Caixeiro-viajante

O quarto envolto pelo aroma de cravo do incenso, sua fumava brincando de rabiscar o ar, e uma canção tão linda de Domeniconi, que transformava aquele lugar em um outro qualquer lugar. Em uma outra qualquer dimensão. Não mais terrestre. Ela se despejava entre os sentidos, em pedaços, em laços, com um livro de Amado em mãos; havia um trecho tão bonito: “ o vento balançava os dois coqueiros do quintal. Os suspiros de amor iam com o vento, até a lua, quem sabe?”. Neste momento um gritar de coruja lhe desviou a atenção, a imagem do céu lhe veio à mente, pensou no céu que acabara de ver ao fechar a janela; as estrelas pareciam presas em veludo, o brilho era tanto, que difícil seria contar as esferas e distinguir o que era pontiagudo e o que era céu. O que mais a fascinava era a lembrança do céu de outrora; como odiava fechar-abrir as janelas em São Paulo, aquela vista era um asco, nunca sabia quê aberração iria encontrar; mendigos revirando lixos, jovens caídos pelo chão, crianças com suas infâncias adulteradas… Céu? Não havia espaço para céu ali. Então, aquela vista atual lhe era uma dádiva. Perdida em pensamentos, se lembrou de projetos do passado, de objetivos do presente, de sonhos do futuro; tentou formar um mosaico com os três, mas às vezes, seus cacos se liquidificam em borrões. Naquela noite, ela não possuía muitas certezas e colecionava tantas dúvidas, mas isso, já não fazia cócegas. Outra coruja gritou – ou seria a mesma? – ela soltou um riso abafado e voltou a ler.

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