Mar nos olhos

Meu amor pelo mar sempre me fez permanecer ali em suas margens. Plantada em sua orla, à vezes como árvore, noutras como rocha. E minhas raízes foram inundadas. E minhas pontas desgastadas. Mas o amor é egoísta e eu roubei um pouco do oceano para mim. Talvez, fora uma maneira de suportar e aceitar que de onde vem a brisa, também vem a tempestade. Então. fiz isso com o meu mar; o prendi dentro de mim. Quase sem querer, quase sem perceber; subitamente, como as marcas que as grandes mudanças precedem. E hoje, tenho assim os olhos, feitos de água e sal, e a alma, feita de onda e maremoto. A maré naturalmente sobe e transborda em forma de indizível emoção, induzida por tanta memória que já não me cabe. Pensamentos em forma de lembranças, discernimentos, avaliações. Entendimentos que trazem intermináveis questionamentos, incansáveis sonhos, infinito cansaço… A impetuosa busca pela paz.

Não é fácil trazer o mar dentro de si e viver na terra. É preciso se deixar inundar, aprendendo a desprender as raízes e nadar para a superfície. Respirar. É preciso deixar a água bater e não se corroer, mas se esculpir. Transformar. O sal que cura feridas, os espinhos que formam pérolas, as promessas dos horizontes… Este mar é uma dádiva e uma maldição. Uma continuação. Um término. Um todo. Então, fiz isso com o meu mar; o prendi dentro de mim.

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