Barcos não afundam. Pedras sim

Eu me assistia de longe, sentada. Não sei se acreditava controlar uma marionete ou apena não queria me envolver com a cena, para assim não ser responsável por esta. Não me sentia verdadeiramente telespectadora, acreditava apenas esperar a minha vez de entrar em ação. Mas, eu não decorava textos e nem treinava movimentos. Apenas assistia aquela pessoa que eu não queria ser. Até me divertia pensado que em seu lugar, eu jamais viveria daquela maneira.

O palco era um espelho. Quando isso eu percebi, rapidamente corri para ocupar o meu lugar. Mas já não sabia o que fazer. Não possuía um script. Ou possuía: o “dela”; o qual não me servia. Então fiquei assim, parada lá no meio do tablado, desorientada naquela cena que enquanto assistia, não me importava, mas agora, a vivia sem querer viver.

Eu precisava dar um novo rumo para aquela velha história, que ao mesmo tempo era tão nova para mim. Quis, desesperadamente, descartar o papel da outra e construir o meu. Queria apagar tudo, recomeçar, reescrever aquele precário enredo. Apenas depois de muita relutância e fracasso, eu pude entender que não; não havia como fugir do que eu fui – e ainda sou. Nada adiantaria outro roteiro se eu usasse o mesmo personagem. E para me consertar, eu precisaria me aceitar.

Na peça eu era uma lasca de rocha querendo atravessar o oceano. A terra me era um lugar confinado e sufocante. Eu precisava do mar. Precisava daquele deslumbre, daquele alívio, daquele horizonte sem fim. Então, eu desesperadamente corria e me jogava em suas águas. E afundava. Sempre. Com muito esforço conseguia subir e voltava a nadar, mas o cansaço era muito e logo voltava a afundar. Sempre.

Lá da plateia eu me via, ria e balançava a cabeça, num deboche triste: Que tola! Como ela não percebe? Nunca conseguirá!

Um pedaço de rocha pode ser pesado demais para flutuar, mas um grande navio não. Isso se deve não pelo peso, mas pelo volume. É como se tentássemos andar sobre as ondas; todo o peso se concentraria nos pés e afundaríamos. Mas, quando deitamos sobre a água, o peso do corpo fica distribuído e flutuamos. Quanto maior o volume do corpo, maior quantidade de água ele remove e assim, maior será a reação da água para reocupar o seu lugar. Essa força contrária gera a sustentação. Peso sem volume afunda. Esforço sem leveza é em vão.

No novo enredo eu resolvo passar um tempo sobre a areia usando minhas pontas para esculpir madeira. Sobre um barco eu poderia atravessar o oceano e até virar marinheira. Ou pirata? Porque não. Basta só continuar em cena.

 

Texto inspirado no poema de Gabriela Jardim Aquino:

A-DÓ-E-SER CONTEMPLATIVO

Podia eu ser outro, que não este ser contemplativo? Que não este, que hora invade o palco sem saber atuar e noutra volta à plateia, para ser contemplativo ao próprio caos provoca-dó.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s