Are you willing to pay the price?

Sobre dificuldades e ciclovias

Você está disposto a pagar o preço?” Aprendi essa expressão em inglês há pouco tempo, e achei demais. O verbo “to will” significa algo como “desejar”, “ter vontade”. Disposição é ter vontade, principalmente diante do não agradável do caminho – de qualquer caminho. Pensei nisso hoje quanto pedalava para chegar ao trabalho. Há umas partes realmente cansativas no meu percurso diário, mas outras são puro deleite. O saldo de longe é positivo, trocar o caos do metrô pela liberdade das ciclovias foi a melhor coisa que fiz em Montreal. Muito mais do que isso, até virou uma terapia, uma coisa boa no dia. As íngremes subidas de alguns trechos, que me deixam ensopada de suor, são o preço. Sair mais cedo de casa também. Se antes demorava 15 minutos de metrô, agora são 45 minutos pedalando. Mas 45 minutos vividos.

Ando lendo sobre algo incrível: “SISU”, uma expressão/filosofia finlandesa. Seria algo semelhante à “resiliência”. Mas não se trata exatamente de “resistência” diante à dificuldade, mas sim “aceitação”. Aceitar que a dificuldade, o sacrifício, a demora, o imprevisto, o fracasso; existem. E mesmo assim, continuar. E mesmo assim querer continuar.

É incrível como o autoconhecimento é um caminho longo. De uma vida. A gente nunca se conhece o bastante. Ou bem. A gente costuma se conhecer muito pouco e errado. Talvez porque mudamos o tempo todo? Ou o que muda é a consciência, e nós continuamos o mesmo? Porque não somos a nossa consciência não. Posso ter a consciência que preciso mudar, e continuar o mesmo. Posso achar isso imponderável hoje, e amanhã estar o fazendo. O direcionamento mudou, não quem o direcionou.

A dificuldade sempre me pega de jeito. Eu creio que isso está ligado à minha imprudência. Esse meu ímpeto sonâmbulo de ir de olhos fechados. E assim, caio. Sempre. Ou quando acordo, não sei direito onde estou, ou porquê estou. Mas isso, como tudo, tem as suas vantagens. Aliás, li exatamente sobre isso pesquisando sobre o SISU. A conduta de “saltar sem olhar para baixo”. Creio ser essa imprudência aquilo que me leva. Quando nem eu sei como ir. Por outro lado, vejo em mim uma imensa incapacidade de lidar com a queda, toda vez que escorrego ou o chão se desmorona. Agora começo a entender que a natureza disso é a minha incapacidade de assumir o todo. Realmente assumir. Com vontade. Pois os buracos, as instabilidades, o cansaço, os tantos sacrifícios; existem. Em tudo. Assim como o lado bom, o qual precisa (deve) compensar.

 

Therein – Dark Tranquility

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Longe

Neste semestre tenho dois grandes objetivos: Finalizar e lançar o meu projeto musical e aprimorar o meu inglês para alcançar uma boa nota no IELTS acadêmico, teste de proficiência. Percebi, recentemente, uma conexão forte entre ambos: vertigem. Mais do que isso: sensação de escuro. Bem, preciso explicar-me melhor. Quando estou cantando e ainda não domino a melodia, sinto-me caindo. Entro naquele trecho da música onde não consigo sustentar e a sensação de queda é quase palpável. Sinto-me cair. Ou caminhando no escuro, sem saber onde estou ou o que há em volta. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Das notas. Do percurso. E eu também sinto isso – exatamente isso – falando inglês. Tento dizer, mas encontro um buraco na minha frente, um escuro, onde não ando ou vejo. Não controlo. Perco-me. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Da fala. Daquilo que se quer expressar.

Muitas vezes no meio do ensaio paro, esfrego a mão no rosto e penso: estou tão longe meu deus. Tão longe de lapidar 30 músicas para começar a me apresentar com qualidade. Muitas vezes no meio do estudo paro, afundo-me na cadeira e penso: estou tão longe. Tão longe de falar inglês com domínio. De conseguir entrar numa universidade e apresentar aqueles seminários como a porta-voz do grupo – como eu costumava fazer no Brasil, na minha língua nativa.

Sussurro quase como um mantra: um passo de cada vez, um passo de cada vez. Calma. Calma. É normal quando se está longe de onde se quer chegar, não ver. Na estrada a gente não vê o destino. Mas estamos indo. Aproximando-se. E quanto mais distante o lugar, mais longa a viagem. Não tem jeito. Não tem poção mágica. Mas tem um kit de artefatos essenciais: Autoconfiança, paciência, persistência. Eu, Aline, por exemplo, escrevo quando o cansaço e a tristeza apertam, e eu preciso estacionar um pouco.

 

Hope – John Frusciante

Meu Tempo

Sábado, 21h, sozinha em casa. Fazia tempo que não reparava no aconchego da minha sala vazia. Vazia de móveis, vazia de gente. Mas como amo essa luz tímida de abajur, ou esses tons de vermelho vindo da cortina e do tapete, abraçando o ambiente. Senti uma paz que há tempos não sentia. Uma não pressa, um não dever. Precisava tanto disso, pensei. Precisava tanto de tempo para mim.

Recebi duas solicitações extras de clientes ontem. Falei não. Não tenho tempo. Acabo de terminar um relacionamento. Porque não tenho tempo. Preciso urgentemente de tempo para mim. Agora, hoje, nesses meus últimos 4 meses em Montreal, onde não só concluo uma grande fase, mas principalmente preparo-me para atravessar outra muito maior e desafiadora. Sem preparo, sem tempo, não vou conseguir.

Lembro-me forte de um amigo dizendo: “Acho que a gente devia se preocupar mais em criar um plano de ação do que simplesmente sair assim adoidado agindo, vivendo sem saber direito pra quê ou como.” Essa frase anda me infiltrando fundo. Preciso de um plano melhor, sinto, de um tempo mais canalizado e deliberado. É difícil isso na prática. Difícil acertar de primeira. Mas não tem outro jeito né, é insistir e reformular, e insistir e reformular.

A parte ruim da solidão é ter que tirar do próprio âmago apoio. Porque é normal sentir-se um lixo. Um incapaz. Não, não vai dar certo. Olhe como os resultados estão longe! Difícil o auto-acolhimento. Mas, muitas vezes, mesmo rodeado por pessoas queridas esse apoio não existe. Pelo contrário, o sentimento de fracasso multiplica-se. Você pensa: sou tão incompetente que nem quem gosta de mim é capaz de me apoiar. Não é isso, meu amor, é que as pessoas estão preocupadas e exaustas demais com suas próprias batalhas. Frase feita. Mas verídica. Eu também alego, apontando um ângulo não tão otimista e gentil, que as pessoas possuem um inconsciente instinto de competição, com tudo e todos. Resíduo da nossa parte animalesca lutando por sobrevivência. E esse instinto, inconscientemente, clama pelo fracasso do outro. Eu disse: inconscientemente. Não fazemos por mal não. Nem se quer deliberamos isso. É mais uma energia do que uma ação. É como se o fracasso do outro consolasse o nosso, o limite do outro normatizasse o nosso. E assim vai. Há quem chame isso de inveja ou coisa do tipo. A explicação psíquica me atrai mais.

Independente da parte lógica que tento encontrar com palavras, há algo indizível aqui pedindo espaço. Para mim, por mim. Para cuidar-me, preparar-me, consolar-me. Ou apenas descansar hoje, nesse domingo, na quietude da minha casa. Para acreditar melhor, amanhã.

 

Textura

Descobri uma mania estranha minha: passar as mãos nas superfícies. Por onde passo. Um poste, um muro, um tronco, uma cortina. Mas passo a mão assim quase acalcando, como se tentasse tirar um pedaço. Ou mergulhar os dedos.

Tenho outra mania que já conheço bem de tanto os outros me falar: olhar muito. Se entro na casa de alguém, por exemplo, olho os mínimos detalhes, numa conduta até indelicada; deixo o meu hóspede de lado e começo um tour não guiado em torno do cômodo. Mas a minha curiosidade não é só visual ou tátil. Outra mania é fazer perguntas. Essa também sei porque a primeira reação é: mas como você pergunta! A questão não é querer saber muito sobre alguém, mas saber melhor. Descobrir melhor. Embaixo da superfície.

Quando criança o que eu mais amava era ouvir história e criar história. Acho que comecei a escrever assim. Antes mesmo de saber escrever. Gastava um bloco de papel sulfite por dia, desenhando as minhas histórias. Hoje eu também penso que isso foi uma resultante da minha solidão, ou melhor; um escudo. Cresci imensamente sozinha. Sem ter com quem conversar ou narrar as minhas histórias. Por isso precisei usar o papel de entretenimento e ouvinte.

Ainda sobre a infância, lembro-me forte de um gravador o qual minha mãe comprou para gravar as histórias as quais ela me contava antes de dormir e eu pedia incontáveis vezes para ela repetir. Mas o gravador não respondia as minhas perguntas e nem ouvia as minhas próprias histórias. Foi aí, na continência desse silêncio, que eu comecei a sedimentar essa afoita necessidade de contato; de interação. Foram anos e anos de histórias guardadas e perguntas caladas. À espera. E isso virou um ciclo, como tudo vira nessa vida. Até hoje, já muito crescida, me vejo só diante de gigas e gigas de textos e canções, e interrogações. À espera.

É por isso que quando encontro algo ou alguém no meu caminho, enfio a mão, mergulhos os olhos, seco a garganta. E a pessoa costuma me olhar assim assustada, achando meio engraçado e um tanto estranho. Mas – quase nunca – isso é recíproco. Porque o outro não costuma entender nada sobre gravadores com voz de mãe e nem de histórias sem palavras. O outro não viveu a minha vida e nem possui a minha – exacerbada – necessidade de mergulho. Quase sempre o outro me toca a pele, acaricia-me os cabelos, beija-me sutilmente os lábios. E se vai. Saciado pela minha superfície. E eu fico nessa redoma lisa onde escorrego cada vez que tento agarrar algo ou apoiar-me.

 

Texture – Catherine Wheel

Você não me Salva

No final do dia quando eu não acredito mais em mim
Nas minhas tentativas desesperadas e frustadas
Na minha necessidade de me virar por fora
Porque eu estou dentro
Você fora
Você não me vê
E eu me perco todas às vezes
Buscando o meu reflexo nos seus olhos
Mas eu não me vejo.

Você não me salva
Do peso da minha solidão
Do nó da minha garganta
Das unhas quebradas de tanto cavar
Para você eu sou duas partes
A sua e a minha
Cuide-se você diz
Porque você não vai cuidar de mim

Quanto mais me salvar
De mim.

 

Alone – Depeche Mode

Balanço

Faz 4 semanas que não limpo minha casa. Logo eu, A virginiana, que outrora passava pano no chão todos os dias. É que essas últimas semanas foram uma loucura, e achei que tinha coisas mais importantes para me preocupar do que a poeira no chão. Tanta gente vivendo nas ruas, um chão suja não vai me matar não.

Um vento gelado já surge vez ou outra cortando o mormaço escaldante desse verão. Os dias já não são tão compridos. As florem caem. Fim de agosto traz um semblante de mudança, de movimento.

Era quinta-feira fim de tarde. Que dia difícil meu deus. Doído. Meu corpo latejava. Saí do trabalho e fui para o outro lado da cidade ao encontro de uma bicicleta velha que achei nos classificados. Tive que pegar um metrô e um ônibus, lotados de morrer. A fila do ônibus pegava todo o quarteirão. Horário de pico, de caos. Mas cheguei cedo no local, uns 40 min antes do horário combinado, e vi que tinha uma praça logo aí. Fui para lá.

Era uma tradicional praça de Montreal aquela. Um parque infantil no centro rodeado por árvores e mesas de madeira com grandes bancos. Fui direto no balanço. Balanço alto, que sorte. Passei meus 40 minutos ali, vivenciando algo tão forte que não sei direito como narrar.

Na minha frente algumas crianças brincavam, os pais acompanhavam, alguns adolescentes nos banco conversando, algumas bicicletas passavam. Duas senhoras com roupas étnicas apareceram. Africanas talvez. Uma delas sentou-se no balanço, olhou para mim e deu um sorriso largo de cumplicidade, balançou alguns segundos e sentou-se no banco com a colega. Começaram a conversar intensamente. Era um quadro aquele lugar, com aqueles personagens, naquela atmosfera tão oposta ao caos da cidade despedaçado no fim do dia.

Eu balançava alto, sem parar, e aquele vento atravessando o meu corpo parecia dissolver todo o cansaço, estresse, dor. Foi um momento extremamente espiritual esse. Difícil explicar por quê ou como. Mas foi, uma cura. O que mais me tocou foi o efeito daquela simplicidade; não aconteceu “nada”, eu não vi nada, não foi “nada” de surpreendente e palavras até me fogem perante tamanha subjetividade. E mesmo assim, significou tanto. As coisas mais importantes são silenciosas, pensei. E um tanto invisíveis.

A dualidade sempre vai permear a vida, a nossa vida. A rotina sempre vai ser essa mescla de massacre e milagre, misturados, dissolvidos, E só cabe ao indivíduo a capacidade de alquimia, de reversão, de cura. E como a cura é urgente. Todos os dias. Mais urgente ainda, é perceber que a cura está ali, logo ali, na simplicidade esquecida. Não nas ambições inalcançáveis, não no amanhã que ainda não existe. Mas logo ali, aqui, agora, por dentro.

 

Strip my Mind – Red Hot Chilli Peppers

Rugas

– 30 anos

Um leque de linhas finas me salta ao redor dos olhos, duas mais grossas envolta da boca, incontáveis dentro da alma. São marcas escavadas por todas as ventanias e correntezas que atravessei. Minha pele fina, fraca, humana; sede, sangra, sedimenta.

Data forte essa: 30 anos. Quando adolescente costuma ver uma pessoa de 30 anos como alguém muito maduro. Na idade da razão. Vida feita. Hoje já acho o contrário. Principalmente quando olho para os meus pais, ou para os tantos idosos com quem trabalho. Sinto-me imensamente jovem. Imensamente no princípio dessa atual existência.

Onde estou? Para onde estou indo? Como me sinto? Diariamente me interrogo. Enfrento o maior recomeço de minha vida aos 30 anos. País, língua, pessoas. Tudo é estrangeiro. Desconhecido e incerto. Eu, tão principiante. Regresso ou Recomeço?

Por toda vida quis sair do Brasil, achando que isso seria o mais longe que conseguiria ir. Por toda vida quis ir pra longe. Aos 30 anos estou no lugar mais longe que já estive. É uma vitória? Não sei. Ainda não consegui entender. É muito mais contemplação do que satisfação.

Tenho uma frase em francês tatuada no braço: “Protege moi de mes desirs”. Um velhinho ao ver tal tatuagem me disse: Então você já sabia que viria para o Quebec?  Por isso tatuou em francês? Não sei se a conexão faz muito sentido, mas eu fiquei muito emocionada.

Diariamente ainda me pergunto como vim parar aqui. Não entendo. Só contemplo.

Fui viajar por duas semanas. Atravessei o Canadá. Queria um lugar longe para estar. Longe do peso da rotina. Longe de mim. Aluguei uma bicicleta. Pedalava 30 a 40km por dia. Chegava no hostel toda encardida e com o corpo estalando. Era a última a dormir e a primeira a acordar. Tentei fazer amizades chamando algumas meninas, bem mais novas, para fazer trilha comigo. Elas me olhavam assustadas e diziam: Mas por que você quer ir pra tão longe? E quando eu dava os ombros dizendo: Ok, sem problemas, vou sozinha mesmo, elas diziam: você é bem louca né. E eu saia balançando a cabeça, achando graça, porque sempre foi assim. E ainda é.

Sinto-me imensamente jovem. Imensamente no princípio.

 

Immortality – Pearl Jam

Preciso de uma bicicleta

Para resolver a vida
Tornando-a mais lenta.
Ando pegando muito metrô sabe
Não consigo ver o caminho assim
Nessa conexão veloz entre destinos fixos
Porque a chegada é sempre parada
Perco o movimento na pressa do dia-a-dia.

Preciso de uma bicicleta
Pra sair mais cedo de casa
Sentir o vento batendo no rosto
Virar a esquina errada
Descobrir uma rua nova
Preciso cansar o corpo pra silenciar a mente
Tão assustada no meio da multidão desesperada.

Preciso de uma bicicleta pra resolver a vida
Porque a vida se resolve assim
Nos detalhes
Nas sutilezas que nos carregam
Pequeninas escolhas que formatam o dia
Talvez não pra onde se vai
Mas como se vai
Preciso de freios sobre a estrada.

O que eu quero, o que eu preciso, o que eu me obrigo

Sobre linguística, escolhas e limites

Ano passado entrei na faculdade de psicologia. Uma sala com mais de 80 alunos. Eu sentava na primeira fileira. Não conversava com ninguém. Passava o intervalo andando em volta do grande lago do campus, sozinha. Mas durante as aulas, eu não me aguentava. Sempre debatia com os professores. Minha mãe já tinha falado, quando me via estudando os gigantescos livros de psicologia antes mesmo de começar a faculdade: “Vai entrar no curso discutindo com os professores! Pensando que sabe mais do que eles!” Nem de longe isso. É que eu tenho uma necessidade gigantesca de comunicação; de deliberação. Rapidamente um boato se espalhou pela turma: de que eu era formada em filosofia. Por isso “sabia” tanto. Quem me dera. Todos os dias algum colega me abordava no corredor ou na fila do refeitório e me dizia: “Meu deus menina, como você é inteligente!” Nem de longe isso. É que sempre tive esse dom de abrir a boca e impressionar. De ser admirada por isso. Meu ponto forte. Até chegar aqui, em Montreal, onde perdi a minha voz. Onde o meu discurso não é maior e nem mais elaborado do que o de uma criança de poucos anos. E como isso me dói.

Cheguei no Canada com um nível de inglês bem limitado e sem francês algum. A gente sempre pensa que morar em um país é sinônimo de aprendizagem de idioma. Assim, por osmose. Não. Não. O desenvolvimento do idioma é uma consequência do meio em que o indivíduo se encontra e do seu uso da linguagem perante esse. Como uma criança que sem estímulo, não vai falar. Se um imigrante chega aqui e se limita à convivência de pessoas da sua nacionalidade, se tem um trabalho operacional o qual a linguagem não é uma ferramenta, se a sua necessidade de linguagem se limita à poucas e simples frases; não há desenvolvimento da língua. Por exemplo, eu atendo imigrantes que estão aqui há vida inteira e não falam nem inglês nem francês. A linguagem é passiva.

Durante 6 meses eu não peguei o inglês nem o francês pra estudar. Isso fugiu do meu controle. No meio da turbulência da mudança, do novo trabalho, da nova vida, a impossibilidade de fazer um curso particular… Assim, o objetivo de estudar por conta foi saindo do meu controle. Do lado de fora, não havia estímulos. Morando sozinha, sem amigos, trabalhando com idosos. Meu uso diário da linguagem se resume em poucas e simples frases. As esparsas vezes que me deparo com a necessidade de um discurso mais consistente, afundo.

Perdi a minha identidade. Sinto. Perdi a minha voz. E sinto-me em meio oceano sem saber nadar. Debatendo os braços e as pernas sem sair do lugar.

Desde que cheguei aqui eu me algemei na obrigação de aprender francês. Soa negativo essa frase não, pois ela é. Desde que cheguei não consegui encarar o aprendizado de uma nova língua como uma vantagem, uma oportunidade. No meio de tantas atribuições e dificuldades, o francês se tornou uma pedra algemada. Tornou-se insuportável para mim, por exemplo, ter que pedir para que falem inglês comigo na rua. Sempre fiz todo o esforço para falar o que dava em francês. Frases decoradas. Entrando no Google Tradutor cada vez que saia de casa. Nunca me senti no direito de falar inglês aqui. O francês se tornou uma auto-obrigação que eu me impunha. Sem precisar.

Ficar em Montreal, no Quebec, nunca foi um objetivo. E não é. Ano que vem estou me mudando daqui. Eu trabalho em inglês e espanhol. Por isso digo que não preciso aprender francês. É autossatisfação, apenas. Atrevo a dizer “capricho” até. Algo secundário. Aprender um novo idioma é algo maravilhoso e muito nobre, mas se não for uma prioridade, torna-se um peso por sua tamanha complexidade. Inglês é uma prioridade para mim. Conseguir me comunicar bem aqui dentro do inglês – a língua que uso – é uma prioridade. Também tenho muitos objetivos futuros com o inglês. Meu trabalho aqui – motivo que me trouxa à Montreal – é uma prioridade. A música sempre foi e sempre será uma prioridade. E já são prioridades demais para se carregar,

Obrigação precisa ser prioridade para conseguir ser suportada. Família é obrigação. relacionamento é obrigação. Trabalho, estudo. O nosso tempo é limitado. Sem dúvida alguma o segredo para uma vida saudável é o equilíbrio deste tempo. A maneira que gerenciamos nossos objetivos, nossos afazeres, nossas necessidades. Não é fácil. São tantas opções, tantas vontades, mas também tantas atribuições e limitações; que é fácil se perder ou soterra-se – assim com as próprias mãos. Quanto mais nos dividimos, mais exaustos e angustiados ficamos. É como ter uma vasta plantação para cultivar. E assim, repartindo o adubo e a atenção, o crescimento torna-se lento e debilitado.

Nesses últimos meses mergulhei de cabeça no estudo do inglês. E neste mês comecei o esperado curso intensivo gratuito de francês, o qual eu lutei muito para conseguir. Seis horas por dia de curso. Fora o tempo de ir, voltar… Uma jornada de trabalho. Mas a minha jornada oficial começava depois do curso. E após isso ainda precisava estudar inglês e me dedicar à música.Assim, pirei. Pirei. Já estava exausta. O curso foi a gota que faltava para a minha enchente.

Seis horas por dia em algo que não é prioridade. Uma sala lotada de alunos. Não há atenção individual. A necessidade vital de estudar diariamente o conteúdo – algo impossível para mim. Frustação. Mais uma. Pouca horas para estudar inglês. Exaustão total para me dedicar a música. Frustração. Total.

Decidi sair do curso. Isso no começo me era imponderado. Sentia-me uma fraca quando pensava nisso. Olha essa oportunidade! Como vou jogar isso pro alto! O externo massacrando o interno. Quantas vezes não seguimos esse parâmetro na vida? Colocando o urgente no lugar do importante. Preciso urgente aprender francês porque estou em Montreal. Uma obrigação que não é uma prioridade, por isso se tornou uma algema; algemada pelas próprias mãos.

Vulnerabilidade. Qualidade ou estado daquilo que se encontra vulnerável; frágil, ferido. É difícil admitir isso. Enxergar isso. A sútil diferença entre o que precisamos e o que pensamos precisar. Colocar filtro no meio que nos cerca. O que realmente quero e o que me fazem acreditar que quero? A complexidade é grande mas talvez a resposta seja simples: Tranquilidade. Paz de espírito, como costumam chamar. E eu acredito piamente que isso está no contrário da turbulência e do desdobramento. Qualidade, não quantidade. Arquitetar-se pra cima em um só ponto, não derramar-se para todos os lados tentando cobrir uma área imensa. Escolhas.

Em Montreal encontrei uma exaustão maior do que o mundo. Tô cansada de me mudar, tô cansada de recomeçar, tô cansada de correr para todos os lados e assim não chegar a lugar algum. Mas pouca a pouco, vou aprendendo a transformar essa cansaço – esse limite – em ação, em mudança.

Amanhã é novo ciclo.

 

Before the Beginning – John Frusciante

Entreter Você

O que mais me desagrada em um relacionamento a dois é a implícita responsabilidade de entretenimento. Entreter o outo. É isso que me cansa. É isso que me faz desejar estar a sós para aliviar-me um pouco. Descansar. Não devia ser assim penso. Assim, pesado. Mas sempre é, pra mim. Talvez pela minha falta de costume de conviver com pessoas. Tantos anos morando sozinha. Ou talvez pela genética. Sempre me lembro do meu pai dormindo sozinho em um quarto, ou trancado em um escritório com seus livros. Distante, fechado em seu mundo.

Guardo uma lembrança bonita, eu e uma amiga na estrada à noite ouvindo The Mission. Não sei se era pela música, ou pelo cenário idílico, mas passamos muito tempo sem pronunciar nenhuma palavra. E essa amiga em si é uma das pessoas mais tagarelas que conheço. Até que ela quebrou o silencia dizendo: – Incrível não, a gente não precisa dizer nada para compartilhar um momento intenso uma com a outra.

Acho que o segredo é compartilhar mais e doar-se menos. Conseguir colocar a rotina do outro dentro da nossa. Eu posso ficar no quarto estudando enquanto você fica na sala tocando guitarra. Quando eu me cansar eu posso te contar sobre o que li, aprendi, confundi. Você pode me mostrar o riff que tá tirando. Eu posso ficar na cozinha fazendo o meu almoço da semana enquanto você assiste aquela série que gosta e que eu acho idiota. Eu posso sair pra correr no parque enquanto você joga videogame. Porque você não gosta de sair pra correr e eu muito menos gosto de jogar. E quando eu voltar, eu posso descasar em você.

Deveria ser algo assim, penso. Leve. Cansa essa procura de beiradas na semana para preencher com o outro. Para entreter o outro. Quando o que queremos é descansar e conseguir um tempo para nós mesmos. Não precisamos de tantas afinidades em comum, mas sim de um tempo em comum, juntos, sendo nós mesmos, cuidando de nossas vidas. Algo menos espetacular e teatral, mais orgânico e simples, possível.