Castelos na areia

Quando me mudei para São Paulo, em 2009, havia vários sonhos dentro de mim e várias necessidades. Eu dei prioridade às necessidades. Elas eram maiores e muito escandalosas. Berravam em meus ouvidos. A própria mudança fora a maior delas.

A realidade é uma pirâmide, grande pirâmide a qual só conseguimos enxergar um lado por vez, sem que ainda os outros deixem de existir. Se por um prisma vejo que saciar aquelas tantas necessidades era o que eu mais precisava naquela juventude, por outro, vejo que eu troquei meus sonhos pelos meus instintos. Mas, é sempre controverso julgar o passado com a consciência do presente. Naquela época, analisando melhor, eu me encontrava no fim de uma atroz adolescência, e estava esgotada. Eu não possuía mais paciência nem conseguia qualquer pacificidade com meu ser. Eu precisava me jogar, já não tinha mais forças para andar. E foi assim que, fiz uma mala e fui para a capital; cidade grande onde eu não tinha nada ou ninguém. Era um recomeço perfeito. O vazio e suas infinitas possibilidades.

São Paulo me foi uma grande felicidade na mesma proporção que foi uma grande dor. A ingenuidade é assim, avassaladora, ela não conhece pudores nem limites. E foi nesta erupção que vivi naquela cidade cinza em busca de cor. Tudo muito intenso, dramático e irreversível. Eu sempre soube – até quando não sabia – que fui para São Paulo para me des-cobrir. E eu me despi; perdendo tudo o que me envolvia. Perdi os amigos, perdi os amores, perdi os sonhos. Perdi a saúde e a identidade. Então, pus-me numa enorme busca para recuperar o que tinha valor e preencher o que já não tinha.

Só quando a gente consegue chegar ao pico daquela pirâmide, é que a gente consegue visualizar todos aqueles lados que nos cercavam e que agente nem sabia que existiam. Uma vista panorâmica. Os ventos esvoaçando os cabelos, sussurrando aos ouvidos. Revelando histórias, trazendo perguntas. Levando as certezas, mostrando a paz. O que o passado poderia ter sido está no presente que pode ser. Só conseguimos enxergar todos aqueles caminhos que se desenrolavam em nossos pés, pois estamos acima deles agora. Enquanto estávamos abaixo, o horizonte limitava o olhar. Não sei se é certo chamar “erro” de erro. Seria como chamar árvores de sementes. Anacrônico. A gente sempre quer acertar e todo engano não passa de uma tentativa de encontro.

A empolgação está no risco, na vontade ousada da ação. A vida acontece na fragilidade das tentativas, no desnorteio da liberdade. E não perante o muro alto e duro das certezas. O deleite está na entrega. Enquanto estamos moldando a areia em formato de torres, a gente não pensa na maré alta. E mesmo quando a onda vem e leva tudo, a gente constrói de novo. Ondas sempre virão.

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