Barro em minhas mãos

-15 meses em Montreal

A primeira e única vez que fui à uma cartomante foi antes de vir para cá. Sempre tirei tarô para mim mesma, mas eu já não podia mais confiar na minha própria percepção. Eu já não pensava. Pois se pensasse, não faria. Não viria. E no meio de tamanha confusão, e sem poder contar com a razão: fui para a cartomante.

Você vai ficar um bom tempo lá, não?! Prontamente ela me disse. Não, só 6 meses ou no máximo um ano. Respondi. Não, não, você vai ficar mais! Ela afirmou. Sem hesitar.

Faz uma semana que estou trancada dentro de casa. Em fevereiro oficialmente deixei o meu trabalho. Como o planejado. Não atendo mais idosos diariamente nem dou aula de pintura. Decidi continuar aqui por causa da minha música. Apenas. Cheguei aqui com essa vontade. Mas era só uma vontade. Assim, dispersa como os desejos costumam ser. Vou aproveitar que estou lá e tocar na rua. Assim, por conveniência. Não sei como isso mudou. Não consigo me lembrar como ou quando isso deixou de ser uma vontade e tornou-se a razão. Talvez, isso tenha sido a única coisa em que eu consegui me agarrar. No meio de tanta solidão, hostilidade, impossibilidade. Foi a minha defesa, foi a minha sanidade, a minha resistência. O meu chão. Não sei. Mas quando vi, já não era conveniência, era urgência. Era tudo.

Ao ver que um ano já tinha se passado e eu ainda não tinha começado a tocar, sem hesitar disse: preciso ficar. Muito mais do que uma obsessão: é um resgate. Eu precisava meu deus, como eu precisava, resinificar tudo isso. Eu não poderia ir embora daqui tão derrotada, tão machucada. Não podia. Sem hesitar, sem ponderar, eu disse: vou ficar. Vou tentar. Preciso.

Começo a tocar no metrô segunda-feira dia 11 de fevereiro de 2019. Por isso a semana trancada. Entre ensaios, dedos descamados, choros, euforias, completude. Principalmente completude. O que estou fazendo. Para onde estou indo. O que quero. Contei os dias e vi que tenho menos de 5 meses aqui agora. Mais de um mês já se passou. E eu estou totalmente bem em relação a isso. Como nunca antes estive. Aqui. Pois sinto aquela sensação indizível de estar fazendo a coisa certa.

Comecei também a abraçar o futuro, assim: sentindo-o. Como barro em minhas mãos: matéria prima. O futuro já existe: ele é o presente se escorrendo. Indo-se. Formando-se. A gente tem que palpar isso. Modelar isso. Comecei a fazer planos. Liguei para a minha irmã. Vamos juntas para Portugal final de agosto! Eu passo um mês com você lá, toco nas ruas de Lisboa, tento fazer dinheiro para me mudar para a Escócia. Antes eu tinha medo de dizer isso: Escócia. “Eu vou para a Escócia”. Parecia quase uma mentira. Agora já começo a dizer alto, bem alto para que a vida escute: “Eu vou me mudar para a Escócia, para Edinburgh!”. Começo a abraçar isso. Sentir isso. Enchendo-me de esperança. Será um novo tempo, melhor, mais calmo, mais verídico. Um tempo que se desdobra após Montreal: a ponte.

Eu não sei ainda se vou conseguir ganhar a vida tocando, como quero. Mas se não for hoje, vai ser amanhã, ou depois, ou na semana que vem, ou em breve. O que sei é que não há oportunidade melhor de aprimoramento do que tocar todos os dias ao vivo no meio de uma multidão. Sinto-me enfim preparada. E grata por estar aqui, por poder fazer isso. Ser isso. No meio de todo o meu devaneio e confusão, algo sempre foi cristalino: Montreal seria a ponte. Entre tudo.

We’ll let you Know – Morrissey

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Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

– Fernando Pessoa

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Você me perde

Quando eu te digo: estou lendo um livro
E você pergunta o nome. Eu digo.
Você muda de assunto.
Eu volto: Então, o livro é sobre…
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando a gente assiste um filme
Eu te pergunto: O que você achou?
Você diz: Legal.
Eu começo a comentar qualquer cena
Você muda de assunto.
Eu volto: Mas você não acha que..
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando eu te mostro algo que tô fazendo
E você diz: Legal.
E eu sinto que tá péssimo.
Ou quando você não comenta nada
Em pouco tempo eu desisto de perguntar
Porque você não se importa
E pouco a pouco vou deixando de me importar
Comigo. Contigo. Conosco.
Você não quer uma conexão. Quer atenção.
Eu sou platéia
Quieta. Contemplativa.
Já me esqueci
Porque primeiro a gente desiste de si
Perde-se.
Só depois, é que desistimos do outro
Só depois do depois.
Quando a gente se lembra.

You don’t need me

You need the attention I give you
The way I make you feel special
Like a king.
You don’t need me
You need someone adoring you
Desiring you
Lighting you
You need me when I am shining
But I, my dear, I am dark. I am deep.
You don’t even know how to swim
You like the lightness of my superficiality
All that I am not.
I am heavy. I am hard. I am black.
You don’t need me.
You don’t even like me.
You like my silly smile, my bright eyes
The shape of my nose and butt
My Surface.
My cover.
My pages, you will not read.
It’s too big. It’s too much.
That’s why I know
You don’t need me
You don’t even like me.
You should know.

Palco

Compro dois pacotes de luzes pisca-pisca
Para criar um cenário
Onde eu possa atuar
E esquecer de toda a insegurança que sou
Um pacote de luzes para colocar em volta do microfone
Outro em volta de uma tela cuidadosamente pintada à mão:
I’m Aline Castanhari, thank you for supporting
Forro a case do violão com um veludo roxo, assim em chamativo
Imprimo cartões de visita, assim bem profissional.
Soa poético e patético esse contraste. Todo esse luxo sob um chão frio.
Investi caro. Gastei o dinheiro que tinha e que não tinha.
Amplificador portátil de qualidade. Microfone especial.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e tudo isso ser bem acessível.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e poder ser artista de rua.
Poder é ser? Posso? Sou ?
Precisa acreditar que sim.
Por isso monto um cenário, visto um personagem: Musicista profissional.
Vendo-me.
Porque a minha música sou eu.
E eu demorei para entender isso. Pra fazer isso.
Hoje entendi: preciso desesperadamente fazer isso. Ser isso.
E já que nem sou artista e nem tenho palco
Vou pra rua. Forjando o meu próprio espetáculo.
Até ser.

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(in)Felicidade

– 31 de dezembro de 2018, Montreal, Canadá

Magda me liga. Quer saber se irei à sua casa nesta semana. Digo que estou doente. Infeção bacteriana. Tomando antibióticos. É contagioso. Ela não me entende. Repito. Mas ela continua sem entender o meu inglês. Não sei se é porque ela é húngara ou se é porque eu sou brasileira. Ou ambas as coisas. No final ela entende mais ou menos que estou doente e não pretendo voltar a trabalhar nessa semana.

Vou à internet. Procuro a pronúncia de todas as palavras que disse. Tentando entender o que disse errado. “Antibiotic”. Confundi os sons dos i. Ou talvez a forma que ainda pronuncio o som do t. Fico triste. Depois rio. De tudo. Pensando como algo tão pequeno pode me deixar triste. Pensando em como algo tão simples como explicar que estou doente pode se tornar tão complexo. Aqui.

Sonhei que meu pedido de renovação de visto tinha sido aprovado. E assim, ficarei por mais 6 meses aqui. Nesse exato momento, dependo dessa resposta para continuar. Aqui. Aqui onde nunca imaginei que permaneceria por tanto tempo. Como a gente se adapta não? Parece que foi ontem que cheguei aqui, desesperada para ir embora. E já hoje, acordei ao meio-dia. Fiz café. Arrumei a casa. Tô saindo agora para ir no mercado. É feriado. Quero descansar. Em casa.

Eu estava discutindo “felicidade” com um amigo logo hoje. Divaguei bastante e acabei só caindo em contradição. Sabe, cada vez mais desacredito nas palavras. Nas ordenações. Nos sentidos. Tento fazer o contrário. Distanciar-me do que penso, sinto, vejo. Sair de mim para enxergar. Meditar é isso? Não sei. Mas é bom. Gosto de sentir essa sensação de “insignificância”. Assim, posso ressignificar. Porque todos os dias, tudo muda. Você não acha? Eu quero achar. Achar que não sou mais a mesma. E esse ano é uma casca que abandono. Uma pele apertada que perco. Convicções que não me servem mais.

Nunca tive que me curvar como me curvo agora diante ao tempo. O tempo de cada dia. Seja para dominar um idioma, para me aprimorar como musicista, para retomar o meu amado bacharelado em psicologia que parei quando vim para cá. Para conseguir um salário digno fazendo o que amo. São tantas sequelas, mas tantas, que durante a maior parte desse ano, pirei. Pirei tentando ser maior que o Tempo.

Nessa virada de ano, ainda estou assim, buscando, esperando. Caindo e levantando. Chorando e depois rindo, achando-me patética, quando distancio de mim e me vejo de longe. Depois volto e me abraço. E faço café. Enquanto espero a água ferver, treino a pronúncia de “antib-ai-otic” ou qualquer outra coisa que errei.

Mais do que nunca, não sei de muita coisa não, mais sei que essa vontade de ser melhor, fazer melhor, viver melhor, vai nos levar adiante. O resto a gente ri, como ri de alguém que levou um tombo engraçado.

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2018

Quero escerver sobre 2018. Mas não sei como. Semanalmente escrevo sobre Montreal e minhas experiências aqui. Analisar os pedaços é sempre mais fácil que o todo. Se paro para pensar o que esse ano foi, fico zonza. Não consigo sintetizar. Talvez porque ainda não entendi. E nem sei se vou entender. Então, vou fazer o que faço de melhor: contar histórias. A primeira é quando eu tinha 18 anos ou algo assim, e trabalhava de garçonete em um bar famoso de Araraquara. Eu tinha acabado de voltar de Madrid. E estava naquele momento entre pontos. Tentando traçar algo. O melhor e o pior de trabalhar em bar é conhecer gente. Ouvir gente. Em uma dessas noites de interação com a clientela, conheci um cara que também tinha acabado de voltar de uma experiencia no exterior. E contando-me sobre isso, ele começou a chorar. Aquilo me marcou tanto, mas tanto. Ele não estava contando nada triste, foi aquela emoção genuína, incontida, algo que de tão grande não cabe dentro, e transborda. Vire e mexe lembro-me dessa cena. Se eu fosse resumir esse ano, faria isso. Choraria, não de tristeza, mas de emoção derramada. Porque meu deus, não cabe no peito isso não, não cabe em palavras. É demais.

Outra história é a dessa foto. Num dia de nevasca forte quando meu dinheiro acabou e eu estava sem bilhete de metrô, então precisei ir trabalhar de bicicleta, à noite. Não existe nada como atravessar a neve em duas rodas. Aquele véu branco em torno de todo o seu corpo. A nitidez dos flocos caindo. É lindo. E eu estava assim quando me perdi e caí nessa rua da foto, deparando-me com essa imagem que mais parecia um quadro. E eu tive aquela sensação única. Não, não é exatamente gratidão. É mais do que isso. É a sensação de encontrar o que não se procura. E sempre estamos desesperados em busca de algo. Ansiosos, preocupados. Mas a vida acontece ali: na procura, no percurso. No instante. Por isso que não vou sintetizar esse ano como algo único, palpável, compreensível. É o contrário disso. São pedaços e pedaços. Histórias e histórias. Instantes e instantes. Transbordando.

Mais do que nunca sei, ainda sou aquela menina entre pontos, tentando traçar algo, tentando unir os pedaços. Diariamente.

23-12-2018

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Há um ano, perdi minha voz

Mary, 100 anos, começa a me contar algo, mas para logo no começo e diz: – Eu já te disse isso né? Não, eu digo, continue. Mesmo já sabendo de cor. Ela retoma o discurso, mas logo para novamente. Dá um riso nervoso e diz: – Não me lembro. Sonia faz a mesma coisa. 93 anos. Já aprendi a nunca perguntar sobre como foi o seu dia. Ela sempre aperta os olhos, procurando o que dizer. Mas não encontra. Não lembro, diz. Desculpa. Está tudo bem, digo. Está tudo bem.

Foi há muito pouco tempo que percebi uma atroz conexão minha com os idosos que atendo: eu também perdi a minha voz. A minha habilidade de dizer o que quero dizer. Não consigo. Porque não sei como dizer. No caso deles é a memória que falta, no meu é a memória que não existe. Mas é o mesmo espaço escuro no meio do caminho, atravessando a garganta.

Quando decidi vir para cá, eu sabia que não estava preparada, em nenhum sentido, mas principalmente em termos linguísticos. Não sei exatamente como lidei com isso. Se não tinha ciência do meu tamanho despreparo ou da situação pontiaguda que estava a me meter. Não sei. Mas sinto que foi essa a troca: minha voz por esse lugar. Foi o sacrifício. Todos os dias eu penso nisso. Sinto isso. Desespero-me por isso. Às vezes acho que não vou conseguir. Que não vou conseguir nunca falar uma segunda língua como falo português. E que sempre vou estar assim, debilitada, impossibilitada de dizer tudo que eu queria, como eu queria.

Também me identifico com Rafael que está há 40 anos aqui e não desenvolveu nem inglês nem francês. Porque não houve estímulo. Prática. Aqui ele sempre trabalhou como “peão”, manuseando máquinas, sem uso algum da língua. Seus pouco amigos eram falantes da língua espanhola. Em casa, só assistia TV em espanhol, porque tinha trabalhado como um louco e só queria relaxar um pouco. A vida é pesada. O tempo voa. Aparentemente o caso de Rafael pode parecer “falta de esforço”, mas como é leviano julgar assim, sem viver a vida do outro.

Depois de um ano aqui, abrir a boca para falar inglês ainda me é um campo minado. Eu vou assim, rastejando e suando frio. E por mais que eu estude em casa, vejo que a aplicabilidade é muito distante da teoria. Como se fosse uma questão fisiológica, não só intelectual. Sem o condicionamento, o conhecimento tranca-se. Sem a prática, não há domínio. Sinto-me um tanto como Rafael, confinado e limitado. E também como as minhas clientes mais idosas e suas gargantas perfuradas, onde as palavras não chegam.

A drowning – How To Destroy Angels

Face Facts With Dignity

– Sobre não estar e não ser
 
Nunca me esqueço do velhinho artista plástico que encontrei em um asilo municipal de Curitiba, lugar que mais se parecia com uma casa residencial qualquer de periferia, e se não fosse pela placa, eu pensaria isso. Nem os idosos costumam estar à vista, passando o dia na pequena sala de estar, despejados nos estreitos sofás diante à televisão. Menos o velhinho artista. Ele estava sempre no seu estreito cantinho no quarto comunitário, em sua escrivaninha, pintando, desenhando, escrevendo, lendo. Ele era um conceituado artista quando jovem. Não soube disso por ele, mas pelos enfermeiros. Mas o que impressionava não era exatamente o seu trabalho, mas a sua pessoa. Uma luz irradiando no meio daquele lugar de tamanhas sombras. Hoje paro para pensar na magnitude disso. Principalmente depois de um ano intensamente trabalhando com idosos. Amargura é quase sinônimo dessa fase. Uma revolta intrínseca pela vida que se vai e não se detém. Saúde, família, amigos, capacidade. Tudo escorre, líquido e derramado. Por isso me emociono até hoje parando para pensar no velhinho artista, que mais parece o personagem de algum livro de contos ou de autoajuda. E isso me faz principalmente pensar na nossa condição de ser humano. Condição angustiada, desassossegada, incompleta. Tão difícil estar e ser o que se quer. E talvez nunca conseguiremos. O segredo está ali: na capacidade de ajustar-se, de encontrar um jeito de fazer e de ser com o que se tem, com o que se pode. De agarrar-se ao que existe, não ao que se foi ou não veio. E principalmente: ocupar-se. Para esquecer de si. Sim. Porque o vazio de dentro é uma galáxia inteira que nos habita. Inalcançável. Inexorável. Tanta coisa que machuca, que não faz sentido, que falta, e gira, e grita. Esquecer de si é abraçar-se. É preencher-se. Doar-se para algo maior. Sentir-se útil. Esqueci de dizer que o velhinho artista faz voluntariado. Visita outras instituições públicas lecionandos aulas de arte.
 
A vida nunca vai ser bem aquilo que a gente quer. Sempre vai ter aquela agenda atrasada, aquela gaveta bagunçada, aqueles livros comprados e nunca lidos. Aquele nó na garganta. Talvez a gente encontre a nossa alma gêmea, mas não o trabalho dos sonhos. Ou talvez o grande amor ou a grande oportunidade nos leve para terras jamais antes almejadas. Difícil estar, fazer e pertence aquilo que se quer. Ao mesmo tempo. E mesmo se conseguíssemos, alguma sequela vai aparecer ou restar. Sempre. A procura por controle, manipulação, felicidade, é sempre uma cilada. Não se trata de conformismo, mas arquitetação. Sair do papel de vítima e tornar-se protagonista. Entrando no palco, seja esse qual for. Porque isso daqui é vida, não filme, não ficção. Mas existência, próprio meio e fim.
 
Ouvi essa frase essa semana: “Face Facts with Dignity.” O que é dignidade afinal? Quando se diz: Isso é digno, o que se quer dizer? Trabalho digno, pessoa digna, oportunidade digna. Isso me soa como “é merecido”, “faz valer a pena”. Ou algo relativo à nobreza em um sentido de elevação. Mas eu resumiria isso em uma palavra: Gentileza. Genlileza com o mundo e principalmente com si. Num mundo de espinhos, gentileza é flor. É o que encanta.
 
Escrevo tudo isso para dizer-me. Isso por toda a minha vida tem me salvado. Queria muito contar isso. E queria que você que está lendo conseguisse me ver agora, encoberta por lágrimas. Essa é minha pequena e imensa epifania. A criação faz isso, ela digna. Foi por isso aliás que tatuei “POEM” nos meus dedos, no lugar mais aparente que poderia, para lembrar-me, sempre, que qualquer coisa, qualquer situação, torna-se poesia. A beleza não se alcança, cria-se. Talvez dignidade seja isso.

 

Eat the Elephant – A Perfect Circle

Segundo Inverno

Olha! Parece que de um dia para outro as árvores perderam todas as folhas, não?! Diz Magda ao meu lado, uma de minhas clientes, enquanto cruzávamos a cidade de carro. Isso foi semana passada. Hoje já abri a janela ao acordar e tudo era branco. A madrugada veio e forrou a cidade de neve, assim, sem ninguém perceber. Como as grandes mudanças costumam ser.

Magda acaba de me contar que seu filho chegou ao Quebec sem saber inglês ou francês. Isso já com seus 30 e pouco anos. Imediatamente decidiu que queria estudar, profissionalizar-se. Então se dirigiu à Universidade do Quebec e disse isso: Quero estudar mas não falo francês. Foi aceito. Pela própria conta e risco. E aprendeu francês durante o curso. E formou-se em engenharia. Hoje é fluente tanto em inglês como francês. Criou dois filhos os alfabetizando em francês, à propósito.

Fico feliz quando alguém elogia meu perfume. Porque há tempos não o sinto. Isso acontece com vocês também? Eu sempre uso um único perfume até acabar. Após poucas semanas, paro totalmente de sentir o aroma. E penso: parou de funcionar. Mas não. Eu só me acostumei com o cheiro. E não mais percebo. E não mais percebo.

Não percebo também as minhas transições. Os meus avanços. Parece tudo horizontal. Preciso que alguém de fora me diga; perceba-me. Pois dentro das nossas vidas somos alheios à mudança por sua condição ambígua que se anula. É volátil, é rastejante. Quando percebo, já é outra coisa. As folhas já estão amarelas, já caíram, já estão cobertas por uma camada branca e gelada.

Quando percebo, esse é meu segundo inverno em Montreal. Um ano se passou a galopes. E tanta coisa parece a mesma. Mas é quando saio e percebo que o frio, já não é tão frio. E a neve, que antes de vir para cá eu tanto temia, já é lugar comum e até sinônimo de aconchego. Nessas sutilezas que percebo que nada é o mesmo. Estamos sempre indo

Espiral

– 1 ano em Montreal

Dourado. Um tapete de folhas amarelas por todo o chão: ruas, calçadas, parques. Tratores passam sugando-as, sacos são distribuídos para a população. Nos parques crianças se esbaldam fazendo montem com as folhas e se atiram em cima. Jovens não poupam os clicks. Montreal é uma atração natural no outono. De graça. Leve. As árvores já se encontram quase nuas, as folhas caem como chuva. O vento levanta as folhas em espiral. Um véu dourado sob Montreal.

Trato. Acabo de fechar um círculo. Uma das situações mais densas da minha vida, a qual pendurou por quase uma década. Assim, em círculos, como tudo costuma ser. Não permanente, mas latente. Residual. Mas além disso, foi atroz. Tão atroz que me arrastou para essa terra estrangeira. Eu fiz um silencioso trato. Porque você sabe, a gente nao quebra o carma, é o carma que nos quebra. Então, para isso, desfiz-me. Dei tudo. Dei-me. Além de difícil, foi lento. Isso me faz lembrar daquele conto memorável de Neil Gaiman, Os Outros. “O tempo é fluído aqui – disse o demónio.”

Alívio. Atravesso a cidade sobre minha bicicleta, escolhendo ruas vazias. Fecho os olhos, sentindo o vento gelado me cortar o rosto. Meu corpo está quente, suado. É um aconchego estar ali. Aqui. Hoje.

Queda. Decido ficar. Mais um tempo. Porque agora, fico por mim. Levanto-me. Recomeço. Resignifico. Esse tempo é meu. Essa estação é minha. Ensinando-me a ver beleza na queda. Uma exaustão que leva, não tira. Cura.

Branco. Dentro de alguns dias começa a nevar. Eu cheguei aqui nessa época, quando a cidade já embranquecera. Sem pressa, aguardo por isso. Porque essa é a minha próxima etapa. Recolhimento. Preciso de tempo comigo. Estancando-me. E acima de tudo: perdoando-me. Nunca antes havia pensando nisso: autoperdão. Aceitação profunda que só torna-se possível com a compreensão.

Força. Arriscamos pensando em ganhar. Mas esquecemos que ganho e perda são águas da mesma fonte. Inseparáveis. É um trato: sempre é preciso dar para receber. Despir-se para livrar-se. Mas algumas coisas são tão enraizadas, sedimentadas, que exigem muito. Muito mais do que podemos ou entendemos. Sozinho não conseguimos. Algo tem que acontecer. Algo que nos sirva de apoio para saltar. E isso sempre é uma quebra. Falar disso me faz recordar forte do difícil  e longo divórcio de meus país, após 20 anos casados. Uma das épocas mais densas de nossas vidas. Foi nessa fase que tatuei: ‘Cause there’s beauty in the breakdown. O caos movimenta-se em espiral. Invisível, lento, leve. Mero eufemismo de mudança. Vez ou outra o vento o dá forma, quando as folhas se levantam em um redemoinho bonito e dourado.

 

The Final Chapter – Olafur Arnalds