XVI A Torre

Há uma grave sequela no meu processo de racionalizar; não sei distinguis os meus problemas de meus delírios. E isto é algo desesperador; precisar concertar algo, mas não saber aonde este “algo” se encontra.

O embasamento disso está no meu questionamento demasiado de tudo; de minhas sensações, meus medos, desejos, temores, convicções; tudo isso eu costumo pegar e jogar num processador chamado cérebro, no qual tritura cada coisa; às vezes as despedaçando, noutras, as desfazendo. Então já não sei mais o que é o quê. Quiçá, qual é a matéria de sua constituição. E toda esta artimanha já se tornara inconsciente. Minha mente controla meu cérebro, e meu cérebro controla o meu eu. Isto não me parece certo; ser controlada por um órgão…

Na maior parte do tempo, tenho certeza que meu problema seja a falta de problemas. Por isso crio as mais atrozes guerras dentro de mim, os mais dolorosos conflitos, os mais sangrentos cortes… Uma mente sempre precisa ocupar o vazio, seja com concretude ou com deslumbre. E o que necessito é conseguir distinguir ambas as coisas.

Acho um pouco engraçado, um pouco triste; outrora, meus delitos foram meus impulsos. Hoje, eles são os meus raciocínios. Errantes, perturbados, perdidos… “Acender uma luz é criar uma sombra”. Talvez o meu deletério seja querer enxergar por distintos ângulos, num só tempo.

Minha tentativa de me achar foi o meu veredicto de me perder. E o que me atormenta é não saber se os obstáculos existem porque as coisas estão erradas, ou ao contrário; se eles estão ali, porque sempre vão estar, e o que preciso é apenas encher o pulmão e passar por eles.

Num momento eu estou sentada no meio de uma clareira cercada de escuros caminhos. Estou assustada, muito assustada, sem saber ao certo o que fazer. E me sinto imobilizada aqui, perdendo tempo e sanidade.

Alguns caminhos errados são imprescindíveis para nos levar ao caminho certo. O que me atormenta é saber que o caminho certo e o errado não existem. É tudo uma definição de minha mente; de minha caótica mente. Vejo que gasto muito de mim procurando minha pré-convicção de certo ou errado, quando deferia estar procurando minha sutil sensação de paz. Pois sem esta, não há nada.

Posso possuir incontáveis dúvidas e miseras convicções, mas em uma piamente me oriento; construir algo de novo requer muito; precisamos primeiramente preparar o terreno e esta talvez seja a parte mais difícil, pois é o começo. Às vezes, é preciso destruir o velho, derrubar construções inúteis que estão apenas ocupando espaço ou derrubar muralhas para criar passagens; noutras, é preciso carpir, remover pedras, cortar grandes toras, montar pilares… Qualquer grande mudança é uma espécie de morte; acarreta destruição, caos, perda, dor… Como seres humanos, possuímos idealizações, e este é o problema, essa visão exacerbada do futuro; estamos muitos preocupados nos resultados e nos esquecemos dos esforços – e sacrifícios – que nos levam a estes.

As coisas não ficarão bem logo. E nem deverão ficar. Com a intensidade que algo levanta é a intensidade que algo desaba. É preciso ter estrutura, solidez; cavar os mais fundos buracos para se fincar os mais altos pilares… Não, este caos não sumirá tão cedo. Nem a minha vontade de ultrapassá-lo

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