Borboletas de ouro

Lembrei-me de que quando aluguei o meu apartamento fora a mesma coisa. Passei dias aos prantos. Não conseguia parar de soluçar um segundo se quer… Como hoje.

Hoje comprei o meu carro. Quer dizer, minha mãe o comprou para mim. E não há sentimento que conheça pior do que este; esta mescla de vergonha, repulsa, agonia, martirizarão… Hesitei muito nas horas que antecederam a comprar; quis abandonar a idéia, esperar até conseguir um trabalho e poder comprar o carro da maneira correta. Quis também fazer um empréstimo, mas este apenas seria uma hipocrisia. Não teria afinal o dinheiro para pagar o parcelamento, e teria que usar o mesmo artifício; recorrer ao dinheiro de minha mãe. Depois deste turbilhão de ideias, prontamente decidi não pegar o carro. Estava quase na garagem quando dei meia volta. No caminho para casa parei, sentei, e cobrindo o rosto me achei ignorante e estúpida. Pus a pensar o tamanho privilégio que tinha em ter uma mãe que podia me ajudar, sem se lesionar de nenhuma maneira por isso. Quantas milhares de pessoas sonhariam em estar no meu lugar, tendo a chance de ter um carro. E eu estava lá, com os olhos inchados de tanto chorar, me sentindo a pior pessoa da face da terra…

Não fora eu que em momento algum pedi um carro para minha mãe; como também não pedi o apartamento. Ela se sente no dever de me ajudar financeiramente e nunca me cobrou nada. É claro que me sinto agradecida pela mãe que possuo, por estar sempre extremamente preocupada comigo e nunca medir esforço para me ajudar, sem que eu precise se quer pedir ajuda. Mas não acho certo, e nem digno. Tenho 23 anos, não é dever dela me sustentar. Para mim, receber ajuda financeira dela é como receber uma espécie de forca em meu pescoço que me rouba o ar. É irônico, era para eu estar feliz por estar ganhando algo, e me desespero, me sentindo roubada.

Por fim, me levantei e decidi que iria “aceitar” o carro. Não era um carro caro, mas qualquer coisa que não possa pagar, me é caro. Não só por comodismo, quiçá por saídas à noite ou qualquer outra superficialidade, mas ter um carro em São Paulo me facilita demasiadamente meus estudos. Gastaria um tempo muito preciso andando de transporte público. E o que mais me preocupa é quando começar a trabalhar… Mas tudo isso na verdade é uma grande e desgraxada desculpa; uma desculpa que nem de longe me convence que realmente precise deste carro… É um capricho, um luxo que tenho o luxo de ter. Mas há um preço por isso, um preço mais caro que dinheiro. E por mais que tente, ainda estou a me atordoar, se este preço que estou a pagar realmente vale.

We’ll all laugh at gilded butterflies – Shaksepeare

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