Dois Meses

Após sair do hospital, uma amiga me narrou um episódio de “House”, em que este diz que quase morrer não mudar nada. No momento da perda sobrevalorizamos a vida, mas quando este se vai, a vida se torna o que sempre foi, e nós, o que sempre fomos.

Hoje estou voltando para minha casa. Às vezes me parece que anos se passaram desde que sai de lá. Outras vezes, sinto como se fosse ontem que descia aquelas escadas com a mala numa mão e a chave do carro na outra. E a última coisa que poderia me passar pela cabeça é que aquele poderia ser o meu último dia. Creio que a nossa maior dádiva e maldição é a alienação de que hoje possa ser o nosso último dia.

Faz dois meses que se sucedeu o acidente. Faz um mês que deixei o hospital e hoje, estou deixando Araraquara e voltando para minha casa. Não sei se concordo com House, se existe ou não alguma crucial mudança que nos afeta numa experiência de quase morte. E se esta permanece ou se vai com o mesmo presságio que veio. Apenas, sei que dizer “estou voltando para minha casa” me enche os olhos de lágrimas.

Eu sempre fui alguém extremamente à flor da pele, hoje, me encontro ainda mais. Emociono-me muito facilmente e me despedaço com a mesma facilidade. Nada me significa muito, e muito me significa nada. Qualquer coisa me tem um peso infindo. E isso afinal é lógica. Aonde há muito sentimento, há muita dor, aonde há muita dor, há calejamento. Às vezes, nitidamente me transparece que, juntamente com esta exacerbação, minhas qualidades e defeitos foram acarretados. E se torna difícil distinguir o que soma e o que subtrai.

E afinal não, não concordo com House. Todos os dias quando acordo, penso no dia que terei, e sinto o peso da liberdade. Às vezes como ouro, outras como chumbo. E talvez a maior alquimia da vida seja a percepção de nosso livre arbítrio. Estamos suspensos há fatalidade e vontades. Existe a entrega e existe a luta. E o fim da vida não me significa nada quando penso nas tantas pessoas que vivem mais mortas do que um cadáver.

Subitamente me vem a cabeça Mario de Andrade: ”…Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.”

Não gosto muito de viver e isso não mudou com a quase perda desta vida. O que mudou foi uma desesperada vontade de fazer esta vida valer a pena. E fazer “valer a pena” nada me tem haver com festas, roupa bonita e vodka barata, auto afirmação e confete sofre a realidade. Eu quero essência e não aparência. Eu quero meus ideais. Minha verdade. Minha poesia. Eu quero sentir o vento batendo no resto, e sentir que por este vento, estar vivo já valeu a pena.

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