Muralhas não surgem

A memória nos prega peças. Isso porque ela é ineficiente. Gasta. Sua falta de exatidão nos faz perder a proporção do passado, o menosprezando ou o exaltando. Eu não me lembrava ao certo o quão penoso era trabalhar como bartender. Às vezes, no meio da noite, tenho vontade de sair por aquela porta onde os clientes estão chegando. Sou miúda, passaria despercebida. Aquele povo bebê muito mesmo, seria bom para eles uma atendente a menos. Em outras noites, penso que quando chegar em casa, preciso anotar em algum lugar bem visível: “Nunca mais trabalhar em bar!”. Para caso a memória novamente falhe.

Minhas míseras queixas envergonham-me diante realidades alheias, como ao ver pessoas que trabalham comigo à noite e também trabalham de dia. É muito usual, sempre foi assim na noite, mas minha perplexidade só aumenta. A gente se acaba com aquele serviço braçal, como alguém pode conseguir dormir três horas e trabalhar mais nove horas? E depois, retornar ao segundo trabalho e trabalhar outras nove? É desumano! Mas, estas pessoas precisam disso. Ou, se condicionaram a precisar. Elas têm, na maioria das vezes, um filho pequeno para alimentar. Um salário mínimo não dá nem para o cheiro. Ser forte não é uma questão de escolha neste caso. E afinal, nunca é.

Trabalhar em bar, não me é tão diferente como trabalhar em comércio ou em escritório. Não sei ao certo como as outras pessoas lidam – ou precisam lidar – com isso, mas para mim, trabalhar com algo que eu não goste apenas pelo salário é uma forca no pescoço. Uma forca que mantenho há tanto tempo, que já me falta o ar. Por mais que me esforce para isso, não consigo achar que o meio justifique o fim. Mas justifica os erros. Não ter me direcionado para um trabalho que realmente me acrescentasse, ter desperdiçado as oportunidades que me apareceram. Ter andado tanto em círculos, sempre jurando estar indo a algum lugar.

Minha maior revolta (vergonha) em trabalhar como bartender é que, o que eu ganho com isso, me ajuda, mas nem de longe me sustenta. Se sustentasse, eu com certeza não acharia o serviço tão ruim assim. Mesmo trabalhando na noite – ou em qualquer outro lugar – meus pais continuam a me ajudar. Eu estou atada à ajuda deles devido às intermináveis dividas que acumulei e ao errante padrão de vida em que me amarrei. Se matar à noite lavando copos e chão não passa de um disfarce. Uma inútil tentativa de me sentir menos suja.

Ter o apoio financeiro dos pais, aos 25 anos, é como dormir sobre plumas. A grande maioria acaba se acomodando a isso. Até, por ser o mais natural; aderir o ofício da família ou se sustentar a custa deste; deliberadamente e tranquilamente. Vendo-o como um poço sem fundo. Ou uma bolha. Comigo, jamais foi e jamais vai ser assim. O que meus pais conseguiram com seus esforços, é mérito deles. Eu preciso conseguir o meu próprio mérito. Eu tenho os meus próprios sonhos. Nenhum dinheiro compra isso. Hoje, enxergo que minha vida se totalizara num nada. Não possuo autonomia sobre meus passos. Toda minha independência não passa de um teatro. Me sinto numa bolha, mas sua segurança me é uma prisão. O ar é inexorável aqui. Essa dor, dinheiro nenhum cura.

A força e a fraqueza são propícias. Elas surgem devido ao meio. Devido às necessidades ou às comodidades. As facilidades de minha vida não deram espaço para fortalezas. Eu sempre pude me limitar aos buracos, os quais me escondiam de qualquer luz que pudesse iluminar a minha volta; revelando todo vazio que eu mantinha. Todas as promessas nunca feitas e todos os sonhos nunca buscados. Meu nada era a justificativa para continuar querendo tudo. Meu tudo, o motivo de continuar tendo nada. Uma serpente comendo o rabo. Ser fraca não foi uma questão de escolha. Eu nunca consegui enxergar. Ou precisei. Até então.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s