Integridade

Engraçado essa mania de dar rosa para mulher como um agrado. Rosa é flor que nasce escoltada por espinhos. Quando a gente apanha uma rosa aliás, precisamos raspar os espinhos pra não sangra a mão. Os espinhos, além de perigosos, são feios. O precioso é a flor, pequena parte da roseira. Mas e todo o resto?

A vida é um ato desesperado de procurar flores em espinhos. Acho que é por isso que gostamos tanto de rosas. Por esse simbolismo. Dar uma rosa a alguém é como dizer: te ofereço a parte mais bela da vida. Mas e todo o resto? Que faz parte. Que dói.  Que sangra. Mas que consiste a integridade de viver. A força de viver. É o caule rígido e espinhoso que sustenta a frágil rosa no ar. Olha a pequena flor que nasce na grama, seu fino e inofensivo corpo lhe basta.Não é que a gente precise de espinhos para ser grande, mas de força pra resistir em meio do espinhal e arquitetar-se acima disso. Como rosa que se renegou a ter pontas e se fez flor.

Mãe, vó, nossa relação não é simples ou fácil, como nenhum grande laço é. Mas estamos aqui. Unidas. Íntegras, com tudo que passamos, superamos e somos. Percorrendo o aprendizado sem fim que é a vida. A aventura mais perigosa e mais bela que é amar e pertencer. 

Vocês são a minha base, minha força, minha inspiração sem fim,
Amo vocês,
Aline

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Do Sétimo Andar

Nunca esqueço dos versos de Oscar Wilde que dizem: “A gente sempre destrói aquilo que mais ama”. Porque a gente não sabe amar. Por que fomos amados errado? Por que a gente não consegue amar a si e assim não conseguimos amar o outro? Por que estamos desesperados por alguém que resolva tudo isso chamado de vida? E assim nos frustramos diante do amor e a sua incapacidade? Imperfeição.

Eu te vejo todo os dias. Nos meus trejeitos, na minha aparência, nas minhas manias. Quando fico sem comer porque estou obcecada em terminar algo. Na minha euforia. Quando começo a dançar e cantar no meio da sala. Na minha revolta. Quando não consigo enxergar conforto num mundo tão áspero e pontiagudo. Na minha casa impecavelmente organizada. Na minha impulsividade e voz alterada. No meu jeito despojado e no meu dom inigualável de conquistar pessoas. Na minha emotividade transbordada. Eu vejo você em cada canto de mim. Como dois corpos que partiram de um, e assim se levam.

A gente sempre espera muito de uma mãe, de um grande amor. A gente espera uma resolução. Uma resposta. Um escudo. E assim, a gente cobra demais. Decepciona-se demais. Culpa demais. E destruímo-nos. No desespero de amar e ser amado. Mas quero acreditar que a cada dia, a cada tropeço, a cada recomeço; a gente vai entender melhor, perdoar melhor, ser melhor. Amar, amar, amar melhor.

Em meio de tantos maremotos, sempre permanecemos e sempre vamos permanecer juntas. Obrigada por isso, obrigada por toda a sua força e sentimento. Obrigada por dar o seu melhor, sempre, por mim e pela Laíza,

Feliz dia das mãe, Mãe,

Amo você, sempre. Sempre. Sempre.

Sétimo Andar – Los Hermanos

O quão bom você é?

How good are you?

Dois meses sobrevivendo de música em Montreal
– Two months affording myself through music in Montreal

(English below)

Há algumas experiências fantástica sobre padrões sociais de comportamento humano. Uma delas consiste em colocar dois banheiros químicos em um lugar de grande circulação, como um show. Em um deles uma grande fila de pessoas é propositalmente colocada. O outro permanece totalmente livre. Resultado: ninguém tenta usar o banheiro “vazio”. A multidão se acumula atrás da grande fila. O banheiro vazio não é notado ou simplesmente evitado.

Em uma das estações de metrô que toco, Jean Talon, um dos “spots” que demarca o local onde se pode tocar, teve a sua placa coberta por um aviso: “Não é permitido a presença de músicos antes da 13h”. Esse era um spot muito concorrido, até então. Agora, apenas um ou dois músicos tocam lá por dia. Apenas liguei um ponto quando uma colega “de trabalho” me disse: não gosto mais de tocar ali desde que colocaram aquele aviso.

Histeria coletiva. Pessoas dando dinheiro atraem pessoas dando dinheiro. Pessoas filmando atraem pessoas filmando. Pessoas assistindo atraem pessoas assistindo. Vazio atrai vazio. Pessoas passando reto atraem pessoas passando reto. Padrão social de comportamento coletivo.

Às vezes acho que ganho dinheiro por dó. Outras porque sou mulher (menina) tocando e cantando em um espaço púbico. E isso é diferente. Um pouco além disso, ouço com frequência dos meus colegas de trabalho: que sorte a sua, deve ganhar muito dinheiro aqui sendo tão bonita. Confesso que isso me soa bem ofensivo. Outras vezes, me sinto num circo. Tocar e cantar bem não é suficiente. Não é novidade. As pessoas querem o espetacular quebrando a rotina e as fazendo parar. A qualidade se perde na excentricidade, muitas vezes. Isso me faz duvidar de mim. Por exemplo quando estou fazendo instrumental na guitarra ou tocando gaita. E ai muitas pessoas costumam parar. Ela gostam por que é bom ou por que é diferente? Um dia ouvi: “Sua voz de longe é a mais peculiar que já escutei.” Não soube como interpretar isso.

Já me sinto quase à vontade tocando pelos corredores barulhentos das linhas de metrô de Montreal. No anonimato do ofício. É totalmente diferente em cima de um palco, na intimidade de um bar com uma plateia me encarando. Isso ainda me faz congelar. Querendo sumir de lá o mais rápido o possível. Semana passada tive uma espécie de audição. Não foi legal. “Caí” totalmente. Não tô preparada – ainda. Pensei. Senti. E isso foi bom. Foi um realismo. Porque é sempre necessária a consciência de que estamos em construção – sempre. Hoje ganho a vida com música, algo que nunca pensei que pudesse ser capaz. Recebo inúmeros elogios diariamente. Sinto-me às vezes uma estrela, noutras uma mendiga. É extremo isso mesmo. Da total indiferença à uma multidão te assistindo, filmando, aplaudindo. Não sei como interpretar. Julgar. Então, é bom a conscientização de que sou uma aprendiz. E sempre vou ser. Independente de onde chegar. E onde quero chegar, eu não tenho uma resposta feita. A música é o ar que respiro. O quero é tocar. Bem. Cantar. Bem. Fazer o que amo bem. Se hoje isso é minha “profissão”, é por uma mescla de fatalidades com vontades. E preciso me dizer isso. Porque não há pressa. Não há pressa de subir em cima de um palco e arrasar. Não há pressa de alcançar um virtuosismo que não se pode acelerar. Como qualquer cultivo.

Tocar na rua me lembra que o maior espetáculo está na delicadeza escondida no dia-a-dia. É fazer uma pessoa no meio de uma multidão parar e te escutar. Uma criança “empacar” no meio do corredor porque ficou hipnotizada com a sua música. Ouvir um “Bravo!”. É aquela velhinha passando e fazendo um joinha: “très bon”. É alguém cantando e dançando a música que você está tocando, quebrando aquele cenário áspero de pressa e cansaço. São esses momentos que me fazem agradecer tão fundo que chega a doer. É muito mais do quer ser aplaudida de pé em cima de um palco. É muito mais do quer ser uma estrela. É -tocar- pessoas. E nada se compara a isso.

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There are some fantastic experiments about social behavioral patterns. One of my favorites is about to put two chemical toilets in a place of great circulation, as a show. In one of them, a long row of people is purposely placed. The other remains totally free. Result: no one tries to use the “empty” bathroom. The people crowd behind the long row. The empty bathroom is not noticed or simply avoided.

In one of the stations that I play, Jean Talon, one of the spots had his sign covered by a warning: “No musicians are allowed here until 1pm.” That was a busy spot so far. Now, only one or two musicians play there in a day. I just connected the dots when a “co-worker” told me: I don’t like to play there anymore since that warning was attached.

Collective hysteria. People giving money attract people giving money. People recording you attract people recording you. People watching you attract people watching you. Emptiness attracts emptiness. People ignoring you attract people ignoring you. Social pattern of collective behavior.

Sometimes I think people give me money for pity. Other because I am a girly woman playing and singing in a public space. And it is different. Beyond that, I often hear from my co-workers: “how lucky you are, you probably make lots of money here due to your beauty.” I confess that it sounds pretty offensive to me. Other times, I see myself in a circus. Playing and singing well is not enough. This is ordinary. People want to see spectacular stuff breaking the routine and making them stop. Quality is often lost for the eccentricity. That makes me doubt myself. For example, when I’m doing instrumental on the electric guitar or playing harmonica. And many people stop to watch me. Do they like because it’s good or because it’s different? One day I heard: “Your voice is by far the most peculiar I have ever heard.” I didn’t know how to interpret that.

I feel rather comfortable in the noisy corridors of Montreal’s subway lines. In the anonymity of the trade. It’s totally different up on the stage, in the intimacy of a bar with an audience staring at me. It still makes me frozen. Doubting me. Wanting to disappear from there as soon as possible. Last week, I got a kind of audition. And it was not cool. I was not “ready”, I felt. I saw. But that experience was good. It was a realism to me. Because it is always welcome this awareness that we are under construction – always. Today, I easily afford myself through music, something I have never thought I could be able to do. I get lots of compliments every day. Sometimes, I feel like a star, others like a beggar. That’s completely extreme. It’s from total indifference to a crowd watching you, recording and cheering you. It’s confused most of the time. Like the very life is. So, it’s good to be aware that I’m an apprentice. And I will always be, regardless of where I am or want to go. Talking about “where” I would like to reach up, I don’t know about it. Music is the air I breathe. I just want to play and sing well. I want to make good art. Today, music is my “profession” for a mix of fatalities and desires. I need to tell it to myself. Because there is no hurry. There is no hurry to be up on the stage and kill it. There is no hurry to achieve virtuosity in music, which is a thing that can’t be accelerated. Like any kind of cultivation.

Be a street musician reminds me that the greatest life spectacle is the delicacy hidden in the day-to-day. It’s about to make a person in the middle of a crowd stop and listen to you. A child that is “stuck” in the middle of the corridor because is totally mesmerized by your music. It’s about to listen to a “Bravo!”. It’s about an old lady passing by and giving the thumbs up saying: “Très bon!”. It’s about someone coming over singing and dancing the song you’re playing, breaking that rough scenery of haste and weariness. Those moments make me feel such deep gratitude that it almost hurts me. It’s much bigger than to be applauded on a stage. It’s much bigger than be a star. It’s about touching people. And nothing compares to that

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Karma Police – Radiohead

Presságio

Sonhei que chovia, acordei, chovia.
Sonhei que a porta estava aberta, e estava.
Sonhei que minha irmã passava por problemas, e passava.
Especulo que meu inconsciente saiba de coisas que não sei
É só quando durmo, e desconecto de mim, que escuto
Essa minha voz sem voz.
E meus sonhos lúcidos?
Os meus desejos. Vontades. Planos.
Como surgem? O que são?
O que sonho acordada também é presságio? Por isso sonho?
Como desenho meus desejos?
Seria também essa voz cavernosa que me dita? Guia-me?

Fechos os olhos. Acordada.
Sonho.
Deixo-me sonhar.
Hoje entendo que a razão não alcança certas profundidades.

Fora do Casulo

Chego à 5:45 da manhã no metrô para assinar a lista de músicos. Os “moradores de rua” ainda dormem pela estação vazia. Um deles desperta ligeiramente quando passo, e acena para mim. Já somos conhecidos. Trabalhamos no mesmo lugar. E carregamos a mesma locução adjetiva. Ele, morador de rua. Eu, músico de rua.

Volto para o metrô à 1:00 da tarde para tocar em minha primeira estação. No caminho encontro alguns musicistas com o seu equipamento. Cumprimentamo-nos saudosamente. Não nos conhecemos, mas isso não importa. Somos colegas de trabalho. E isso basta. Enquanto espero o metrô, pessoas usualmente me param dizendo que me viram tocando em alguma estação. “Você é realmente boa”. E já ganhei o meu dia.

Chegando onde vou tocar, o musicista antes de mim guarda o seu equipamento enquanto eu arrumo o meu. Conversamos. Trocamos informações. Desejamos boa sorte. “Bom show”.

Os funcionários do metrô me cumprimentam. Alguns me dão moedas. Outros me assistem enquanto balançam a cabeça e remexem os pés. E passam por mim dizendo: “You’re good, girl”.

Descobri que o melhor horário para tocar é longe da hora do “rush”, onde é possível interação com o público. As pessoas me ouvem melhor, enxergam-me melhor. Sempre há incontáveis histórias; pessoas pedindo para tirar foto comigo, cantar no microfone! As crianças são sempre o melhor do espetáculo. Elas ficam vidradas. A cena mais maravilhosa é quando os pais não tem intenção de dar dinheiro, mas a criança paralisa-se na minha frente. Os pais a chamam, mas ela continua lá, paralisada me vendo. Então o pai/mãe lhe dá uma moeda e ela vai lá toda sorridente colocar na minha case. Isso é ouro.

Ontem um grupo de adolescentes não mais de 15 anos fizeram uma “vaquinha” para me dar dinheiro. Ganhar dinheiro de adolescente já é difícil, de um grupo ainda… Fiquei muito feliz. Ontem também duas pessoas me “interromperam” enquanto cantava só para dizer “você canta muito bem”. Isso vale mais do que tudo.

Costumo chegar numa estação vazia e pensar: não vou fazer uma moeda hoje. E acabo saindo com a case forrada de moedas e, quase sempre, algumas notas. É incrível. Quem está de fora não imagina o quanto que isso pode ser lucrativo. Eu mesma não imaginava, mas é. De todos os sentidos.

Toco 4 horas seguidas, em duas estações. Diariamente. Carregado nas costas equipamento pesado. Amplificador nos braços. Chego em casa no final do dia exausta, com os dedos em carne viva. Mas feliz, genuinamente feliz, com o coração aquecido por tudo que acabei de narrar.

Há um ano e meio cheguei em Montreal aterrorizada. Sem saber direito o que estava fazendo, onde estava me metendo. Senti-a me atirando num penhasco sem saber voar. “Sem saber” era o que eu mais sentia. Em tantos e tantos sentidos. Sem saber francês, com um inglês insignificante. Sem conhecer ninguém. Sem ter onde ficar. Sem diploma. Sem direito válido de trabalho. Trabalhando sem pagamento significativo. Uma avalanche sobre mim.

Mas eu não fique à deriva. Quando a situação é extrema, não há escolha. No fundo do buraco, não dá para cair mais. Eu tinha que redirecionar a minha vida. Eu tinha que me refazer. 2018 foi o casulo. Escuro, incerto, sufocante. O desespero foi grande, mas minha esperança foi maior. Eu sabia que era uma fase. Eu me dizia. Diariamente. Como um mantra. Eu me dizia que todo esforço tem a sua resultante. Por mais lenta que seja.

2019 é a quebra do meu casulo. Abraço Montreal. Voo por Montreal. Leve. Amo Montreal. Amo a minha vida aqui. Nem de longe estou acomodada e com alguma estabilidade. Mas estou em paz. E acredito que isso seja felicidade. Estar em paz. Ainda não falo francês, mas aprendi incontáveis frases e palavras. Ainda não sou fluente em inglês, mas hoje entendo e falo muito melhor. Não tenho uma “carteira assinado”, mas estou sobrevivendo de minha música, trabalhando 4 horas por dia. E com tempo para estudar o que quero estudar, desenvolvendo o que genuinamente quero desenvolver para a minha vida. Estou vivendo em um país estrangeiro há quase dois anos, onde tudo é diferente. Sinto-me me preenchendo de incontáveis maneiras. Sinto-me deliberadamente vivendo a realidade que quero viver. Hoje. Por isso a paz. A compreensão que a vida flui em ciclos. Para grandes transformações, grandes sacrifícios são necessários. E ninguém quer o negativo, só o positivo. Hoje compreendo que essa é uma mistura heterogênea, inseparável.

Uma vez morei em uma casa com uma grande palmeira a qual forrava-se de casulos. Assistia a dificuldade que era para uma lagarta quebrar o casulo e voar. As asas amassadas, a realidade confusa. Costumam primeiro andar, rodopiar, cair, só depois, voar.

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Ser Artista

– 16 meses em Montreal

Pensava que artista de rua era alguém bom demais. Algo meio circense. Uma atração grande o bastante que merecia ser pública, como um monumento. Ainda hoje penso isso. Quando chego na estação de metrô para tocar, e sento-me no chão e começo a montar o meu equipamento; sinto uma certa perplexidade. Não, não é medo, é perplexidade. Como quem não entende o que está acontecendo.

Cantar e tocar bem não significa nada ali, na rua. Você tem que impressionar. É mais do que fazer direito. Na verdade, há dois tipos de pessoas que param e dão dinheiro: O primeiro e mais comum é aquela pessoa que não está dando dinheiro pela habilidade, mas pelo esforço. Às vezes ainda estou montando o equipamento e alguém chega me dando moeda. O segundo tipo, o mais raro, é a pessoa que “paga” porque ficou impressionada. Às vezes a moeda virá acompanhada de elogios, às vezes a pessoa passa, para, dá meia volta e dá moeda (ou notas). Às vezes a pessoa filma, aplaude, conversa. Principalmente quando é jovem, adolescente; só vai dar dinheio se ficou impressionado. E como impressionar? Ainda mais em uma cena tão competitiva como a de Montreal. Os metrôs estão lotados de musicistas, assim como todos os bares, teatros da cidade. É por isso que fico perplexa de estar ali “vendendo” a minha música. A minha capacidade musical. É como se eu me questionasse: sou boa o bastante para isso?

Nunca me apresentei ao vivo. Nunca tive reconhecimento como musicista, seja na internet ou fora dela entre minha família, amigos e conhecidos. Sempre vivi em total anonimato e em total insegurança sobre a minha capacidade musical. Quando posto um vídeo cantando e tocando em minhas redes sociais, usualmente não recebo qualquer retorno. No máximo uma ou duas curtidas. Sinto-me um lixo. Uma amadora. E disso, desta conjuntura, desse desolamento; saltei para as ruas. Pedindo não só para ser aclamada mas também paga. Paga pela minha música. É por isso a perplexidade.

Nessas duas semanas tocando diariamente, uma oscilação de sentimentos me atinge. Às vezes sinto que sou boa. Muito boa. Às vezes sinto que estou ganhando dinheiro por dó – daquele primeiro grupo que só quer dar um voto de confiança. A melhor parte sem dúvida é a interação. Preciso -muito – de dinheiro. Não tô lá por aventura. Mas melhor sim do que voltar com a bolsa cheia de dinheiro, é ouvir: “não tenho nenhuma moeda, desculpa, mas você é incrível”. Ou a pessoa pedir meu cartão. Ou fazer um sinal de joia. Ou parar para filmar ou assistir. São nesses momentos que me sinto artista. E profissional. Sem público, o artista não se valida. Sem dinheiro, o profissional não se valida.

Chego em casa e treino aquele trecho que achei que não ficou tão bom. Tento substituir aquela música que acho que tá fraca. Tento aprender gaita de boca. Faço instrumental improvisado. Se pudesse dava cambalhota. Esculpo um show. Formo-me como artista. Dia-a-dia. Como sempre fiz, mas agora a diferença é: sou. Sou? Sou. Transformo a minha realidade. E a vivo.

 

Mr. Jones – Counting Crows

Primeiro Semana Tocando -diariamente- no Metro de Montreal

5:00 a.m, primeiro despertador. 5:15, 5:30, salto da cama. Pego a roupa embolada na banqueta a minha frente. Lavo o rosto, prendo o cabelo dentro da touca, coloco meus óculos escuros para disfarças a cara amassada. Moletom, jaqueta, luvas. Saio. A partir dai me sinto melhor. A rua vazia, o ainda silêncio, o sol que nem nasceu. Calmaria. Mas já é tarde para reservar um bom horário em uma boa estação. Os músicos “de rua” são os mais disciplinados. Trabalham pesado. Ouvi dizer que 4:30 começa a fila de músicos nas principais estações. Funciona assim: há lugares específicos onde se pode tocar dentro do metrô, sinalizados por uma placa. O primeiro músico que chegar no lugar cria uma lista de horários e escolhe o que lhe for mais conveniente. Assim todos querem ser o primeiro para conseguir as melhores estações no melhor horário.  E fazer dinheiro.

É a minha primeira semana, não tenho grandes pretensões.  Na verdade, a minha única pretensão é ver se sou capaz. Capaz de tocar e cantar um repertório de duas horas. No meio de uma multidão. De pé. Tremendo, horas de nervoso outras de frio. Estamos o ápice do inverno canadense. Mesmo dentro do metro é congelante. Mas isso acaba sendo só um pequeno detalhe.

No meu primeiro dia fiz uma confusão danada com a lista, perdi a minha “vaga”. Por sorte havia outra saída com outro espaço para se tocar, disponível, pois o frio lá era demasiado. Não pensei duas vezes. Há um ano estou me preparando para esse dia. E lá estava finalmente eu: carregando todo aquele peso, literalmente e figuradamente. Pronta. Pronta? Eu precisava descobrir. Sem pensar duas vezes comecei a montar o meu “palco” naquele canto, com fumaça saindo de minha boca, assim como o coração.

É engraçado a sensação de tocar “para ninguém”. Não importa a estação ou o horário, há momentos que uma multidão passa diante de você e há momentos que só há você e um corredor vazio. Eu já esperava a sensação de invisibilidade também. A cada 20, 30 pessoas, uma vai dar moeda. A maioria não vai olhar. Você torna-se parte do cenário. Há sempre alguém tocando pelos corredores das estações de metrô de Montreal.  Você, músico, é parte daquilo. Além do costume, há a pressa. Estação de metrô é o lugar menos suscetível para querer chamar atenção. Todo mundo está com pressa. Vindo e indo. Correndo através do dia. Ninguém quer parar. Ninguém tem tempo para apreciar. O maior desafio é quebrar isso. É fazer alguém parar. É impressionar a pessoa ao ponto que ela se sinta no dever de desacelerar, procurar algum trocado e te dar. Tocar na rua é mais que tocar um instrumento, é tocar pessoas.

Na minha primeira semana eu não tive grande disciplina de chegar cedo o bastante e assim conseguir bons horários em boas estações. Acabei quase sempre tocando à noite, em corredores bem vazios, recebendo esparsas moedas, sentindo-me desolada a maior parte do tempo. Quase diariamente alguém apareceu interagindo, aplaudindo, filmando, conversando, elogiando. Isso é ouro. Isso faz compensar tudo. Na verdade, tocar “na rua” é um extremismo. Há uma dificuldade imensa e uma gratificação imensa. Há uma discriminação imensa e um reconhecimento imenso. Agora, falando de dinheiro, em 6 dias tocando menos que 2h por dia, em horários ruins, em estações vazias, entre trancos e barrancos; fiz 160 dólares. Eu jamais imaginava isso. É muito de grão em grão. Fui colando as moedas no saquinho e quando dei por mim o saquinho já estava estourando. Antes de contar pensei: deve ter uns 50 dólares aqui. Tinha o triplo.

Nessa semana começo a tocar 2x. Visando dobrar esse ganho. Essa experiência.

Esse é um dos momentos mais significantes da minha vida. Eu me agarrei tanto a isso. Eu supliquei tanto por isso. Não é só tocar na rua, não é uma aventura, não é só o dinheiro. É uma porta aberta. É um êxito. É uma coisa boa. Depois de tanta perda e restrição. Eu não sei exatamente como vim parar aqui e nem para onde isso vai dar. E não importa. Isso me encheu de esperanças. Na vida. Em mim. Na música. Na transformação. Eu decidi estender a minha estadia em Montreal porque eu precisava transformar isso tudo. Não foi de um dia para a noite. Desde que cheguei aqui trabalho em ima desse projeto de me apresentar como musicista solo. E isso é o mais importante. Foi uma resultante, uma persistência. Resistência. Quanta reprovação eu ouvi. Quanto questionamento a respeito das minhas altas e ousadas expectativas. E as críticas mais árduas vieram de mim.  Na maior parte do tempo oscilei entre gigantesco otimismo e medo.

É só a primeira semana, mas isso já justificou tudo. É um triunfo. É uma nova etapa.

Bitter Sweet Symphony – The Verve

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Barro em minhas mãos

-15 meses em Montreal

A primeira e única vez que fui à uma cartomante foi antes de vir para cá. Sempre tirei tarô para mim mesma, mas eu já não podia mais confiar na minha própria percepção. Eu já não pensava. Pois se pensasse, não faria. Não viria. E no meio de tamanha confusão, e sem poder contar com a razão: fui para a cartomante.

Você vai ficar um bom tempo lá, não?! Prontamente ela me disse. Não, só 6 meses ou no máximo um ano. Respondi. Não, não, você vai ficar mais! Ela afirmou. Sem hesitar.

Faz uma semana que estou trancada dentro de casa. Em fevereiro oficialmente deixei o meu trabalho. Como o planejado. Não atendo mais idosos diariamente nem dou aula de pintura. Decidi continuar aqui por causa da minha música. Apenas. Cheguei aqui com essa vontade. Mas era só uma vontade. Assim, dispersa como os desejos costumam ser. Vou aproveitar que estou lá e tocar na rua. Assim, por conveniência. Não sei como isso mudou. Não consigo me lembrar como ou quando isso deixou de ser uma vontade e tornou-se a razão. Talvez, isso tenha sido a única coisa em que eu consegui me agarrar. No meio de tanta solidão, hostilidade, impossibilidade. Foi a minha defesa, foi a minha sanidade, a minha resistência. O meu chão. Não sei. Mas quando vi, já não era conveniência, era urgência. Era tudo.

Ao ver que um ano já tinha se passado e eu ainda não tinha começado a tocar, sem hesitar disse: preciso ficar. Muito mais do que uma obsessão: é um resgate. Eu precisava meu deus, como eu precisava, resinificar tudo isso. Eu não poderia ir embora daqui tão derrotada, tão machucada. Não podia. Sem hesitar, sem ponderar, eu disse: vou ficar. Vou tentar. Preciso.

Começo a tocar no metrô segunda-feira dia 11 de fevereiro de 2019. Por isso a semana trancada. Entre ensaios, dedos descamados, choros, euforias, completude. Principalmente completude. O que estou fazendo. Para onde estou indo. O que quero. Contei os dias e vi que tenho menos de 5 meses aqui agora. Mais de um mês já se passou. E eu estou totalmente bem em relação a isso. Como nunca antes estive. Aqui. Pois sinto aquela sensação indizível de estar fazendo a coisa certa.

Comecei também a abraçar o futuro, assim: sentindo-o. Como barro em minhas mãos: matéria prima. O futuro já existe: ele é o presente se escorrendo. Indo-se. Formando-se. A gente tem que palpar isso. Modelar isso. Comecei a fazer planos. Liguei para a minha irmã. Vamos juntas para Portugal final de agosto! Eu passo um mês com você lá, toco nas ruas de Lisboa, tento fazer dinheiro para me mudar para a Escócia. Antes eu tinha medo de dizer isso: Escócia. “Eu vou para a Escócia”. Parecia quase uma mentira. Agora já começo a dizer alto, bem alto para que a vida escute: “Eu vou me mudar para a Escócia, para Edinburgh!”. Começo a abraçar isso. Sentir isso. Enchendo-me de esperança. Será um novo tempo, melhor, mais calmo, mais verídico. Um tempo que se desdobra após Montreal: a ponte.

Eu não sei ainda se vou conseguir ganhar a vida tocando, como quero. Mas se não for hoje, vai ser amanhã, ou depois, ou na semana que vem, ou em breve. O que sei é que não há oportunidade melhor de aprimoramento do que tocar todos os dias ao vivo no meio de uma multidão. Sinto-me enfim preparada. E grata por estar aqui, por poder fazer isso. Ser isso. No meio de todo o meu devaneio e confusão, algo sempre foi cristalino: Montreal seria a ponte. Entre tudo.

We’ll let you Know – Morrissey

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Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

– Fernando Pessoa

Você me perde

Quando eu te digo: estou lendo um livro
E você pergunta o nome. Eu digo.
Você muda de assunto.
Eu volto: Então, o livro é sobre…
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando a gente assiste um filme
Eu te pergunto: O que você achou?
Você diz: Legal.
Eu começo a comentar qualquer cena
Você muda de assunto.
Eu volto: Mas você não acha que..
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando eu te mostro algo que tô fazendo
E você diz: Legal.
E eu sinto que tá péssimo.
Ou quando você não comenta nada
Em pouco tempo eu desisto de perguntar
Porque você não se importa
E pouco a pouco vou deixando de me importar
Comigo. Contigo. Conosco.
Você não quer uma conexão. Quer atenção.
Eu sou platéia
Quieta. Contemplativa.
Já me esqueci
Porque primeiro a gente desiste de si
Perde-se.
Só depois, é que desistimos do outro
Só depois do depois.
Quando a gente se lembra.

You don’t need me

You need the attention I give you
The way I make you feel special
Like a king.
You don’t need me
You need someone adoring you
Desiring you
Lighting you
You need me when I am shining
But I, my dear, I am dark. I am deep.
You don’t even know how to swim
You like the lightness of my superficiality
All that I am not.
I am heavy. I am hard. I am black.
You don’t need me.
You don’t even like me.
You like my silly smile, my bright eyes
The shape of my nose and butt
My Surface.
My cover.
My pages, you will not read.
It’s too big. It’s too much.
That’s why I know
You don’t need me
You don’t even like me.
You should know.