Não existe fuga em SP

Havia meses que não o lavava. Os tapetes estavam cheios de barro; barro da última vez que estive em Araraquara escondida em suas florestas. Ontem quando fui ensaiar, pisei num punhado de areia e agora esta estava espalhada por todo o carro. Decidi então lavá-lo; mas leviana que sou, decidi fazer isso em pleno dia de Parada Gay, sem me dar conta disso. Deixei o carro no meado da tarde e quando fui buscá-lo já no fim da mesma, este maldito centro estava totalmente parado. Havia um congestionamento sem fim, fora toda aquela multidão na calçada; aquilo me era o retrato do inferno, ou mesmo, o próprio inferno. Demorei 30 min para conseguir avançar um único quarteirão. Quando cheguei na esquina, olhei para baixo aonde deveria seguir para chegar em minha casa, e o trânsito apenas se tornava pior. Não pensei duas vezes e segui na direção contrária, sem saber direito o que estava fazendo ou pretendendo. Peguei de súbito um viaduto que me levaria ao extremo oeste da cidade. Mesmo sem ter ideia alguma de aonde afinal iria, estava mais calma, já conseguia andar em segunda marcha. Procurando me orientar, vejo uma placa: “Ibirapuera”. Pronto, iria para o Parque Ibirapuera, ar puro e distância era tudo o que precisava. Cheguei nas proximidades do Parque e me deparo com uma fila imensa de carros e me ponho a rir. Se tinha alguma única certeza, esta era que um Parque, numa noite fria de domingo , estaria vazio; mas não, estava enganada. Nada nunca está vazio em São Paulo.

Descubro que está acontecendo um show de jazz ali. Bem, isto me soou muito bem, se não fosse todas aquelas pessoas, isso me soaria esplendidamente bem. Com sorte arrumei um lugar para estacionar; pago é claro. E me dirigi ao nada calmo Parque. Me aproximei do palco aonde estava a banda. Aquilo parecia um Woodstock, era gente que não acabava mais ali e aquilo me deixou completamente zonza. Não aguentava mais aquele cenário; pessoas , pessoas e mais pessoas. Senti vontade de sair correndo, deixar meu carro, o trânsito, minha casa, apenas sair correndo em direção alguma. Já não constava que acharia paz, mas acreditava que se muito correr acabaria caindo de cansaço e aquilo me deteria. Dei meia volta e me pus a procurar qualquer lugar longe daquela multidão, vi o lago a alguns quilômetros dali. Me dirige para lá. Estava bem escuro, a única luminosidade era as luzes das ruas que circundavam o Parque. Me sentei debaixo de uma árvore e fiquei lá, não tenho noção de quanto tempo. A cena era curiosa. Me deparava com um imenso lago e logo atrás uma imensa rodovia, aonde carros initerruptamente passavam, como se aquilo fizesse tão parte da paisagem quanto aquele lago. Este momento me fez imensamente bem, aquele tímido silêncio, quebrado apenas pelo choro de um sax, que vinha de longe, meio disfarçado de vento. Observar um lago me hipnotiza sempre, é como se eu pudesse absorver aquela constância, aquela serenidade tão a parte de mim. É como se eu me comungasse, dando todo meu torpor em troca de qualquer calmaria. Me senti acolhida ali, como se algum sentimento materno me confortasse. E quando estava suficientemente perdida entre meus pensamentos, percebo que uma pessoa se encontra parada ao meu lado. Dou um salto, de súbito levanto e vejo um cara que prontamente me diz: ” Desculpe me, mas te ver me deu muito tesão”. Eu me ponho a rir por dentro. Me viro e saio andando, sem olhar para trás. E ele ainda grita: “Você não pode nem me chupar?”.

Chego até o carro, me sento, pego a chave e sem me dar conta do que iria fazer, grito. Mas ninguém me ouviu; havia os carros, o sax e multidões por todos os lados….

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