Um erro na vida, não uma vida de erros

Quando comecei a trabalhar na Galeria do Rock, isso em 2009, adquiri um relógio despertador, daqueles antigos de ponteiro, customizado. O comprei pois seu alarme é uma alta risada de caveira, algo assim bem escandaloso, na medida do que preciso para conseguir acordar de manhã. Desde então, este sempre permaneceu no meu quarto. Até há poucos meses, quando o barulho de seus segundos se tornara ensurdecedor .

Meu professor de redação expôs ontem em aula que o termo “consciência” não deve ser usado como proposta de solução, pois a consciência não surge por si só, mas sim é induzida. Há cerca de um ano, uma nova consciência de minha vida não só surgiu, mas desabou em cima de mim, soterrando-me. Foi um desmoronamento, mas não daqueles causados por fenômenos naturais, mas daqueles causados pela displicência em relação à depreciação. Negligências perante trincas, podridão, pilares de papel machê.Quando dei por mim, já estava em destroços, tentando desesperadamente me juntar.

Penso que tenha sido o acidente o sujeito que induzira tal ação. É tão demasiadamente humano ter que perder para conseguir perceber. Por isso esta outra visão, esta afinca revolta com o que era – e ainda sou. Porque é uma nova consciência num velho corpo. É um processo tão lento quanto letal. Até hoje, olho para míseros meses atrás e são tantos erros, tantas imprudências, inconsequências… Tantas distorções. E isso volta a me soterrar. O martírio; a vontade desesperada de voltar, de ter feito tudo tão diferente; o inútil lamento. E já que não se pode voltar, me resta esta irresoluta vontade de fazer tudo tão diferente. O difícil é conseguir assimilar a lentidão dos resultados com o desespero dos movimentos. Sinto me beirando um campo aberto e um cemitério. Sinto-me vazia e deteriorada. E exausta.

Dizer que um erro é um aprendizado, talvez, seja o mesmo que dizer que conscientização gere transformação. Erros sozinhos não passam de erros e continuaram assim sendo se não os agarrarmos e os concertamos. E há uma história de que não se pode mudar o que já passou, mas o passado é a base do presente. O caminho que se percorre surgiu da estrada que se percorreu. Mudar o presente é redirecionar o passado e recriar o futuro. A mera consciência de um erro é um grito que em poucos segundos se dissolverá no ar. Calando-se. Esquecendo-se. A teoria não se sustenta sem a prática, nem a vontade sem a ação. É preciso de atitude; mudar de caminho, perder-se, sentar e explorar um mapa, pedir ajuda, ajudar-se. Só que enfrentar estes dragões internos não é tão heroico e desbravador como no papel. É degradante, é calejador, é atroz. Por isso, é mais fácil – e mais natural – o autoconvencimento através de positivas e ocas promessas de um futuro melhor. Uma eterna espera, uma imutável desculpa. (Todos os meus sonhos não passavam de um véu sobre os meus olhos.)

Um erro na vida não precisa ser uma vida de erros, mas uma vida de erros costuma ser formada por sutilidades – ignoradas sutilidades. Como o vazar de pequenas gotas, silenciosas e irrelevantes, até que inundem a casa. Como o som do ponteiro de um velho relógio, que já não se ouve ou percebe, mas que não para nunca.

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