Presságio

Sonhei que chovia, acordei, chovia.
Sonhei que a porta estava aberta, e estava.
Sonhei que minha irmã passava por problemas, e passava.
Especulo que meu inconsciente saiba de coisas que não sei
É só quando durmo, e desconecto de mim, que escuto
Essa minha voz sem voz.
E meus sonhos lúcidos?
Os meus desejos. Vontades. Planos.
Como surgem? O que são?
O que sonho acordada também é presságio? Por isso sonho?
Como desenho meus desejos?
Seria também essa voz cavernosa que me dita? Guia-me?

Fechos os olhos. Acordada.
Sonho.
Deixo-me sonhar.
Hoje entendo que a razão não alcança certas profundidades.

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Fora do Casulo

Chego à 5:45 da manhã no metrô para assinar a lista de músicos. Os “moradores de rua” ainda dormem pela estação vazia. Um deles desperta ligeiramente quando passo, e acena para mim. Já somos conhecidos. Trabalhamos no mesmo lugar. E carregamos a mesma locução adjetiva. Ele, morador de rua. Eu, músico de rua.

Volto para o metrô à 1:00 da tarde para tocar em minha primeira estação. No caminho encontro alguns musicistas com o seu equipamento. Cumprimentamo-nos saudosamente. Não nos conhecemos, mas isso não importa. Somos colegas de trabalho. E isso basta. Enquanto espero o metrô, pessoas usualmente me param dizendo que me viram tocando em alguma estação. “Você é realmente boa”. E já ganhei o meu dia.

Chegando onde vou tocar, o musicista antes de mim guarda o seu equipamento enquanto eu arrumo o meu. Conversamos. Trocamos informações. Desejamos boa sorte. “Bom show”.

Os funcionários do metrô me cumprimentam. Alguns me dão moedas. Outros me assistem enquanto balançam a cabeça e remexem os pés. E passam por mim dizendo: “You’re good, girl”.

Descobri que o melhor horário para tocar é longe da hora do “rush”, onde é possível interação com o público. As pessoas me ouvem melhor, enxergam-me melhor. Sempre há incontáveis histórias; pessoas pedindo para tirar foto comigo, cantar no microfone! As crianças são sempre o melhor do espetáculo. Elas ficam vidradas. A cena mais maravilhosa é quando os pais não tem intenção de dar dinheiro, mas a criança paralisa-se na minha frente. Os pais a chamam, mas ela continua lá, paralisada me vendo. Então o pai/mãe lhe dá uma moeda e ela vai lá toda sorridente colocar na minha case. Isso é ouro.

Ontem um grupo de adolescentes não mais de 15 anos fizeram uma “vaquinha” para me dar dinheiro. Ganhar dinheiro de adolescente já é difícil, de um grupo ainda… Fiquei muito feliz. Ontem também duas pessoas me “interromperam” enquanto cantava só para dizer “você canta muito bem”. Isso vale mais do que tudo.

Costumo chegar numa estação vazia e pensar: não vou fazer uma moeda hoje. E acabo saindo com a case forrada de moedas e, quase sempre, algumas notas. É incrível. Quem está de fora não imagina o quanto que isso pode ser lucrativo. Eu mesma não imaginava, mas é. De todos os sentidos.

Toco 4 horas seguidas, em duas estações. Diariamente. Carregado nas costas equipamento pesado. Amplificador nos braços. Chego em casa no final do dia exausta, com os dedos em carne viva. Mas feliz, genuinamente feliz, com o coração aquecido por tudo que acabei de narrar.

Há um ano e meio cheguei em Montreal aterrorizada. Sem saber direito o que estava fazendo, onde estava me metendo. Senti-a me atirando num penhasco sem saber voar. “Sem saber” era o que eu mais sentia. Em tantos e tantos sentidos. Sem saber francês, com um inglês insignificante. Sem conhecer ninguém. Sem ter onde ficar. Sem diploma. Sem direito válido de trabalho. Trabalhando sem pagamento significativo. Uma avalanche sobre mim.

Mas eu não fique à deriva. Quando a situação é extrema, não há escolha. No fundo do buraco, não dá para cair mais. Eu tinha que redirecionar a minha vida. Eu tinha que me refazer. 2018 foi o casulo. Escuro, incerto, sufocante. O desespero foi grande, mas minha esperança foi maior. Eu sabia que era uma fase. Eu me dizia. Diariamente. Como um mantra. Eu me dizia que todo esforço tem a sua resultante. Por mais lenta que seja.

2019 é a quebra do meu casulo. Abraço Montreal. Voo por Montreal. Leve. Amo Montreal. Amo a minha vida aqui. Nem de longe estou acomodada e com alguma estabilidade. Mas estou em paz. E acredito que isso seja felicidade. Estar em paz. Ainda não falo francês, mas aprendi incontáveis frases e palavras. Ainda não sou fluente em inglês, mas hoje entendo e falo muito melhor. Não tenho uma “carteira assinado”, mas estou sobrevivendo de minha música, trabalhando 4 horas por dia. E com tempo para estudar o que quero estudar, desenvolvendo o que genuinamente quero desenvolver para a minha vida. Estou vivendo em um país estrangeiro há quase dois anos, onde tudo é diferente. Sinto-me me preenchendo de incontáveis maneiras. Sinto-me deliberadamente vivendo a realidade que quero viver. Hoje. Por isso a paz. A compreensão que a vida flui em ciclos. Para grandes transformações, grandes sacrifícios são necessários. E ninguém quer o negativo, só o positivo. Hoje compreendo que essa é uma mistura heterogênea, inseparável.

Uma vez morei em uma casa com uma grande palmeira a qual forrava-se de casulos. Assistia a dificuldade que era para uma lagarta quebrar o casulo e voar. As asas amassadas, a realidade confusa. Costumam primeiro andar, rodopiar, cair, só depois, voar.

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Ser Artista

– 16 meses em Montreal

Pensava que artista de rua era alguém bom demais. Algo meio circense. Uma atração grande o bastante que merecia ser pública, como um monumento. Ainda hoje penso isso. Quando chego na estação de metrô para tocar, e sento-me no chão e começo a montar o meu equipamento; sinto uma certa perplexidade. Não, não é medo, é perplexidade. Como quem não entende o que está acontecendo.

Cantar e tocar bem não significa nada ali, na rua. Você tem que impressionar. É mais do que fazer direito. Na verdade, há dois tipos de pessoas que param e dão dinheiro: O primeiro e mais comum é aquela pessoa que não está dando dinheiro pela habilidade, mas pelo esforço. Às vezes ainda estou montando o equipamento e alguém chega me dando moeda. O segundo tipo, o mais raro, é a pessoa que “paga” porque ficou impressionada. Às vezes a moeda virá acompanhada de elogios, às vezes a pessoa passa, para, dá meia volta e dá moeda (ou notas). Às vezes a pessoa filma, aplaude, conversa. Principalmente quando é jovem, adolescente; só vai dar dinheio se ficou impressionado. E como impressionar? Ainda mais em uma cena tão competitiva como a de Montreal. Os metrôs estão lotados de musicistas, assim como todos os bares, teatros da cidade. É por isso que fico perplexa de estar ali “vendendo” a minha música. A minha capacidade musical. É como se eu me questionasse: sou boa o bastante para isso?

Nunca me apresentei ao vivo. Nunca tive reconhecimento como musicista, seja na internet ou fora dela entre minha família, amigos e conhecidos. Sempre vivi em total anonimato e em total insegurança sobre a minha capacidade musical. Quando posto um vídeo cantando e tocando em minhas redes sociais, usualmente não recebo qualquer retorno. No máximo uma ou duas curtidas. Sinto-me um lixo. Uma amadora. E disso, desta conjuntura, desse desolamento; saltei para as ruas. Pedindo não só para ser aclamada mas também paga. Paga pela minha música. É por isso a perplexidade.

Nessas duas semanas tocando diariamente, uma oscilação de sentimentos me atinge. Às vezes sinto que sou boa. Muito boa. Às vezes sinto que estou ganhando dinheiro por dó – daquele primeiro grupo que só quer dar um voto de confiança. A melhor parte sem dúvida é a interação. Preciso -muito – de dinheiro. Não tô lá por aventura. Mas melhor sim do que voltar com a bolsa cheia de dinheiro, é ouvir: “não tenho nenhuma moeda, desculpa, mas você é incrível”. Ou a pessoa pedir meu cartão. Ou fazer um sinal de joia. Ou parar para filmar ou assistir. São nesses momentos que me sinto artista. E profissional. Sem público, o artista não se valida. Sem dinheiro, o profissional não se valida.

Chego em casa e treino aquele trecho que achei que não ficou tão bom. Tento substituir aquela música que acho que tá fraca. Tento aprender gaita de boca. Faço instrumental improvisado. Se pudesse dava cambalhota. Esculpo um show. Formo-me como artista. Dia-a-dia. Como sempre fiz, mas agora a diferença é: sou. Sou? Sou. Transformo a minha realidade. E a vivo.

 

Mr. Jones – Counting Crows

Primeiro Semana Tocando -diariamente- no Metro de Montreal

5:00 a.m, primeiro despertador. 5:15, 5:30, salto da cama. Pego a roupa embolada na banqueta a minha frente. Lavo o rosto, prendo o cabelo dentro da touca, coloco meus óculos escuros para disfarças a cara amassada. Moletom, jaqueta, luvas. Saio. A partir dai me sinto melhor. A rua vazia, o ainda silêncio, o sol que nem nasceu. Calmaria. Mas já é tarde para reservar um bom horário em uma boa estação. Os músicos “de rua” são os mais disciplinados. Trabalham pesado. Ouvi dizer que 4:30 começa a fila de músicos nas principais estações. Funciona assim: há lugares específicos onde se pode tocar dentro do metrô, sinalizados por uma placa. O primeiro músico que chegar no lugar cria uma lista de horários e escolhe o que lhe for mais conveniente. Assim todos querem ser o primeiro para conseguir as melhores estações no melhor horário.  E fazer dinheiro.

É a minha primeira semana, não tenho grandes pretensões.  Na verdade, a minha única pretensão é ver se sou capaz. Capaz de tocar e cantar um repertório de duas horas. No meio de uma multidão. De pé. Tremendo, horas de nervoso outras de frio. Estamos o ápice do inverno canadense. Mesmo dentro do metro é congelante. Mas isso acaba sendo só um pequeno detalhe.

No meu primeiro dia fiz uma confusão danada com a lista, perdi a minha “vaga”. Por sorte havia outra saída com outro espaço para se tocar, disponível, pois o frio lá era demasiado. Não pensei duas vezes. Há um ano estou me preparando para esse dia. E lá estava finalmente eu: carregando todo aquele peso, literalmente e figuradamente. Pronta. Pronta? Eu precisava descobrir. Sem pensar duas vezes comecei a montar o meu “palco” naquele canto, com fumaça saindo de minha boca, assim como o coração.

É engraçado a sensação de tocar “para ninguém”. Não importa a estação ou o horário, há momentos que uma multidão passa diante de você e há momentos que só há você e um corredor vazio. Eu já esperava a sensação de invisibilidade também. A cada 20, 30 pessoas, uma vai dar moeda. A maioria não vai olhar. Você torna-se parte do cenário. Há sempre alguém tocando pelos corredores das estações de metrô de Montreal.  Você, músico, é parte daquilo. Além do costume, há a pressa. Estação de metrô é o lugar menos suscetível para querer chamar atenção. Todo mundo está com pressa. Vindo e indo. Correndo através do dia. Ninguém quer parar. Ninguém tem tempo para apreciar. O maior desafio é quebrar isso. É fazer alguém parar. É impressionar a pessoa ao ponto que ela se sinta no dever de desacelerar, procurar algum trocado e te dar. Tocar na rua é mais que tocar um instrumento, é tocar pessoas.

Na minha primeira semana eu não tive grande disciplina de chegar cedo o bastante e assim conseguir bons horários em boas estações. Acabei quase sempre tocando à noite, em corredores bem vazios, recebendo esparsas moedas, sentindo-me desolada a maior parte do tempo. Quase diariamente alguém apareceu interagindo, aplaudindo, filmando, conversando, elogiando. Isso é ouro. Isso faz compensar tudo. Na verdade, tocar “na rua” é um extremismo. Há uma dificuldade imensa e uma gratificação imensa. Há uma discriminação imensa e um reconhecimento imenso. Agora, falando de dinheiro, em 6 dias tocando menos que 2h por dia, em horários ruins, em estações vazias, entre trancos e barrancos; fiz 160 dólares. Eu jamais imaginava isso. É muito de grão em grão. Fui colando as moedas no saquinho e quando dei por mim o saquinho já estava estourando. Antes de contar pensei: deve ter uns 50 dólares aqui. Tinha o triplo.

Nessa semana começo a tocar 2x. Visando dobrar esse ganho. Essa experiência.

Esse é um dos momentos mais significantes da minha vida. Eu me agarrei tanto a isso. Eu supliquei tanto por isso. Não é só tocar na rua, não é uma aventura, não é só o dinheiro. É uma porta aberta. É um êxito. É uma coisa boa. Depois de tanta perda e restrição. Eu não sei exatamente como vim parar aqui e nem para onde isso vai dar. E não importa. Isso me encheu de esperanças. Na vida. Em mim. Na música. Na transformação. Eu decidi estender a minha estadia em Montreal porque eu precisava transformar isso tudo. Não foi de um dia para a noite. Desde que cheguei aqui trabalho em ima desse projeto de me apresentar como musicista solo. E isso é o mais importante. Foi uma resultante, uma persistência. Resistência. Quanta reprovação eu ouvi. Quanto questionamento a respeito das minhas altas e ousadas expectativas. E as críticas mais árduas vieram de mim.  Na maior parte do tempo oscilei entre gigantesco otimismo e medo.

É só a primeira semana, mas isso já justificou tudo. É um triunfo. É uma nova etapa.

Bitter Sweet Symphony – The Verve

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Barro em minhas mãos

-15 meses em Montreal

A primeira e única vez que fui à uma cartomante foi antes de vir para cá. Sempre tirei tarô para mim mesma, mas eu já não podia mais confiar na minha própria percepção. Eu já não pensava. Pois se pensasse, não faria. Não viria. E no meio de tamanha confusão, e sem poder contar com a razão: fui para a cartomante.

Você vai ficar um bom tempo lá, não?! Prontamente ela me disse. Não, só 6 meses ou no máximo um ano. Respondi. Não, não, você vai ficar mais! Ela afirmou. Sem hesitar.

Faz uma semana que estou trancada dentro de casa. Em fevereiro oficialmente deixei o meu trabalho. Como o planejado. Não atendo mais idosos diariamente nem dou aula de pintura. Decidi continuar aqui por causa da minha música. Apenas. Cheguei aqui com essa vontade. Mas era só uma vontade. Assim, dispersa como os desejos costumam ser. Vou aproveitar que estou lá e tocar na rua. Assim, por conveniência. Não sei como isso mudou. Não consigo me lembrar como ou quando isso deixou de ser uma vontade e tornou-se a razão. Talvez, isso tenha sido a única coisa em que eu consegui me agarrar. No meio de tanta solidão, hostilidade, impossibilidade. Foi a minha defesa, foi a minha sanidade, a minha resistência. O meu chão. Não sei. Mas quando vi, já não era conveniência, era urgência. Era tudo.

Ao ver que um ano já tinha se passado e eu ainda não tinha começado a tocar, sem hesitar disse: preciso ficar. Muito mais do que uma obsessão: é um resgate. Eu precisava meu deus, como eu precisava, resinificar tudo isso. Eu não poderia ir embora daqui tão derrotada, tão machucada. Não podia. Sem hesitar, sem ponderar, eu disse: vou ficar. Vou tentar. Preciso.

Começo a tocar no metrô segunda-feira dia 11 de fevereiro de 2019. Por isso a semana trancada. Entre ensaios, dedos descamados, choros, euforias, completude. Principalmente completude. O que estou fazendo. Para onde estou indo. O que quero. Contei os dias e vi que tenho menos de 5 meses aqui agora. Mais de um mês já se passou. E eu estou totalmente bem em relação a isso. Como nunca antes estive. Aqui. Pois sinto aquela sensação indizível de estar fazendo a coisa certa.

Comecei também a abraçar o futuro, assim: sentindo-o. Como barro em minhas mãos: matéria prima. O futuro já existe: ele é o presente se escorrendo. Indo-se. Formando-se. A gente tem que palpar isso. Modelar isso. Comecei a fazer planos. Liguei para a minha irmã. Vamos juntas para Portugal final de agosto! Eu passo um mês com você lá, toco nas ruas de Lisboa, tento fazer dinheiro para me mudar para a Escócia. Antes eu tinha medo de dizer isso: Escócia. “Eu vou para a Escócia”. Parecia quase uma mentira. Agora já começo a dizer alto, bem alto para que a vida escute: “Eu vou me mudar para a Escócia, para Edinburgh!”. Começo a abraçar isso. Sentir isso. Enchendo-me de esperança. Será um novo tempo, melhor, mais calmo, mais verídico. Um tempo que se desdobra após Montreal: a ponte.

Eu não sei ainda se vou conseguir ganhar a vida tocando, como quero. Mas se não for hoje, vai ser amanhã, ou depois, ou na semana que vem, ou em breve. O que sei é que não há oportunidade melhor de aprimoramento do que tocar todos os dias ao vivo no meio de uma multidão. Sinto-me enfim preparada. E grata por estar aqui, por poder fazer isso. Ser isso. No meio de todo o meu devaneio e confusão, algo sempre foi cristalino: Montreal seria a ponte. Entre tudo.

We’ll let you Know – Morrissey

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Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

– Fernando Pessoa

Você me perde

Quando eu te digo: estou lendo um livro
E você pergunta o nome. Eu digo.
Você muda de assunto.
Eu volto: Então, o livro é sobre…
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando a gente assiste um filme
Eu te pergunto: O que você achou?
Você diz: Legal.
Eu começo a comentar qualquer cena
Você muda de assunto.
Eu volto: Mas você não acha que..
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando eu te mostro algo que tô fazendo
E você diz: Legal.
E eu sinto que tá péssimo.
Ou quando você não comenta nada
Em pouco tempo eu desisto de perguntar
Porque você não se importa
E pouco a pouco vou deixando de me importar
Comigo. Contigo. Conosco.
Você não quer uma conexão. Quer atenção.
Eu sou platéia
Quieta. Contemplativa.
Já me esqueci
Porque primeiro a gente desiste de si
Perde-se.
Só depois, é que desistimos do outro
Só depois do depois.
Quando a gente se lembra.

You don’t need me

You need the attention I give you
The way I make you feel special
Like a king.
You don’t need me
You need someone adoring you
Desiring you
Lighting you
You need me when I am shining
But I, my dear, I am dark. I am deep.
You don’t even know how to swim
You like the lightness of my superficiality
All that I am not.
I am heavy. I am hard. I am black.
You don’t need me.
You don’t even like me.
You like my silly smile, my bright eyes
The shape of my nose and butt
My Surface.
My cover.
My pages, you will not read.
It’s too big. It’s too much.
That’s why I know
You don’t need me
You don’t even like me.
You should know.

Palco

Compro dois pacotes de luzes pisca-pisca
Para criar um cenário
Onde eu possa atuar
E esquecer de toda a insegurança que sou
Um pacote de luzes para colocar em volta do microfone
Outro em volta de uma tela cuidadosamente pintada à mão:
I’m Aline Castanhari, thank you for supporting
Forro a case do violão com um veludo roxo, assim em chamativo
Imprimo cartões de visita, assim bem profissional.
Soa poético e patético esse contraste. Todo esse luxo sob um chão frio.
Investi caro. Gastei o dinheiro que tinha e que não tinha.
Amplificador portátil de qualidade. Microfone especial.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e tudo isso ser bem acessível.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e poder ser artista de rua.
Poder é ser? Posso? Sou ?
Precisa acreditar que sim.
Por isso monto um cenário, visto um personagem: Musicista profissional.
Vendo-me.
Porque a minha música sou eu.
E eu demorei para entender isso. Pra fazer isso.
Hoje entendi: preciso desesperadamente fazer isso. Ser isso.
E já que nem sou artista e nem tenho palco
Vou pra rua. Forjando o meu próprio espetáculo.
Até ser.

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(in)Felicidade

– 31 de dezembro de 2018, Montreal, Canadá

Magda me liga. Quer saber se irei à sua casa nesta semana. Digo que estou doente. Infeção bacteriana. Tomando antibióticos. É contagioso. Ela não me entende. Repito. Mas ela continua sem entender o meu inglês. Não sei se é porque ela é húngara ou se é porque eu sou brasileira. Ou ambas as coisas. No final ela entende mais ou menos que estou doente e não pretendo voltar a trabalhar nessa semana.

Vou à internet. Procuro a pronúncia de todas as palavras que disse. Tentando entender o que disse errado. “Antibiotic”. Confundi os sons dos i. Ou talvez a forma que ainda pronuncio o som do t. Fico triste. Depois rio. De tudo. Pensando como algo tão pequeno pode me deixar triste. Pensando em como algo tão simples como explicar que estou doente pode se tornar tão complexo. Aqui.

Sonhei que meu pedido de renovação de visto tinha sido aprovado. E assim, ficarei por mais 6 meses aqui. Nesse exato momento, dependo dessa resposta para continuar. Aqui. Aqui onde nunca imaginei que permaneceria por tanto tempo. Como a gente se adapta não? Parece que foi ontem que cheguei aqui, desesperada para ir embora. E já hoje, acordei ao meio-dia. Fiz café. Arrumei a casa. Tô saindo agora para ir no mercado. É feriado. Quero descansar. Em casa.

Eu estava discutindo “felicidade” com um amigo logo hoje. Divaguei bastante e acabei só caindo em contradição. Sabe, cada vez mais desacredito nas palavras. Nas ordenações. Nos sentidos. Tento fazer o contrário. Distanciar-me do que penso, sinto, vejo. Sair de mim para enxergar. Meditar é isso? Não sei. Mas é bom. Gosto de sentir essa sensação de “insignificância”. Assim, posso ressignificar. Porque todos os dias, tudo muda. Você não acha? Eu quero achar. Achar que não sou mais a mesma. E esse ano é uma casca que abandono. Uma pele apertada que perco. Convicções que não me servem mais.

Nunca tive que me curvar como me curvo agora diante ao tempo. O tempo de cada dia. Seja para dominar um idioma, para me aprimorar como musicista, para retomar o meu amado bacharelado em psicologia que parei quando vim para cá. Para conseguir um salário digno fazendo o que amo. São tantas sequelas, mas tantas, que durante a maior parte desse ano, pirei. Pirei tentando ser maior que o Tempo.

Nessa virada de ano, ainda estou assim, buscando, esperando. Caindo e levantando. Chorando e depois rindo, achando-me patética, quando distancio de mim e me vejo de longe. Depois volto e me abraço. E faço café. Enquanto espero a água ferver, treino a pronúncia de “antib-ai-otic” ou qualquer outra coisa que errei.

Mais do que nunca, não sei de muita coisa não, mais sei que essa vontade de ser melhor, fazer melhor, viver melhor, vai nos levar adiante. O resto a gente ri, como ri de alguém que levou um tombo engraçado.

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2018

Quero escerver sobre 2018. Mas não sei como. Semanalmente escrevo sobre Montreal e minhas experiências aqui. Analisar os pedaços é sempre mais fácil que o todo. Se paro para pensar o que esse ano foi, fico zonza. Não consigo sintetizar. Talvez porque ainda não entendi. E nem sei se vou entender. Então, vou fazer o que faço de melhor: contar histórias. A primeira é quando eu tinha 18 anos ou algo assim, e trabalhava de garçonete em um bar famoso de Araraquara. Eu tinha acabado de voltar de Madrid. E estava naquele momento entre pontos. Tentando traçar algo. O melhor e o pior de trabalhar em bar é conhecer gente. Ouvir gente. Em uma dessas noites de interação com a clientela, conheci um cara que também tinha acabado de voltar de uma experiencia no exterior. E contando-me sobre isso, ele começou a chorar. Aquilo me marcou tanto, mas tanto. Ele não estava contando nada triste, foi aquela emoção genuína, incontida, algo que de tão grande não cabe dentro, e transborda. Vire e mexe lembro-me dessa cena. Se eu fosse resumir esse ano, faria isso. Choraria, não de tristeza, mas de emoção derramada. Porque meu deus, não cabe no peito isso não, não cabe em palavras. É demais.

Outra história é a dessa foto. Num dia de nevasca forte quando meu dinheiro acabou e eu estava sem bilhete de metrô, então precisei ir trabalhar de bicicleta, à noite. Não existe nada como atravessar a neve em duas rodas. Aquele véu branco em torno de todo o seu corpo. A nitidez dos flocos caindo. É lindo. E eu estava assim quando me perdi e caí nessa rua da foto, deparando-me com essa imagem que mais parecia um quadro. E eu tive aquela sensação única. Não, não é exatamente gratidão. É mais do que isso. É a sensação de encontrar o que não se procura. E sempre estamos desesperados em busca de algo. Ansiosos, preocupados. Mas a vida acontece ali: na procura, no percurso. No instante. Por isso que não vou sintetizar esse ano como algo único, palpável, compreensível. É o contrário disso. São pedaços e pedaços. Histórias e histórias. Instantes e instantes. Transbordando.

Mais do que nunca sei, ainda sou aquela menina entre pontos, tentando traçar algo, tentando unir os pedaços. Diariamente.

23-12-2018

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