Álbum de Família

Por coincidência faltavam 4 dias para aquele dia de 25 anos atrás. E ela esta lá, eloquentemente discursando, induzida pela falta de pudores da bebida, dizendo-me sobre mim, sobre ela, sobre nossas vidas. Em pedaços.

Eu preferia ter ido embora antes dela ter chego. As coisas estavam boas, estavam. E agora, ela estava lá, remoendo lembranças que não deveriam ser tocadas. Pois são agudas e descoordenadas. Ela dizia que não existe trauma. Que a única coisa que nos resta na vida é seguir em frente e abstrair. Mas sua maneira de falar revelava um inegável rancor que a contradizia. Detesto aquilo nela; aquela auto vitimização contornada por favorável alienação. Mas entendo. Precisamos moldar certas memórias por sua forma original ser insuportável. Mas naquele momento, eu apenas pensava que cercas cicatrizes não passam de esconderijos para o que há por baixo.

Levantei-me, encerrando a conversa, e fui embora. Cordialmente. Como se aquilo não tivesse passado de um papo de bar. Ao entrar no carro, meu instinto era pegar a direção contrária e sumir dali. Ir para estrada, deixar o vidro aberto, o bravo vento agitando os cabelos, invadindo a alma, secando as lágrimas. Ir para qualquer lugar longe daquelas lembranças, daquelas culpas, daquelas costuras rasgadas. Como ela disse, só nos resta seguir. Ou fugir já que abstrair é impossível.

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