Há um ano, perdi minha voz

Mary, 100 anos, começa a me contar algo, mas para logo no começo e diz: – Eu já te disse isso né? Não, eu digo, continue. Mesmo já sabendo de cor. Ela retoma o discurso, mas logo para novamente. Dá um riso nervoso e diz: – Não me lembro. Sonia faz a mesma coisa. 93 anos. Já aprendi a nunca perguntar sobre como foi o seu dia. Ela sempre aperta os olhos, procurando o que dizer. Mas não encontra. Não lembro, diz. Desculpa. Está tudo bem, digo. Está tudo bem.

Foi há muito pouco tempo que percebi uma atroz conexão minha com os idosos que atendo: eu também perdi a minha voz. A minha habilidade de dizer o que quero dizer. Não consigo. Porque não sei como dizer. No caso deles é a memória que falta, no meu é a memória que não existe. Mas é o mesmo espaço escuro no meio do caminho, atravessando a garganta.

Quando decidi vir para cá, eu sabia que não estava preparada, em nenhum sentido, mas principalmente em termos linguísticos. Não sei exatamente como lidei com isso. Se não tinha ciência do meu tamanho despreparo ou da situação pontiaguda que estava a me meter. Não sei. Mas sinto que foi essa a troca: minha voz por esse lugar. Foi o sacrifício. Todos os dias eu penso nisso. Sinto isso. Desespero-me por isso. Às vezes acho que não vou conseguir. Que não vou conseguir nunca falar uma segunda língua como falo português. E que sempre vou estar assim, debilitada, impossibilitada de dizer tudo que eu queria, como eu queria.

Também me identifico com Rafael que está há 40 anos aqui e não desenvolveu nem inglês nem francês. Porque não houve estímulo. Prática. Aqui ele sempre trabalhou como “peão”, manuseando máquinas, sem uso algum da língua. Seus pouco amigos eram falantes da língua espanhola. Em casa, só assistia TV em espanhol, porque tinha trabalhado como um louco e só queria relaxar um pouco. A vida é pesada. O tempo voa. Aparentemente o caso de Rafael pode parecer “falta de esforço”, mas como é leviano julgar assim, sem viver a vida do outro.

Depois de um ano aqui, abrir a boca para falar inglês ainda me é um campo minado. Eu vou assim, rastejando e suando frio. E por mais que eu estude em casa, vejo que a aplicabilidade é muito distante da teoria. Como se fosse uma questão fisiológica, não só intelectual. Sem o condicionamento, o conhecimento tranca-se. Sem a prática, não há domínio. Sinto-me um tanto como Rafael, confinado e limitado. E também como as minhas clientes mais idosas e suas gargantas perfuradas, onde as palavras não chegam.

A drowning – How To Destroy Angels

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Face Facts With Dignity

– Sobre não estar e não ser
 
Nunca me esqueço do velhinho artista plástico que encontrei em um asilo municipal de Curitiba, lugar que mais se parecia com uma casa residencial qualquer de periferia, e se não fosse pela placa, eu pensaria isso. Nem os idosos costumam estar à vista, passando o dia na pequena sala de estar, despejados nos estreitos sofás diante à televisão. Menos o velhinho artista. Ele estava sempre no seu estreito cantinho no quarto comunitário, em sua escrivaninha, pintando, desenhando, escrevendo, lendo. Ele era um conceituado artista quando jovem. Não soube disso por ele, mas pelos enfermeiros. Mas o que impressionava não era exatamente o seu trabalho, mas a sua pessoa. Uma luz irradiando no meio daquele lugar de tamanhas sombras. Hoje paro para pensar na magnitude disso. Principalmente depois de um ano intensamente trabalhando com idosos. Amargura é quase sinônimo dessa fase. Uma revolta intrínseca pela vida que se vai e não se detém. Saúde, família, amigos, capacidade. Tudo escorre, líquido e derramado. Por isso me emociono até hoje parando para pensar no velhinho artista, que mais parece o personagem de algum livro de contos ou de autoajuda. E isso me faz principalmente pensar na nossa condição de ser humano. Condição angustiada, desassossegada, incompleta. Tão difícil estar e ser o que se quer. E talvez nunca conseguiremos. O segredo está ali: na capacidade de ajustar-se, de encontrar um jeito de fazer e de ser com o que se tem, com o que se pode. De agarrar-se ao que existe, não ao que se foi ou não veio. E principalmente: ocupar-se. Para esquecer de si. Sim. Porque o vazio de dentro é uma galáxia inteira que nos habita. Inalcançável. Inexorável. Tanta coisa que machuca, que não faz sentido, que falta, e gira, e grita. Esquecer de si é abraçar-se. É preencher-se. Doar-se para algo maior. Sentir-se útil. Esqueci de dizer que o velhinho artista faz voluntariado. Visita outras instituições públicas lecionandos aulas de arte.
 
A vida nunca vai ser bem aquilo que a gente quer. Sempre vai ter aquela agenda atrasada, aquela gaveta bagunçada, aqueles livros comprados e nunca lidos. Aquele nó na garganta. Talvez a gente encontre a nossa alma gêmea, mas não o trabalho dos sonhos. Ou talvez o grande amor ou a grande oportunidade nos leve para terras jamais antes almejadas. Difícil estar, fazer e pertence aquilo que se quer. Ao mesmo tempo. E mesmo se conseguíssemos, alguma sequela vai aparecer ou restar. Sempre. A procura por controle, manipulação, felicidade, é sempre uma cilada. Não se trata de conformismo, mas arquitetação. Sair do papel de vítima e tornar-se protagonista. Entrando no palco, seja esse qual for. Porque isso daqui é vida, não filme, não ficção. Mas existência, próprio meio e fim.
 
Ouvi essa frase essa semana: “Face Facts with Dignity.” O que é dignidade afinal? Quando se diz: Isso é digno, o que se quer dizer? Trabalho digno, pessoa digna, oportunidade digna. Isso me soa como “é merecido”, “faz valer a pena”. Ou algo relativo à nobreza em um sentido de elevação. Mas eu resumiria isso em uma palavra: Gentileza. Genlileza com o mundo e principalmente com si. Num mundo de espinhos, gentileza é flor. É o que encanta.
 
Escrevo tudo isso para dizer-me. Isso por toda a minha vida tem me salvado. Queria muito contar isso. E queria que você que está lendo conseguisse me ver agora, encoberta por lágrimas. Essa é minha pequena e imensa epifania. A criação faz isso, ela digna. Foi por isso aliás que tatuei “POEM” nos meus dedos, no lugar mais aparente que poderia, para lembrar-me, sempre, que qualquer coisa, qualquer situação, torna-se poesia. A beleza não se alcança, cria-se. Talvez dignidade seja isso.

 

Eat the Elephant – A Perfect Circle

Segundo Inverno

Olha! Parece que de um dia para outro as árvores perderam todas as folhas, não?! Diz Magda ao meu lado, uma de minhas clientes, enquanto cruzávamos a cidade de carro. Isso foi semana passada. Hoje já abri a janela ao acordar e tudo era branco. A madrugada veio e forrou a cidade de neve, assim, sem ninguém perceber. Como as grandes mudanças costumam ser.

Magda acaba de me contar que seu filho chegou ao Quebec sem saber inglês ou francês. Isso já com seus 30 e pouco anos. Imediatamente decidiu que queria estudar, profissionalizar-se. Então se dirigiu à Universidade do Quebec e disse isso: Quero estudar mas não falo francês. Foi aceito. Pela própria conta e risco. E aprendeu francês durante o curso. E formou-se em engenharia. Hoje é fluente tanto em inglês como francês. Criou dois filhos os alfabetizando em francês, à propósito.

Fico feliz quando alguém elogia meu perfume. Porque há tempos não o sinto. Isso acontece com vocês também? Eu sempre uso um único perfume até acabar. Após poucas semanas, paro totalmente de sentir o aroma. E penso: parou de funcionar. Mas não. Eu só me acostumei com o cheiro. E não mais percebo. E não mais percebo.

Não percebo também as minhas transições. Os meus avanços. Parece tudo horizontal. Preciso que alguém de fora me diga; perceba-me. Pois dentro das nossas vidas somos alheios à mudança por sua condição ambígua que se anula. É volátil, é rastejante. Quando percebo, já é outra coisa. As folhas já estão amarelas, já caíram, já estão cobertas por uma camada branca e gelada.

Quando percebo, esse é meu segundo inverno em Montreal. Um ano se passou a galopes. E tanta coisa parece a mesma. Mas é quando saio e percebo que o frio, já não é tão frio. E a neve, que antes de vir para cá eu tanto temia, já é lugar comum e até sinônimo de aconchego. Nessas sutilezas que percebo que nada é o mesmo. Estamos sempre indo

Espiral

– 1 ano em Montreal

Dourado. Um tapete de folhas amarelas por todo o chão: ruas, calçadas, parques. Tratores passam sugando-as, sacos são distribuídos para a população. Nos parques crianças se esbaldam fazendo montem com as folhas e se atiram em cima. Jovens não poupam os clicks. Montreal é uma atração natural no outono. De graça. Leve. As árvores já se encontram quase nuas, as folhas caem como chuva. O vento levanta as folhas em espiral. Um véu dourado sob Montreal.

Trato. Acabo de fechar um círculo. Uma das situações mais densas da minha vida, a qual pendurou por quase uma década. Assim, em círculos, como tudo costuma ser. Não permanente, mas latente. Residual. Mas além disso, foi atroz. Tão atroz que me arrastou para essa terra estrangeira. Eu fiz um silencioso trato. Porque você sabe, a gente nao quebra o carma, é o carma que nos quebra. Então, para isso, desfiz-me. Dei tudo. Dei-me. Além de difícil, foi lento. Isso me faz lembrar daquele conto memorável de Neil Gaiman, Os Outros. “O tempo é fluído aqui – disse o demónio.”

Alívio. Atravesso a cidade sobre minha bicicleta, escolhendo ruas vazias. Fecho os olhos, sentindo o vento gelado me cortar o rosto. Meu corpo está quente, suado. É um aconchego estar ali. Aqui. Hoje.

Queda. Decido ficar. Mais um tempo. Porque agora, fico por mim. Levanto-me. Recomeço. Resignifico. Esse tempo é meu. Essa estação é minha. Ensinando-me a ver beleza na queda. Uma exaustão que leva, não tira. Cura.

Branco. Dentro de alguns dias começa a nevar. Eu cheguei aqui nessa época, quando a cidade já embranquecera. Sem pressa, aguardo por isso. Porque essa é a minha próxima etapa. Recolhimento. Preciso de tempo comigo. Estancando-me. E acima de tudo: perdoando-me. Nunca antes havia pensando nisso: autoperdão. Aceitação profunda que só torna-se possível com a compreensão.

Força. Arriscamos pensando em ganhar. Mas esquecemos que ganho e perda são águas da mesma fonte. Inseparáveis. É um trato: sempre é preciso dar para receber. Despir-se para livrar-se. Mas algumas coisas são tão enraizadas, sedimentadas, que exigem muito. Muito mais do que podemos ou entendemos. Sozinho não conseguimos. Algo tem que acontecer. Algo que nos sirva de apoio para saltar. E isso sempre é uma quebra. Falar disso me faz recordar forte do difícil  e longo divórcio de meus país, após 20 anos casados. Uma das épocas mais densas de nossas vidas. Foi nessa fase que tatuei: ‘Cause there’s beauty in the breakdown. O caos movimenta-se em espiral. Invisível, lento, leve. Mero eufemismo de mudança. Vez ou outra o vento o dá forma, quando as folhas se levantam em um redemoinho bonito e dourado.

 

The Final Chapter – Olafur Arnalds

Procura por Ninguém

Tudo que eu não deveria (te) escrever

Uma lembrança: a gente na Av. Paulista caminhando à noite. Eu precisava comprar não sei o que lá, numa banca de jornal se não me falha a memória, porque você sabe, deve ter sido em 2009 isso. Quase uma década atrás. O que me faz me lembrar dessa cena é você dizendo que estava feliz ali caminhando comigo, naquela rua tão clichê, numa noite tão qualquer, acompanhando-me em algo tão ordinário. Não me lembro que palavras você usou, mas disse que há tempos não andava na Paulista assim, passeando. E foi tão genuíno você falando aquilo, foi tão simples. Que isso me marcou. Porque é exatamente essa simplicidade que parece ser tão difícil de encontrar na vida.

A primeira vez que te disse sobre a minha vinda para Montreal, e perguntei se poderíamos nos ver aqui, você foi direto: Acho melhor não, avisou “Se suas intenções não estiverem claras”. Você não se responsabilizaria por isso. Por mim. E não acho que perante todo o contexto, tenha sido duro demais. Mas mesmo assim eu vim, por mim, por minha conta e risco, e logo na primeira semana eu não me aguentei, e te procurei cheia de intenções desesperadas. Derramadas em cima de você. Quase como uma enchente que leva pra longe, em vez de trazer pra perto.

Foi libertador para mim isso: sua negação. Senti-me no limite. Nada mais me competia a fazer. Até escrevi canção, poema, texto, falando sobre o equívoco que foi viver e reviver e permanecer em você. Agora acabou. Eu cantava, rimava, explicava. Vim até aqui, o limite da minha procura. E não encontrei. Ninguém.

Então fui viver a minha vida. Aqui. Permaneci como ainda permanço, sabendo que Montreal faz parte do meu caminho, com ou sem você. E assim trabalhei, estudei, até namorado arrumei. Foi um ano muito intenso. Quando as minhas pessoas mais próximas, que sabiam de tudo, questionavam, preocupadas, como eu estava qui em relação a você, eu dizia: “É como se nada tivesse acontecido! Como se ele nem existisse.” Dava a página por virada. Até, no drama que sou, te escrevi adeus. E isso é verdade. Eu não ponderava mais nada. Mas como costuma acontecer comigo no que diz a seu respeito, foi só questão de tempo até eu me encontrar aqui, vasculhando a sua ausência. Então, eu te procurei, de novo. Sem querer, sem nada pretender, mas sem conseguir evitar. E você foi duro. Como sempre. Com razão.

Você tão racional deve achar isso um absurdo sem tamanho. Eu, tão ao contrário, também acho. Quando paro para racionalizar, desmorono.

Eu vim pra Montreal apoiada em muitos motivos, todos para justificar a insensatez que era vir aqui por você. Para te procurar. Porque eu precisava tanto te encontrar. Porque em quase 10 anos, nunca mais encontrei ninguém que prenchesse o espaço que você deixou. Ninguém que me fizesse sentir a leveza que você me monstrou e levou embora.

É claro que eu me disse e todos também me disseram: Isso é errado. Isso é loucura. Não se pode fazer isso: mudar de país, de continente, por uma lembrança, por um passado tão distante. A gente se quer mantinha contato. Há quase 10 anos. Loucura. Eu sabia. Eu vim sabendo. E decidi vir porque ao longo de todos esses anos, eu fiz exatamente o contrário. Eu segui a razão, reneguei a sua lembrança, repreendendo-me de todas as formas por ainda me ver atada a você, explicando-me arduamente que era carência, idealização, projeção, trauma de infância. Qualquer coisa errada que precisava ser superada. E mesmo assim, não superei. Quase uma década se passou, e eu ainda não superei. Foi por isso que mudei minha vida pra cá, fazendo o maior esforço que poderia fazer, indo no limite onde poderia ir para te encontrar, para te buscar. Porque eu precisava resolver isso. Por conta e risco. Porque eu precisava te superar. E pra isso, eu precisava te ver. Só assim eu entenderia. Só assim eu enxergaria quem hoje você é.
Mas eu não encontrei.
Ninguém.

 

Carry Home – Mark Lanegan

Mandy e Elisabeth

Diário de Serviço Social
 
Mandy* é a minha cliente mais idosa e debilitada. Ela tem 100 anos, não consegue ouvir direito ou andar. Os longos anos de locomoção através de um andador a deixaram completamente curvada. A memória é cada dia mais ausente. A pele esfarelando, os dentes quase inexistentes, a voz sufocada. Os cabelos brancos e ralos. É uma criança. Uma criança cansada. Quando quer algo e não é prontamente atendida, joga as coisas na parede. Quando se sente ameaçada, grita. Chego um tempo que o tempo da vida humana anda para trás.
 
Quem cuida de Mandy é Elisabeth*, uma amiga. Eu demorei muito para descobrir o laço de ambas. Só depois de muitos meses trabalhando com elas, senti-me na liberdade de perguntar. Elisabeth “adotou” Mandy por amor e necessidade. Soa redundante assim escrevendo, “amor e necessidade”, como se fossem, obviamente, a mesma coisa.
 
Elisabeth conheceu Mandy através de uma amiga que morava no mesmo prédio que Mandy. Visitava essa amiga rotineiramente e sempre se deparava com Mandy circulando pelo edifício. Elisabeth tinha acabado de perder sua avó quando conheceu Mandy, a qual já era uma velhinha. A identificação foi momentânea: Elisabeth viu a sua vó em Mandy, e rapidamente desenvolveu grande afeto pela velhinha desconhecida, passando a visitá-la frequentemente.Em uma dessas visitas, Elisabeth achou Mandy caída no hall, inconsciente. No hospital avisaram Elisabeth que Mandy já não podia andar com firmeza e que também, devido à sua idade, precisava de ajuda, de cuidados. Mas Mandy era totalmente sozinha em Montreal. A irmã mais próxima, que vivia nos Estados Unidos, veio visitar Mandy devido ao acidente, e propôs à Elisabeth que morasse com ela, como uma “roommate” (colega de quarto). Assim Elisabeth economizaria no aluguel e nas contas, não precisando pagá-las, e em troca cuidaria de Mandy. Elisabeth que estava passando por árduas necessidades financeiras, e que também era sozinha, aceitou. Desde então passou a ser o mundo de Mandy: sua cuidadora e única companhia. Com o passar dos anos Elisabeth desenvolveu um sentimento e responsabilidade “materna” diante à Mandy, como costuma acontecer. Mas Elisabeth não é mãe ou filha ou se quer parente de Mandy. É apenas uma “roommate”. E isso inevitavelmente lhe cai em contradição. Mesmo assim, o fardo não lhe a soterra, porque o sentimento é maior. Elisabeth é uma verdadeira altruísta. Já presenciei incríveis demonstrações de empatia vindo dela, mas assim, algo não normal. Como ela chorar ao escutar o vizinho esmurrando a parede, porque tinha dó dele, porque ele era sozinho, e ela queria ajudar e não conseguia. Hoje entendo que muito além de sentimento, é essa sua nobreza que sempre a manteve ao lado de Mandy, durante todos esses difíceis anos.
 
Mandy e Elisabeth são muito humildes. Elas moram em um apartamento minúsculo onde mal suportaria uma pessoa. Então Elisabeth dorme no quarto e Mandy na sala, em um sofá. Sofá normal, não sofá-cama. Eu acredito que isso se formatou por causa do tamanho de Elisabeth, ela não caberia em um sofá normal, já Mandy, tão pequena e frágil, tranquilamente cabe. Sendo assim, o sofá tornou-se o único cenário de Mandy. E isso é um soco em meu estômago. É lá, no sofá, em sua minúscula sala, que ela dorme, come, permanece. 24 horas. No verão a levamos para pequenas voltas no quarteirão, no inverno as voltas se limitam ao corredor do seu andar, o qual ela percorre com o entusiasmo de quem saí num dia de domingo para passear. Pergunto se não quer ir ao hall principal do prédio, para variar um pouco, mas não, ela diz: “eu prefiro o corredor”. Então vamos pelo corredor, indo e voltando, quatro, cinco vezes, às vezes cantando outras contando os passos em francês. Sempre paramos na porta que leva à escadaria, e ela se põe a contar que antigamente não existia aquela porta, e então seu antigo gato se perdia pelos andares do edifício. – Imagine, precisávamos parar em cada andar e chamá-lo!
 
No começo eu me desesperei diante à Mandy. Não sabia como lidar com ela, principalmente pela limitação auditiva e vocal. Eu não a entendia e tampouco ela me entendia. Mandy foi um dos pilares que edificou o ensinamento mais importante que Montreal me deu: a conexão além das palavras. Logo eu, uma estudante de psicologia cética que questionava arduamente a aplicabilidade dessa ciência via à comunicação; a sua principal ferramenta. Mas a comunicação está além das palavras. Montreal me ensinou.
 
A música tornou-se o nosso maior vínculo. Mandy é louca por música, especialmente clássica; piano, Bach, “Goldberg variations”, mais especificamente. É surreal o efeito que a música provoca nela. Surreal. Ela entra em uma quase transe quando coloco em meu celular ou tablete “Goldberg variations” para escutarmos. Mas não é só isso, uma vez ela cismou que queria escutar rádio, ela mesma se pôs a escolher a estação. Optou por uma que estava tocando POP, aquele POP atual bem clichê com aquela base eletrônica. Imediatamente se levantou e começou a dançar. Imaginem agora o que foi ver aquela velhinha, que mal para em pé, dançando no meio da sala ao som de POP adolescente. Foi inacreditavelmente lindo.
 
Diferente de muitos idosos que atendo, Mandy não perdeu a capacidade de deslumbre, e isso é a sua salvação.
 
Nesta semana uma cena me tocou forte. Cheguei ao apartamento e Mandy estava no meio de uma crise, jogando tudo contra a parede, aos gritos. Ela também estava com as mãos inteiras pintadas de batom vermelho. Elisabeth imediatamente saiu quando eu cheguei. Perguntei a Mandy qual era o problema, ela disse que estava com frio e ninguém se importava. Eu peguei um xale, coloquei em seus ombros, e busquei na minha bolsa um lenço umedecido para limpá-la. Após limpar, peguei um hidratante e comecei a passar em suas mãos. Então ela disse: – Deixa-me fazer isso em você também, é muito bom! – referindo-se ao ato de massagear a mão com creme. A delicadeza daquele momento é algo difícil de descrever.
 
A gente começa a estuda psicologia querendo descobrir e compreender teorias e teorias que se propõem a desvendar a mente em sua condição motriz sobre a complexidade humana. Só assim achamos que vamos conseguir fazer a diferença. Mas não. É no oposto da complexidade que está a chave: na delicadeza quase invisível e esquecida. É essa que consegue penetrar na gigantesca dimensão onde a razão, não alcança.

 

 

Controle-me

– Diário de Serviço Social

Queria contar sobre Sonia, egípcia, 95 anos, há 50 morando no Quebec, Canadá. Ela é uma é uma de minhas clientes aqui, em Montreal, onde há um ano realizo “estágio” em serviço social com idosos. Estágio com aspas porque não sou, oficialmente, uma estudante universitária. É difícil explicar – até para mim – o que é exatamente o meu trabalho aqui. Então resumo em “estágio” para facilitar. O que faço são visitas residenciais a clientes fixos, os quais já atendo há quase 1 ano. A necessidade dessas visitas varia totalmente, mas quase sempre é uma mescla de acompanhamento externo com “friendly visit”, a qual também se ramifica em inúmeras atividades. Tenho um cliente, por exemplo, Rafael, que não fala nem inglês nem francês, só espanhol, além de ser sozinho aqui, com 80 anos. A sua maior necessidade é ajuda com a comunicação; agendar uma consulta, ligar para solicitar qualquer serviço, resolver qualquer problema; tudo se torna um bicho-de-sete-cabeças pela limitação linguística. Já Magda, outra cliente, possui uma grave enfermidade nas mãos e não consegue fazer praticamente nada sozinha. Com Magda além de acompanhamento externo faço de tudo um pouco: auxilio em pequenas arrumações diárias, cozinho para ela coisas simples como panquecas e cookies – uma gigantesca alegria para ela que se tornou totalmente dependente de comida pronta, e ouço-a a falar por horas sobre a vida, enquanto tomamos café e comemos os quitutes recém-feitos.

Agora sobre Sonia, a minha cliente mais “difícil”, a qual eu diversas vezes já pensei em conversar sobre com a minha coordenadora, arrumando uma desculpa para não mais atendê-la. E Sonia é o meu atendimento mais rápido e “simples”. Costumo apenas acompanhá-la em um grupo social de idosos às quartas-feiras. Mas Sonia tem “ansiedade crônica”. Em fortes aspas porque não sou pró-rotulação psíquica. Não creio que a mente se limite a um diagnostico clínico. Mas é assim que Sônia foi/é diagnosticada. E por isso toma doses e doses de ansiolíticos, cada vez mais potentes, para mantê-la “controlada”. Mas sempre a vejo em total descontrole.

Sonia tem quase 100 anos, mas mora sozinha. Realidade típica aqui. Recebe serviços de cuidado pessoais do governo, duas vezes por dia funcionárias vão à sua cada para ajudá-la a comer, limpar-se e a manusear os medicamentos. Seu filho, sua única família, mora a metros de distância, vivendo mais em sua casa do que na dele, dando total assistencialismo também. Mas morar sozinha só é possível porque Sonia é apta fisicamente e mentalmente. É lúcida. A ansiedade patológica, a meu ver, foi uma resposta às suas limitações cognitivas, as quais, inevitavelmente, a idade trás. Principalmente a falta de memória. Não lembrar-se o que aconteceu há poucos minutos, onde se colocou a chave, os sapatos, a carteira… Medo. Medo de si. Falta de confiança em tudo. O mundo tornando-se um lugar cada vez mais instável e quebradiço. Desespero. Eu creio que essa conjuntura em sua repetição totalizou-se em tamanha inquietude psíquica. Sonia nunca está bem. Sempre está em pânico, pensando – ponderando – todas as possibilidades de erro e fatalidade. O reflexo é sempre físico: tontura, palpitações, falta de ar, exaustão. Chega a um lugar já querendo ir embora. Não consegue se concentrar em nada. Tudo é hostil. Tudo agride.

Hoje cheguei a sua casa para levá-la ao Social Club. O seu filho usualmente vai antes para ajudá-la a se vestir e para estimulá-la a ir. Hoje ele não foi e ela estava rendida. Deitada no sofá com pijamas, dizendo estar cansada demais para sair. É delicado dialogar com Sonia. Dizer uma simples frase como: “se você quiser podemos ficar aqui”, já é motivo de conflito. Ela desespera-se diante à escolha. Então eu disse: vamos ficar aqui então. Podemos dar uma volta, aproveitar que não está tão frio hoje. “não sei se quero sair”. Então ficamos aqui – eu disse. – Mas o que podemos fazer aqui? – Podemos conversar. – E jogar cartas? – Sim, podemos jogar cartas. Nesse momento o seu filho ligou e insistiu a ela para sair para caminhar um pouco e ir a um café, já que não iríamos mais ao Social Club. Guiada pelo filho, sentiu-se quase na obrigação de sair. Então, eu sugeri: vamos jogar cartas no café! Ela riu: – As pessoas fazer isso? – Sim, fazem! Vamos, vai ser divertido.

Já fui outras vezes com Sonia em cafés assim como em pequenas caminhas pelo bairro, todas às vezes a conjuntura foi a mesma: o mesmo desespero e incômodo com tudo. Chega ao café e já quer ir embora etc… Eu já esperava por algo assim hoje, mas não. Foi diferente. A caminhada foi rápida porque a temperatura despencou, então entramos rapidamente em um café e lá permanecemos por 2 horas! E só saímos porque eu tive que insistir.

Achei um baralho jogado no fundo da estante de Sonia. Um baralho infantil, tipo jogo de memória, cada carta com um animal desenhado, algo do tipo. Tirei o baralho do bolso no café. – Você sabe como funciona isso? – me perguntou. Não, mas vamos descobrir. Cada carta tinha 3 repetições. Dividi as cartar entre nós duas e começamos a jogar: quem montasse os “pares” primeiro e acabasse com as cartas ganhava. Quando terminamos a primeira rodada pensei: que coisa boba meu deus, ela deve ter odiado isso. Foi aí que escutei: again¿ E isso se repetiu pelas 2 horas seguintes.

Essa foi a primeira vez que vi Sonia em paz. Contente. Ela repetia durante as jogadas: it’s quite nice isn’t? Entre as jogadas também eu puxava assunto sobre asua vida. Isso se prolongava durante o jogo: – Esse animal aqui, tem no seu país? Você já foi na Africa para ver elefante? E assim se desenrolou as horas. Em nenhum segundo ela reclamou ou preocupou-se. Usualmente ela telefone para seu filho repetidamente. Seu filho que acabou me telefonando para saber se estava tudo bem, pois estava “sem notícias”.

Antes de irmos embora, ela soltou: – Foi bom eu ter saído. Quase deixei a minha mente me vencer. É que tem algo aqui (apontando pra cabeça) me controlando sabe.

O Mindfulness, abordagem psicológica, aplica que o bem-estar está na plena atenção/concentração ao momento. Em um mundo de múltiplos estímulos, distrações, preocupações; esmagamos o presente entre angústias do passado e anseios do futuro. O que todos buscamos em comum é alívio. Um momento de conexão com algo ou alguém que nos finque; que nos “controle”.

 

Take my Leave of You – Ólafur Arnalds

Outono, Montreal

Fim de setembro, Montreal. As ruas ganham um cenário idílico. As árvores, em suas individualidades, mudam de cor em diferentes tempos, mas como isso é lindo. Um encontro de folhagens verdes, amarelas, vermelhas e marrons, emoldura a cidade. O vento gelado, os dias cinza, muita chuva, nunca choveu tanto aqui. Outono é transição. E eu estou no meio disso.

Às vezes me flagro com os olhos fechados, procurando algum apoio, dizendo-me: falta pouco para eu ir embora. Calma, calma. Porque às vezes, parece que não vou aguentar, sinto me despencando junto com as folhas exaustas. Noutras, desespero me com a fugacidade dos dias. Passo por essas ruas já sentindo saudade, espremendo os olhos, tentando reter cada cor, sensação, detalhe.

Comprar uma bicicleta me fez ver Montreal. Antes eu me locomovia embaixo da terra, hoje atravesso a cidade diariamente na superfície, à flor da pele. Pela manhã, faço todos os dias o mesmo percurso, e me surpreendo com a mudança silenciosa da paisagem. Sem alarde. Parece que em um piscar de olhos tudo mudou. Mas não, a mudança é sempre lenta, tão lenta, que não a percebemos. É perigoso isso, pois não sentindo a evolução, não vemos o resultado. Sentimo-nos estagnados. Dentro dos dias, das estações, do tempo.

Sinto-me desesperadamente só, hoje, nesse outono, e me pergunto qual a diferença de agora para antes, quando estava igualmente só no Brasil. Não sei. Talvez todos os detalhes estrangeiros que me cercam, fazendo-me me sentir mais e mais à parte de tudo. Mas não é só escuro. Sinto-me numa espiral, girando, girando. Tudo é mudança. Lenta, silenciosa, mas em movimento. E no escuro da minha solidão, fecho os olhos para poder ver isso.

 

Unfurl – Katatonia

Are you willing to pay the price?

Sobre dificuldades e ciclovias

Você está disposto a pagar o preço?” Aprendi essa expressão em inglês há pouco tempo, e achei demais. O verbo “to will” significa algo como “desejar”, “ter vontade”. Disposição é ter vontade, principalmente diante do não agradável do caminho – de qualquer caminho. Pensei nisso hoje quanto pedalava para chegar ao trabalho. Há umas partes realmente cansativas no meu percurso diário, mas outras são puro deleite. O saldo de longe é positivo, trocar o caos do metrô pela liberdade das ciclovias foi a melhor coisa que fiz em Montreal. Muito mais do que isso, até virou uma terapia, uma coisa boa no dia. As íngremes subidas de alguns trechos, que me deixam ensopada de suor, são o preço. Sair mais cedo de casa também. Se antes demorava 15 minutos de metrô, agora são 45 minutos pedalando. Mas 45 minutos vividos.

Ando lendo sobre algo incrível: “SISU”, uma expressão/filosofia finlandesa. Seria algo semelhante à “resiliência”. Mas não se trata exatamente de “resistência” diante à dificuldade, mas sim “aceitação”. Aceitar que a dificuldade, o sacrifício, a demora, o imprevisto, o fracasso; existem. E mesmo assim, continuar. E mesmo assim querer continuar.

É incrível como o autoconhecimento é um caminho longo. De uma vida. A gente nunca se conhece o bastante. Ou bem. A gente costuma se conhecer muito pouco e errado. Talvez porque mudamos o tempo todo? Ou o que muda é a consciência, e nós continuamos o mesmo? Porque não somos a nossa consciência não. Posso ter a consciência que preciso mudar, e continuar o mesmo. Posso achar isso imponderável hoje, e amanhã estar o fazendo. O direcionamento mudou, não quem o direcionou.

A dificuldade sempre me pega de jeito. Eu creio que isso está ligado à minha imprudência. Esse meu ímpeto sonâmbulo de ir de olhos fechados. E assim, caio. Sempre. Ou quando acordo, não sei direito onde estou, ou porquê estou. Mas isso, como tudo, tem as suas vantagens. Aliás, li exatamente sobre isso pesquisando sobre o SISU. A conduta de “saltar sem olhar para baixo”. Creio ser essa imprudência aquilo que me leva. Quando nem eu sei como ir. Por outro lado, vejo em mim uma imensa incapacidade de lidar com a queda, toda vez que escorrego ou o chão se desmorona. Agora começo a entender que a natureza disso é a minha incapacidade de assumir o todo. Realmente assumir. Com vontade. Pois os buracos, as instabilidades, o cansaço, os tantos sacrifícios; existem. Em tudo. Assim como o lado bom, o qual precisa (deve) compensar.

 

Therein – Dark Tranquility

Longe

Neste semestre tenho dois grandes objetivos: Finalizar e lançar o meu projeto musical e aprimorar o meu inglês para alcançar uma boa nota no IELTS acadêmico, teste de proficiência. Percebi, recentemente, uma conexão forte entre ambos: vertigem. Mais do que isso: sensação de escuro. Bem, preciso explicar-me melhor. Quando estou cantando e ainda não domino a melodia, sinto-me caindo. Entro naquele trecho da música onde não consigo sustentar e a sensação de queda é quase palpável. Sinto-me cair. Ou caminhando no escuro, sem saber onde estou ou o que há em volta. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Das notas. Do percurso. E eu também sinto isso – exatamente isso – falando inglês. Tento dizer, mas encontro um buraco na minha frente, um escuro, onde não ando ou vejo. Não controlo. Perco-me. É desesperador sabe. Não ter controle da voz. Da fala. Daquilo que se quer expressar.

Muitas vezes no meio do ensaio paro, esfrego a mão no rosto e penso: estou tão longe meu deus. Tão longe de lapidar 30 músicas para começar a me apresentar com qualidade. Muitas vezes no meio do estudo paro, afundo-me na cadeira e penso: estou tão longe. Tão longe de falar inglês com domínio. De conseguir entrar numa universidade e apresentar aqueles seminários como a porta-voz do grupo – como eu costumava fazer no Brasil, na minha língua nativa.

Sussurro quase como um mantra: um passo de cada vez, um passo de cada vez. Calma. Calma. É normal quando se está longe de onde se quer chegar, não ver. Na estrada a gente não vê o destino. Mas estamos indo. Aproximando-se. E quanto mais distante o lugar, mais longa a viagem. Não tem jeito. Não tem poção mágica. Mas tem um kit de artefatos essenciais: Autoconfiança, paciência, persistência. Eu, Aline, por exemplo, escrevo quando o cansaço e a tristeza apertam, e eu preciso estacionar um pouco.

 

Hope – John Frusciante