Vertigem

– 5 meses em Montreal

No final de 2012 saí de São Paulo, cidade que morei por 4 anos, e fui para Araraquara, minha cidade natal. 2013 foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Uma ruptura brusca e assim, vagarosa. Uma confusão total sobre o que foi, o que viria, o que era. Limbo. Araraquara era o último lugar que eu queria estar, e eu voltei para lá. Estoicismo me vinha sempre à mente. O que faço aqui, por que vim pra cá? Que preço é esse que me propus a pagar? Queda. Penhasco ou céu aberto? Seria a mesma coisa?

No final de 2017 saí de Curitiba, cidade que morei por 4 anos, e fui para Montreal, sem saber direito porquê. 2018 está sendo um dos anos mais difíceis de minha vida. Uma ruptura brusca. Comigo. Uma confusão total sobre quem fui, quem sou, quem serei. Onde estarei. Porque Montreal é passagem. Eu sei. Assim como Araraquara foi. Desconexão. Reversão. Casulo fechado. Às vezes me dá um desespero danado. Uma angústia por tudo que deixei, por tudo que regredi. Ego dilacerado. Peito pesado que parece que não vai aguentar. Às vezes quero sair correndo desses espinhos pra qualquer lugar morno e macio. Mas correr sobre pontas é o que perfura. Então digo: resisto. reverto. transformo. Repito várias vezes, como um mantra, pra me convencer.

O ano de 2013 em Araraquara foi o divisor de águas. Fui pra Curitiba no ano seguinte. E eu não conseguiria sair de São Paulo e ir direto. Estava recém-operada. O acidente de carro que literalmente me tirou e me deu uma vida. Foi por isso que resolvi sair de São Paulo. Mas eu estava perdida. Desnorteada. Debilitada de todas as maneiras. Araraquara foi a ponte, o útero, a difícil passagem pro outro lado. Não só metaforicamente. Tinha decidido prestar música. Pela primeira vez estudava música a fundo, algo que fez total diferença na minha vida. Comecei piano naquele ano, minha imensurável paixão. Transmutei totalmente a minha maneira de escrever. Sei bem disso pelas inúmeras revisões que fiz em todo meu acervo. Minha escrita possui uma divisão: antes e depois de 2013. Esse ano não foi só caminho à toa que se atravessa pra se alcançar o destino. Foi construção. Porque o que me restava afinal era isso, só isso; reconstituir-me. E como isso é vagaroso.

A vida transmuta em círculos. Padrões vivências. O ontem é um espelho do amanhã. O hoje a definição. Vejo 2013 em 2018. Vejo similar ruptura. E essa árdua e lenta maturação. Mas tudo numa proporção tão maior que me deixa zonza e me tira o chão. Em Araraquara eu tinha minha família, meus amigos, minha língua, meu direito de transitar, trabalhar, permanecer. Em Montreal sou estrangeira. E tudo é estrangeiro a mim.

Dias melhores virão. Repito. Acalmo. Acredito.

 

You and I – The Living Sleep

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Eufemismo

Descubro que meu amor é vontade de amar
Como se pelo cansaço da procura eu me entregasse
Pedindo, pedindo, implorando alívio
Deixa-me estacionar aqui, em você, deixa-me descansar
Mas a cada dia, o sossego é substituído por confinamento
Como se eu tentasse chegar ao mar
Você é continente, com altas montanhas nos confins
Tampando os meus horizontes.
Mas também é terra firme, segurança, estabilidade
Penso: quanta gente não gostaria de chegar aqui
E me sinto mal por não valorizar esse espaço coberto
Entre desertos e desertos que atravessei
Sinto-me acolhida aqui. Sinto-me agradecida
Você é oásis
Mas eu, meu bem, sou desassossego. Desespero. Voragem
E solidão, acima de tudo. Às vezes com orgulho, muitas com dor
Então eu sei, com certo aperto
Você não é abrigo, é alívio
Que eu pedia
E encontrei.
Descubro que meu amor é vontade de amar.

 

Gaivotas em Montreal

4 meses

Várias gaivotas surgiram em Montreal. Gaivota sabe, aquele pássaro branco grande que vive onde tem mar. Montreal não tem mar. Estarão elas perdidas? Tão longe de seu habitat natural. Ou apenas de passagem por aqui? Trajeto calculado. Eu não sei.

Hoje consegui a resposta da renovação do meu visto de trabalho. Ficarei mais 6 meses aqui, após julho, quando termina o meu primeiro visto. Até dia 31 de dezembro para ser mais exata. Perguntam as gaivotas o que faço aqui? Estarei eu perdida?  Ou apenas de passagem? Trajeto calculado. Eu não sei.

Isso me lembrou do prefácio de “The Snows of Kilimanjaro”, de Hemingway, o qual cita a carcaça congelada de um leopardo no topo do Kilimanjaro. E diz: “Ninguém conseguiu explicar o que tal animal procurava em tamanha altitude”.

Muita coisa aconteceu desde que cheguei aqui. Mas ao mesmo tempo ainda me sinto paralisada, em muitos aspectos, como na língua, ou melhor; nas línguas. Eu sempre digo que a vida nos confronta com aquilo que a gente mais teme. A fala – a comunicação – sempre fora o meu traço mais forte. Uma raiz que me sustentava e me projetava. Perdi isso. E estou assim, derramada.

Montreal me deu um presente em forma de gente. Não qualquer gente. Ou qualquer presente. Encontrei cruzes em suas mãos. Sabe o que significa isso? Li em alguma fonte barata sobre quiromancia que apenas 9% da população possui marcas de cruz na mão. Acho que é verdade, porque ele parece pertencer a essa minoria.

A neve a cada dia derreta mais. As ruas, as calçadas, parece que acabou de chover, mas é só a neve indo embora. Enquanto as gaivotas chegam. Os corvos também chegaram. Nunca tinha visto um corvo. Estou fascinada. Montreal é repleta de corvos. E eles fazem um escândalo danado. Assim como as gaivotas. Derretendo o silêncio de toda uma estação.

É bom saber que tenho mais 8 meses aqui. Porque esses 4 meses passaram assim, num estalo. E ouço todos comentarem como esse inverno foi longo. Para mim foi um sopro. Ou melhor, um furacão.

 

Snowfall – God is an Astronaut

Enquanto as flores não nascem

– Uma estação em Montreal

É Março. O último mês do inverno. Todos comentam. As estações são literalmente um marco aqui; a passagem do tempo é demarcada e lembrada por elas: “No último verão me mudei para cá / No inverno passado eu entrei no meu emprego / No último outono a minha mãe visitou…” Para mim, brasileira, que mal me lembrava das estações, é algo engraçado. Mas três meses em Montreal mudaram totalmente a minha forma de olhar pela janela e sentir o tempo.

Eu cheguei aqui no final do outono. Última semana de novembro. Vi a paisagem amarela pouco a pouco se transformar numa totalidade branca. O céu, as ruas, o horizonte. E agora vejo o contrário. O inverno a cada dia é menor. Os dias mais quentes e longos. O sol que se apagava às 16h, a cada dia permanece mais. Gosto de pensar que tenho sido como o inverno. Chegar aqui foi um desfalecimento. O meu corpo, o meu chão, a minha voz; tudo foi coberto por uma camada branca espessa, congelada, a qual me petrificou. Mas por dentro, gosto de pensar, estou crescendo a cada dia, para logo brotar.

Li alguns trechos de O Pequeno Príncipe em francês nesta semana. Deparei-me com a passagem da raposa com o seu discurso sobre “cativar”. O pequeno príncipe pergunta o que significa isso, cativar, a raposa responde que é algo complexo e demorado, e explica que, antes de tudo, ele deverá sentar-se ao seu lado, sem dizer nada. Porque a linguagem é “uma fonte de mal-entendidos”… Como isso me tocou fundo. Logo eu que sinto que estou suficientemente longe de tudo e de todos aqui pela minha incapacidade de me comunicar. Arrisco que seja este o maior aprendizado que Montreal tenha a me oferecer; aprender uma outra comunicação, conexão, do lado oposto das palavras explicadas e descobertas. Algo silencioso e escondido, com camadas e camadas brancas em cima, as quais se desmancham a cada dia.

 

Look On Down From The Bridge – Mazzy Star

Mas ela não vai ficar aqui muito tempo

Minha principal função em meu trabalho aqui é visita domiciliar a idosos. No começo isso me assustou um pouco. Na verdade, eu não sabia exatamente o que faria aqui. Em todos os sentidos. Agora, após 1 mês de trabalho, a visita domiciliar é a minha parte favorita. Gosto de invadir vidas. Constato. Gosto da intimidade, dos detalhes escondidos. Dos porquês. Sinto-me útil nesta função, é claro, mas creio que mais do que gratificação, encontro uma espécie de alimento. Conteúdo. Outra função minha em meu trabalho é auxiliar em clubes para idosos mais autônomos. Decidi trocar alguns clubes por mais “clientes”. Nesta semana começo com mais dois idosos para visitas semanais. Ao todo ficarei com quatro. Quatro vidas. No meio da minha.

Magda é uma de minhas “clientes”, mas já combinamos que não mais a chamarei assim. É amizade, explica ela, não serviço. Porque pra mim você já é da família – todas vez ela me diz – “like my granddoughter”. Semana passada ela chamou um amigo para me conhecer. Conversamos um pouco, contei um pouco sobre mim, sobre meus porquês e procuras. E nessa semana, Magda me contou os comentários dele sobre a minha pessoa. Ele amou você! Disse: ela parece ser uma pessoa tão boa, mas ela não vai ficar aqui muito tempo. Essas palavras me penetraram fundo. Como um presságio. Não que eu tenha dúvidas, hoje, sobre isso. Mas ouvir de fora, é diferente.

Saí do Brasil especulando dois caminhos: continuar no Canadá e seguir para Portugal, onde tenho cidadania. Eu tinha meus motivos para tal divisão. Hoje, já não tenho dúvidas sobre a inviabilidade e as inúmeras desvantagens de continuar aqui, sobre tudo mediante à cidadania. Cidadania a qual me trouxe aqui, a propósito. Decidi que quero permanecer aqui apenas durante este ano. Meu contrato termina em julho. Tenho a possibilidade de renovar minha permissão de trabalho por mais 6 meses, no atual emprego ou em outro em Montreal, ou em outro em outra capital. Não sei direito o que fazer. Uma parte de mim queria ir para outro lugar, principalmente pela língua. O peso das duas línguas, entre todas as atividades diárias, anda me soterrando. Mas, há outra parte de mim, e arrisco que esta seja maior, que diz: fica. Até o final. Dá um sentido pra isso. Transforma esse peso em consistência. E depois, vá.

Quero viajar pelo Canadá também. O que começo a planejar é tentar um novo contrato para o começo de agosto, e assim ter 1 mês para viajar. No verão. Para as altas montanhas do oeste. E para o Alaska. Quero muito ir para o Alaska. Into the Wild. Porque essa Montreal tão cheia de tudo, me faz sentir falta do contrário.

Tem dias que me sinto totalmente desolada aqui, nessa língua que não alcanço, nessa solidão que não tampo. E as pessoas ainda me perguntam sobre o clima. Eu já nem lembro que é frio lá fora. Porque aqui dentro é muito mais.

 

I am the wolf – Mark Lanegan

Cenário

– 1 mês em Montreal

Abro a mala. Pego as minhas coisas. Monto um cenário. Forro o chão. Uso não só o espaço da casa, mas principalmente o das ruas. Coloco o meu tabuleiro nas calçadas. Em cima da neve. Minhas pegadas. Minhas jogadas. Essa rotina que determina o lado de fora. E já esqueço onde estou.

A teoria da relatividade discute a subjetividade do espaço e do tempo. Recomeçar uma vida em um lugar distante me faz lembrar o que é relatividade. Subjetividade. Apossuo-me desse lugar o transformando em um desdobramento de mim. Um reflexo. Sinto-me num palco. O cenário pouco importa para o ator. Esquecemos o que está a nossa volta em plena atuação. Até encenamos um cenário caso não houver um. Sinto isso a cada cidade que me apodero. Uma melancolia surge. Desapontamento? Eu esperava alguma mágica? Um lugar encantado que transformaria a minha vida? O meu eu? Talvez.

Sou uma entusiasta do desconhecido. Lembro-me. Gosto de estar onde não conheço. Lugares, pessoas. Mas meu deslumbre não é tão grande como o meu cansaço. Como se já tivesse visto demais. Ou como se tudo fosse o mesmo. E sempre me lembro de “Tabacaria”: Fui até ao campo com grandes propósitos / Mas lá encontrei só ervas e árvores  / E quando havia gente era uma igual à outra.

A gente tem mania de justifica o interno com o externo. Achando que se as circunstâncias fossem melhores, seriamos melhores. O maior aprendizado de recomeçar uma vida num lugar tão distante e diferente é lembrar que o externo é uma dependência do interno; uma relatividade. Um espelho. Vejo o que sou. Forjo onde estou, conscientemente ou não. Se faz 30 graus ou -30, é um detalhe. Acaba sendo. Porque a gente se acostuma, adapta-se, esquece. Que um dia era desconhecido. Hoje é  lar.

 

Cast no Shadow – Oasis

Eu te matei

Em uma manhã fria de domingo, com o dia vazio e o peito cheio
Eu te matei depois de ter percorrido milhas e milhas, anos e anos
E ter encontrado só ausência. Inexistência.
Mas como é difícil sentir o vazio. Percebê-lo.

Matei não você, que há tanto tempo já não vive
Matei a sua parte que me prendia. Detinha
O vestígio que com tanto zelo eu cultivava.
Mas era fóssil amor, não semente. Não vida.

Matei não o passado, que não se muda
Matei o futuro que se inventa
Porque é isso amor, exatamente isso, que prende.
Você me era o sentido, o destino, a chegada.
E quando eu chegava, não havia nada. Fora.
Porque dentro, eu já não me via.
Era o seu corpo dentro do meu
Seu semblante que se tornou o meu
Você. Não eu. Você. Não eu.
Identidade. Propósito. Formato.
Deixar você é esvaziar-me. Encontrar-me.
Sou eu. Não você. Sou eu. Não você.

Eu te matei para renascer. Em mim.

 

Fine Again – Seether

On my Own

Domingo, 21:30. Saio de casa. Ruas vazias. -15 graus. Silêncio. Estou indo a um pub no centro onde rola “open mic” aos domingos. Sozinha. Preciso fazer isso. Começar de algum jeito. Ainda não tenho repertório longo o bastante para tocar na rua. Open mic parece uma opção boa agora, algumas músicas apenas, ganhar experiência no palco. Sim. Estou nervosa. Por tudo. Por estar sozinha. Pelo palco que irei encarar. Mas ao mesmo tempo um ímpeto me invade. Durante todo o tempo aqui sinto esse duelo de energias dentro de mim. Entusiasmo. Insegurança. E creio que um seja a origem do outro.

Saio do metro. Estou no centro da cidade. Aquele centro feito de prédios altos, comércio e bares. Mas mesmo este perde a sua euforia aos domingos de inverno, ganhando um semblante de abandono sob o véu de neve que caí. Acho bonito isso. A rua onde estou é só de pubs. Chego ao meu destino. Entro. Lugar pequeno, aconchegante, com aquele bar central com um balcão grande em volta, algumas mesas e um pequeno palco. Paredes decoradas com quadros de bandas de rock. Há poucas pessoas. Todas em grupos. Pego uma cadeira em uma mesa para dois, penduro os meus casacos e vou até o palco colocar o meu nome na lista. Pego um “paint” de chopp da casa, um stout de cacau, o meu preferido. Sento. Puta lugar legal. Sorte ter ido.

Esse é o meu segundo open mic em Montreal. No primeiro não tive coragem de subir no palco, mas foi muito bom. Acho esse lance incrível. É tipo um show de talentos. Super interessante. E uma energia muito boa. A pessoa sobe no palco apenas querendo compartilhar a sua música, dar o seu melhor, todo mundo nervoso, no mesmo barco. Lindo isso. E surpreendente. Melhor programa. No meio da noite chega um cara sozinho e pede licença para se sentar ao meu lado. Chama-se Phill. A gente começa a conversar, principalmente sobre música. Cara muito gente fina. Sua abordagem comigo é totalmente amistosa, sem nenhuma malícia ou diferenciação por eu ser mulher e ele homem. Algo que não estou acostumada. Acho isso demais. Começamos a compartilhar aquele momento juntos, comentando sobre as performances, assobiando, dançando. Euforia. Ele começa a fazer a contagem regressiva comigo sobre os músicos que faltam até chegar a minha vez. Apoio. Estou no meu segundo pint. Levemente bêbada. E a minha vez chega.

Queria contar aqui que arrasei, mas não. Errei letra, acorde, melodia, não consegui me soltar. Estava nervosa, insegura, com aquela sensação de: estou fazendo tudo errado. Mas foi. Uma iniciação. Combinei com o Phill de voltarmos semana que vem. Ele quer se apresentar também, e eu espero me apresentar melhor. Nessa semana irei repetir a noite em outros open mics. Até o desafio virar normalidade. Preciso disso. Em todos os sentidos. Sair de casa, ver gente, ouvir música, fazer música.  Preciso fazer isso. On my own.

 

I’m the Highway – Chris Cornell

Branco

Duas Semanas em Montreal

Quando o avião se aproximava de Montreal, o chão se tornava branco. Parece óbvio contando assim, mas, daquela altura, eu demorei um tempão para perceber que aquilo era neve. Eu nunca tinha visto neve. Era a primeira neve da estação, ainda tímida, invadindo a cidade.

Antes de vir para cá li um poema que refletia sobre a Lei do Eterno Retorno de Nietsche, dizia: “o meio do meio da vida; o momento em que o que já vivemos é exatamente igual ao que ainda não vivemos.” Seguirei eu os mesmos passos sobre um outro cenário? O que o lado de fora interfere no lado de dentro? Ou vice-versa.

Uma língua que não entendo. Pessoas que não conheço. Branco. Vazio. Durante esses 15 dias eu senti uma oscilação extrema entre liberdade e asfixia. Às vezes me deslumbro, noutras me sinto totalmente perdida.

Amo esse clima. Esse vento cortando a pele, essa fumaça saindo da boca, a neve caindo, acima de tudo a neve caindo.  Hoje fui ao Parque do Mont-Royal. Era o lugar que eu mais queria conhecer, e demorei duas semanas para ir, porque durante todos esses dias fiquei aqui toda louca atrás de casa. Essa mania de trocar o importante pelo urgente, ou seria o contrário? Eu sou obcecada. É uma característica primordial minha que dita todas as outras: dedicação, coragem,  perfeccionismo, teimosia… Quando começo a fazer algo, não consigo parar até terminar. Perco a noção do tempo . E não consigo fazer mais nada.

Fui numa loja indiana comprar um tecido com a imagem de Durga para colocar no meu quarto. Deparo-me com um de Kali, a terrível Kali. Era lindo e barato, sem pensar muito o comprei também.  Chegando em casa me arrependi. Quê pesado ter uma imagem de Kali na parede. Kali é sem dúvida a deidade mais complexa do panteão hindu. Deusa da morte e do tempo. Insaciável por destruição e renovação. Decidi devolver o tecido, mas não cheguei a tempo, a loja já estava fechada. Achei que era um sinal. Voltei pra casa e fui reler o mito da deusa. Kali é tão temida pois representa a sombra de tudo. A parte escura que os olhos não alcançam ou desviam. Kali foi a deusa que derrotou um exercito sanguinário de demônios e salvou assim todos os outros deuses. Deparar-se com Kali é deparar-se com os nossos demônios; ilusões, ego; tudo aquilo que não tem porquê, que só bloqueia e cega. O problema é que não queremos ver esses demônios, não queremos assumir que os possuímos. E assim tememos Kali; tememos a nossa sombra.

Coloquei a imagem de Kali na minha sala, bem visível.  A previsão da próxima semana é -15. O início é branco.

 

The dying of the Light – Noel Gallagher

Um dia

Estar em Araraquara sempre me arremete a uma imagem da infância: o chão da cozinha da minha casa, eu sentada, encostada na parede, com os joelhos junto ao peito, de olhos fechados, espremidos. Eu tentava visualizar tudo daquilo que eu não conseguia ver. Eu começava a imaginar o que poderia haver além daqueles muros, lá na casa do vizinho, e depois o que haveria além do meu quarteirão, além do meu bairro, da minha cidade, das estradas, do estado, do país. E um desespero enorme me caía. Uma vontade de sair correndo. Um aperto. Uma falta de ar.

Araraquara me era um aquário. Cresci com a obsessão de pular fora da cidade. Pra qualquer lugar. De qualquer jeito. Todos os meus planos, durante toda a minha vida, giraram em torno desse plano de fuga. Qualquer lugar, menos aqui. E o quanto mais longe, melhor.

No meu último ano em Curitiba esse desespero infantil me atingiu. Eu tentava o dissecar, tentando compreender a sua origem. O problema não era a minha rotina, ou a cidade, ou a forma que eu, sobre ela, vivia. Então eu dava os ombros. Achando bobagem. Todos nós possuímos afinal essa vontade súbita de ir embora. “Minha dor não era dor, era só cansaço.” Lispector, se não me engano.

Eu não fui atrás do Canadá. Considero. Eu não cogitava em sair agora de Curitiba, quiçá do Brasil. Mas quando essa oportunidade surgiu, eu me agarrei a ela com tudo que eu tinha e não tinha. É difícil, até pra mim, entender essa atitude tão extrema. Eu estava no momento mais fértil de minha vida. É leve jogar tudo para o alto quando temos muito pouco ou quase nada. Mas eu tinha tanto. E mesmo assim, aquele desespero de ir embora só crescia. Por mais que eu amasse Curitiba, eu já não me sentia em casa. Creio que o maior motivo foi o peso do tempo, da idade. A cada dia me sinto mais velha. Num sentido de possuir menos tempo. E eu cansei de entregar os meus sonhos a um amanhã que se quer sei se existirá. No que depender de mim, será agora. Porque os resultados podem não estar no agora, mas a ação está.

Nessa véspera da maior mudança da minha vida, uma calma absurda me invade. Eu não me sinto indo para outro continente, ao extremo norte. Sinto-me indo pra qualquer lugar aqui do lado, pertinho. O desespero de correr diluído na paz de ir. Eu fortemente acredito que a diferença não está no caminho, mas no caminhante. Na autenticidade do caminhar. É por isso que estou indo, explico-me, acalmo-me. Vou.

 

Cody – Mogwai