“Tá Chegando?”

Era a primeira vez que meu pai me levava para caminhar com ele. Na época, era atleta, e todos os dias à tardinha saia para fazer grandes percursos. Eu queria muito ir com ele, pedia isso sempre, até chorava às vezes, mas ele dizia que era muito nova. Um dia, talvez de tanto insistir, resolveu me levar junto. Logo nos primeiros quarteirões, comecei a perguntar o que a gente sempre pergunta, mesmo quando já não se é tão criança: – Tá chegando? Tá chegando? Não, não estava. Tínhamos acabo de começar. Eu não me lembro como meu pai falou isso; se ficou irritado, reclamando assim por ter me levado, ou se não deu bola. Mas nunca me esqueci do que ele me disse na segunda vez que perguntei. Ele explicou, ludicamente, que quanto mais pensamos no final, mais demoramos a chegar. Quando a gente presta atenção no caminho, nos distraímos e o tempo voa: – Olha lá aquele cachorrinho. Você reparou quantos cachorros já viu? E aquele homem de camisa engraçada, você viu? E o céu mudando de cor? Se despedindo do dia…

Foi naquele momento que eu entendi o que significava “caminhar”. Às vezes me esqueço, logo me lembro.

Ele começou a me levar sempre. E íamos cada vez mais distante. Eu até voltava de “cavalinho” às vezes, usando a desculpa do cansaço.

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