2009

Mas do que amizade, necessidade ou conveniência, o que nos ligava era a soma de nossos medos e desejos. Estávamos na mesma circunstância em diferentes situações e morando debaixo do mesmo teto. E a primeira cena que me vem a mente quando penso em nós, é “Mad World” de Gary Jules ecoando repetitivamente pelos três cômodos daquela casa. Estávamos espalhados por ela e a cada vez que a música terminava, um de nós a colocava para recomeçar. Não havia diálogo, naquele momento estávamos longe, perdidos dentro de nós.

Sair de casa, fugir do interior e ir para a capital carregando os mais diversos motivos; chegar numa cidade gigantesca e desconhecida onde tudo é muito. Procurar um emprego, qualquer emprego; um teto, qualquer teto; um alguém, qualquer alguém. Qualquer coisa serve quando a necessidade é muita. São Paulo é uma perfeita analogia do que a vida é, ou pode ser.

Éramos quatro.

Mirtene. Eu nunca mais a vi, seu olhar vago e profundo, como se estivesse cravado no fundo de algum oceano no qual se afundou. Seus cabelos coloridos, seu sorriso ingênuo. Nunca vi maldade nela. Seus erros eram os erros que uma criança comete pelo instinto da necessidade. E ela me comovia, e me repugnava.

Fabrício. Também nunca mais o vi. Confesso que até hoje sinto falta de sua voz alta e debochada pela casa, daquele riso comprido, daquela convicção desesperada. Ele é uma daquelas pessoas que você pode não gostar, mas não pode evitar de admirar.

E ela… É difícil falar dela. Ela estava lá por minha causa. Eu a levei para aquele lugar, para aquela São Paulo. E com a mesma intensidade que a finquei em minha vida eu a expeli. Ela não é uma pessoa fácil de se lidar, longe disso. Com sua exacerbada impetuosidade, sua crucial espontaneidade e toda sua fragilidade controlada por toda sua agressividade. E eu posso ser tudo, menos uma pessoa fácil de se lidar. Formávamos uma bomba, e nos destruir era inevitável.

Mas à parte de qualquer coisa, eu nunca consegui a manter longe de mim. Depois de um tempo consegui perceber que perante toda a dificuldade e atrocidade desta vida, as nossas divergências e indiferenças eram insignificantes. Nossas mágoas se tornaram pequenas o bastante entre a imensidão de tantas outras mágoas. E depois de um tempo, eu já não precisava mais de qualquer alguém, eu precisava dela.

E acima de tudo não somos mais as mesmas. Éramos duas adolescentes em busca de aventura. Hoje, somos duas mulheres em busca de sobrevivência, entre tantas outras coisas Porque sabemos que isso não é o suficiente; sobreviver não é o suficiente. São Paulo nos ensinou isso.

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