pra mim, entender essa atitude tão extrema. Eu estava no momento mais fértil de minha vida. É leve jogar tudo para o alto quando temos muito pouco ou quase nada. Mas eu tinha tanto. E mesmo assim, aquele desespero de ir embora só crescia. Por mais que eu amasse Curitiba, eu já não me sentia em casa. Creio que o maior motivo foi o peso do tempo, da idade. A cada dia me sinto mais velha. Num sentido de possuir menos tempo. E eu cansei de entregar os meus sonhos a um amanhã que se quer sei se existirá. No que depender de mim, será agora. Porque os resultados podem não estar no agora, mas a ação está.

Nessa véspera da maior mudança da minha vida, uma calma absurda me invade. Eu não me sinto indo para outro continente, ao extremo norte. Sinto-me indo pra qualquer lugar aqui do lado, pertinho. O desespero de correr diluído na paz de ir. Eu fortemente acredito que a diferença não está no caminho, mas no caminhante. Na autenticidade do caminhar. É por isso que estou indo, explico-me, acalmo-me. Vou.

 

Cody – Mogwai

DOA-SE

3 sacos de roupas velhas. Mas ainda servem como pele

1 saco de sapatos velhos. Mas ainda servem como chão

5 caixas de utensílios de cozinha, 2 de roupa de cama

3 caixas de livros, 2 de Cds, Dvds, Vinis, fitas cassete

1 caixa de bugigangas inúteis. Vulgo “enfeites”

Tapetes. Cortinas. TV, aparelho de Dvd, liquidificador, aspirador de pó

Já aviso que é tudo muito simples, gasto, antigo. E sujo de mim.

Impressões digitais, memórias, cheiro de incenso. Isso não consegui limpar

Coisa usada é coisa assombrada. Habitada por histórias. Rastros.

Confesso que nas minhas coisas, em particular, há um pouco mais de mim

Porque eu fiz um trato com a vida. Na tentativa difícil de mudar-me de mim

Mudo de casa. De cidade. De país

E deixo-me.

 

Bill and Ben – Catherine Wheel

Umas malas, um monza e 800 km

Decidi sair de Curitiba como cheguei: dirigindo. O destino é Araraquara, minha cidade natal, aonde irei passar as minhas 3 últimas semanas no Brasil. São 800 km, 10 horas de viagem. A princípio eu planejava vender o meu carro aqui e voltar de ônibus. Mas, já que deixei tudo pra última hora, acabou ficando muito em cima para vender o carro. Eu também precisava fazer vários reparos nele antes de vender, se não desvalorizaria demais o veículo. Então, já que estava investindo em manutenção, decidi usufruir disso antes de passá-lo para frente. E fiquei feliz pra caramba com a ideia. Amo pegar estrada. Já passei muito apuro na pista, incluído uma quase morte, mas nada me fez perder a paixão. O mais interessante é o significado disso: o fechamento de um ciclo. Cheguei aqui no meu monza. Partirei daqui dentro dele.

Hoje é domingo, dia 29 de outubro. Falta 1 semana para eu sair de Curitiba e a minha casa está intacta. Não fiz nada ainda. Eu tinha certeza que deixaria tudo pra última hora. Estou um pouco em choque diante a tudo. Paralisada com tanta coisa para fazer, para resolver, sem saber direito por onde começar, como começar. Agora vai ser aquela loucura. Tenho que entregar a cada dia 5. Então, não há mais como enrolar. Uma semana pra desmontar uma casa, uma vida. O que facilita é que vou doar tudo. Tudo. Tirando os meus instrumentos e o meu carro, todos os meus outros pertencer serão doados. A minha vizinha, que a proprietária da minha casa, está me ajudando absurdos nisso. Fizemos um rolo e eu combinei de deixar todos os meus móveis para ela, em troca não vou ter que pagar pela pintura ou nenhum outro reparo da casa. Para mim isso foi uma vantagem imensa, pois eu doaria tudo de qualquer jeito. Ela também se propôs a ficar com todo o resto das minhas coisas, incluindo roupas, sapatos, objetos pessoais… E repartir tudo entre doação pelo bairro e para Ongs.

Estou ansiosa para a chegada desse dia de partida de Curitiba. Ansiosa em todos os sentidos. Isso se tornou um divisor de águas. Não se trata só de deixar Curitiba, cidade onde passei meus últimos 4 anos; trata-se do desapego de uma casa, de um abrigo. Moro sozinha há 10 anos. Tenho uma casa há 10 anos. Partir de Curitiba é partir de uma identidade; é me desprender de todas as minhas coisas, de toda a minha segurança. E não falo só do que existe dentre quatro paredes, mas principalmente de tudo que está do lado de fora. É exatamente isso que torna esta mudança tão abruta. Deixar Curitiba é deixar tudo que cultivei e colhi nesses 4 longos anos. Esta é a parte mais difícil. Deixar um oásis e me atirar numa vazia rodovia. Eu, umas malas, um carro velho. E mais nada.

 

She looks to me – Red Hot Chili Peppers

26 de Outubro

– 30 dias

A quiromancia ensina que os traços da mão esquerda não mudam, só o da direita. O destino muda. O livre arbítrio o faz mudar. Mas antes de tudo, há esse emaranhado de linhas que fincam. Determinam. Elas variam de composição, às vezes são de barbante, outras de aço.

Era novembro de 2012 e eu me preparava para deixar São Paulo. Tive um sonho forte antes de partir. No sonho eu acordava dentro do rio Tietê, boiando em cima de um colchão. A correnteza era forte e me levava. Eu tentava gritar, mas tudo parecia suficientemente longe. Minha voz era um som mudo. Era madrugada, a cidade calada. Uma calma me invadia, como se eu soubesse que nada podia fazer. Não dependia de mim. Parecia. Então eu deitei naquele colchão barco e fiquei, me deixando levar. Adormeci. Acordei assustada pelo forte som de água. A correnteza aumentara, o vento gelado cortava o meu rosto. Blocos de gelo surgiam na água. E começou a nevar. Eu estava longe. Muito longe.

Nunca passei tanto tempo olhando para a palma de minha mão como agora. Fico assim procurando a linha, a exata linha, que me trouxe até aqui. Ela existe? E se sim, pra onde continua?

Montreal me é um extremo de sensações. Uma segurança absurda me invade. Um desolamento absurdo me invade. E assim, os extremos se anulam. Contemplo, apenas. Como se algo maior e um tanto incontrolável me levasse, me guiasse. E eu, como criança frágil, consentisse. Pra onde vamos? Às vezes pergunto. Não há resposta.

 

Little Things – Bush

As ruas que conheci sem ver

O último mês

Acabei antecipando a busca por moradia em Montreal. Queria chegar lá com um lugar certo pra ficar. E ficar de boa. Mas parece tão atípico isso. E louco. Alugar um lugar à distância. Em outro continente. Sem ver. Acho que isso é trauma do passado. Não querer repetir os mesmos erros. Mas isso não me impede de repetir novos. Aí eu já não sei mais. Mas mesmo os erros sendo inevitáveis, quero fazer melhor, errar melhor ao menos.

Nas minhas outras mudanças a procura por um canto para morar foi a parte mais difícil. E demorada, principalmente demorada. Tanto em São Paulo como em Curitiba eu fiquei meses atrás disso, sem conseguir fazer mais nada direito, dedicando todo o meu tempo livre nessa procura por residência. E isso me deixou irada. Esgotada. E quando finalmente consegui arrumar um lugar, veio a outra etapa: torná-lo habitável. Em São Paulo eu não tinha nada, em Curitiba eu arrastei uma casa junto de um estado para o outro. Em ambos os casos foi uma trabalheira só, devo ter ficado uns 4 meses ou mais entre conseguir um aluguel e dar uma jeito no lugar. E já trabalhando, não me sobrava tempo algum livre. Em ambas as vezes achei isso uma baita insignificância. Extravagância. Perda de tempo. Podia ser tão mais simples, tão mais fácil… Podia?

A decisão de sair do Brasil já com um aluguel arranjado também tem o seu preço, e o seu peso. Faz duas semanas que estou imersa nesta procura, desprendendo um tempo enorme para isso. E sinto-me trocando os pés pelas mãos. No ímpeto de querer simplificar, complico.

O que eu queria era chegar lá com um canto certo para ficar, perto do meu trabalho, numa rua calma. Ir numa loja de móveis usados, comprar um colchão, uma mesa, duas cadeiras e só. E pronto. E começar o mais cedo possível a dedicar o meu tempo praquilo que realmente importa. Porque cada vez mais me sinto com menos tempo. E não quero desperdiçá-lo.

Qualquer jeito acarreta dois lados. Vai ser difícil, vai ser significante. De maneira diferente, mas com igual equivalência. Nesta atual e precipitada procura, um ganho grande foi a vivência de Montreal, de suas ruas. Já as conheço de cor. Nessa atividade diária de procurar moradia, colocar no Google pra ver onde fica, visualizar, ligar os pontos. Um mapa mental. Montreal tornou-se virtualmente íntima para mim. Seus bairros, seus traços, suas particularidades. A divisão engraçada entre áreas inglesas, francesas, estrangeiras… Já até defini os meus parques preferidos. Tudo assim, sem ver. Como conhecer alguém especial pela internet, e ficar dias conversando à distância, vendo fotos, descobrindo detalhes. Construindo um laço. Montreal e eu.

 

Supersonic – Noel Gallagher

Precisava de você aqui

Rindo dos meus conflitos inúteis. Dizendo-me assim, num tom terno de deboche: Mas como você é dramática!

Ando preocupada demais, assim, só comigo.

Precisava de você aqui

Rindo das minhas pergunta excessivas sobre o seu dia, sua vida, seus pensamentos. Dizendo-me assim, meio assustado, meio achando graça: Meu deus, como você é curiosa, ninguém pergunta isso!

Precisava também te contar as histórias que vejo, ouço, vivo. Sinto que as desperdiço assim, guardando pra mim.

Ando me engasgando com as palavras. Empurrando-as pra dentro.

Precisava de você me criticando. Dizendo que estou errada. Assim, na minha cara. Como ninguém faz. Só você.

Você, que levou uma parte de mim. Você, que não encontro em mais ninguém.

Precisar de você é precisar de mim.

 

Before We Dissapear – Chris Cornell

Cuidar-me

Rejeitada, errada, envergonhada
Sentia-me
Resolvi ir limpar a casa pra distrair a cabeça
Sinto-me tão a minha mãe nessas horas
Mas a casa realmente estava imunda
E eu precisava renovar as energias.
Coloquei um álbum ao vivo de um cantor favorito, bem alto
E me lembrei de como isso transforma a faxina em euforia
Principalmente pela disputa não verbalizada com o cantor
Pra ver quem canta mais alto.
Depois fiz do banheiro um SPA
Depilação, argila na cara, hidratação no cabelo
Casa bonita. Corpo bonito.
Senti-me renovada
Mas ainda faltava cuidar da alma
Acendi duas velas e um incenso
Conversei com o Universo
Pedi forte por discernimento
Pra saber quando persistir e quando desistir
Mediante tudo aquilo que não cabe a mim
Ou que não vale a pena.
Fiz chocolate quente
Acertei o despertador pra bem cedo
Amanhã é dia de fazer melhor, ser melhor
Acreditar melhor
Dormi.

 

Choke – Aline in Chains

4: Não tinha nada ali

Meu vizinho há pouco tempo demoliu a sua casa. Eram duas pequenas casas de madeira em seu terreno, as quais sucumbiram a pó do dia para noite.  Rapidamente uma nova começou a ser levantada, radicalmente diferente: um enorme sobrado de alvenaria. Foi interessante acompanhar assim, diariamente, esse processo; a demolição, a limpeza, o nivelamento do terreno, os pilares, os tijolos dando contorno à construção, o cimento, a pintura… Não me lembro de quanto tempo levou exatamente, mas parece que foi magicamente rápido; parece que há poucos dias não tinha nada ali, e agora há um enorme sobrado quase finalizado. Isso me inspirou muito. Porque eu sinto que na minha vida também aconteceu uma análoga demolição. E é difícil, muito difícil, enxergar uma construção emergindo do terreno vazio, ainda tão destroçado e bagunçado. É passo por passo. Dia por dia.

Já se tornou parte da rotina acordar e dizer: falta um dia a menos para o embarque. A contagem regressiva não é pela expectativa com o futuro, mas pela preocupação com o presente, perante tudo que é preciso ser edificado. Acordar no meio da madruga pelos gritos dos meus pensamentos já é de praxe também. Não está sendo nada fácil. Sinto-me desolada no meio de tanto a se fazer. Muitas vezes me acho prepotente, ou sem senso de realidade. Como se eu estivesse fazendo algo além da minha capacidade. Faltam menos de 3 meses agora, e ainda sinto-me num terreno vazio.

Imprimi um mapa de Montreal, bem detalhado. Coloquei na minha estante de partitura. Bem visível. Salvei uma foto bonita de Montreal em novembro, toda dourada pelo outono. Coloquei como fundo de tela do meu computador. Bem visível. Na psicologia isso é chamado de “reforço positivo”, na física quântica de “lei da atração”, de qualquer forma, acho válido. Como se fosse a planta da casa que orienta a construção. Confesso que ainda tenho dificuldade em visualizar essa mudança. Ainda parece brincadeira. Fantasia. Ainda é muito estranho dizer: Estou me mudando para o Canadá. Como se não fosse verdade. É difícil visualizar o resultado nesse estágio, no meio de tanto entulho e vazio. Mas eu sei que é passo por passo, tijolo por tijolo, dia por dia, e daqui a algum tempo, já perante a obra erguida, eu vou me flagrar dizendo: nossa, não tinha nada aqui.

 

Low – Mark Lanegan

Primeira Pessoa

– 29 anos

A maior carência da solidão não está na falta do outro, mas na falta de si mesmo através do reconhecimento; como se a percepção de si dependente da constatação do outro. Sozinho é difícil legitimar-se. O toque, a visão, a voz. Processos externos. Quem me toca, me vê, me ouve? Difícil em primeira pessoa.

Nenhum aniversário foi mais solitário do que esse. Uma síntese deste ano. São dias e dias ao som da minha própria voz, que por falta de um ouvinte transforma o silêncio em plateia. Difícil sustentar um ano tão pesado como este nos ombros Muitas vezes me desmorono. E aí penso “sorte não ter ninguém”, porque este se assustaria. Ou talvez me desmorone por falta de suporte? Já não sei. Sinto-me usualmente pequena. Incapaz. Mas, como tudo, isso passa. E aí me proponho, fervorosamente, a transformar a fragilidade em força. Não é um passe de mágica.

Meu aniversário caiu num sábado. Azar o meu. É bem aos finais de semana que a solidão se torna mais forte. Fui a um parque no final da tarde. Neste mês uma terapeuta holística me disse que a minha cor de “recarga enérgica” é a verde. Achei muito certeiro. Não me há remédio mais poderoso do que a natureza. Ir a um parque me é algo tão transformador que eu mesma não entendo o poder disso sobre mim. Ontem fui ao magistral parque Tanguá, e caminhei rumo ao meu local preferido: um gramado nos confins no parque adornado por esparsas e altas árvores, criando um efeito de dimensão, de liberdade. Deitei no gramado e fiquei assim por muito tempo, ao som de pássaros e galhos ao vento, vendo aquele céu sendo pintando pelo sol poente. A solidão naquele momento se dissolvia e se transmutava em solitude. Serena contemplação. Íntimo encontro. Eu me esquecia naquele ambiente e assim me encontrava; esquecia de minhas vaidades, inseguranças, feridas; e assim conseguia verdadeiramente me perceber. Talvez a gente precise tanto de alguém pra isso; para esquecer-se e reencontrar-se.

Deitada naquela grama, com aquela visão paradisíaca, eu me lembrei do motivo que me trouxera à Curitiba. Eu queria um lugar bonito. Eu queria uma vida bonita. E eu tinha. E eu tinha. E neste instante me lembrei fortemente, e muito emocionada, do trecho de um canção:

If only they could see,
if only they had been here,
they would understand,
how someone could have chosen
to go the length I’ve gone,
to spend just one day riding.

Meus 29 anos surgem como a etapa mais verídica de minha vida. São camadas e camadas que me despido e assim me descubro. É assustar estar assim: nu. Sinto-me frágil, vulnerável. Sinto frio. Mas sinto grande alívio também, como se deixasse uma casca dura e pesada para trás. Como se partisse. Esse momento é meu. E eu preciso vivenciá-lo a sós. Hoje, no meu primeiro dia com 29 anos, inicio como um rito esse processo de autolegitimação. Tento me ver desprendida de mim, uma criança que precisa ser cuidada, ensinada. E me pego no colo, e me acalmo, e sussurro: está tudo bem. Está tudo bem.

 

Cayman Islands – Kings Of Convenience