Alguma coisa acontece no meu coração

Sampa vestiu a sua melhor veste para me receber; aquele seu típico manto cinza, frio e grosso. Ela usualmente o usa como se quisesse esconder o que possui por dentro. Mas agora, quando a vejo, ela também me vê, colocando-me por trás de seus disfarces. É como se eu conhecesse os seus mais íntimos segredos, e por conhecer, a cidade já não se esconde ou se fantasia, mas se mostra, dizendo sentir-se à vontade ao meu lado, pois ela também conhece os meus segredos.

É anacrônico voltar. Olhando pela janela é como se eu nunca tivesse ido, como se pudesse me encontrar em qualquer esquina; dentro de meu carro, sobre as calçadas ou pegando qualquer ônibus ou metrô. Chego à rodoviária Tietê. Se alguém me perguntasse como se parece aquele lugar eu diria como o centro do mundo. Pessoas interruptamente vindo e indo. Pessoas desesperadamente chegando e fugindo. Elas sempre chegam buscando algo, e costumam se esquecer  que a busca parte da falta. Mas rapidamente descobrirão isso, em nenhum outro lugar poderiam melhor descobrir isso. SP é uma selva e sua lei predomina: ou se é forte ou se é engolido. Mas talvez seja preciso ser engolido para saber ser forte.

Vou ao encontro de minhas amigas. Marcamos no metrô da Luz, a síntese perfeita daquela cidade: o pleno entretenimento entre a plena miséria. A magistral sala São Paulo, a Pinacoteca, os Museus, a magnífica arquitetura da estação; tudo isso delineado por incontáveis moradores de ruas, gigantes prédios abandonados às ruínas servindo de moradia para incontáveis famílias, e intermináveis lixões a céu aberto – com pessoas se alimentando destes. Mas senhoras e senhores, não deixem que estes detalhes lhes atrapalhem o passeio! Os habitantes daqui já nem os percebem mais, logo você também fará isso! Fique tranquilo e aproveitem o melhor que São Paulo pode lhes oferecer.

Encontrar minhas amigas me faz muito bem, lembrando-me do maior significado daquele lugar. Depois de uma ótima visita ao Museu da Língua Portuguesa, vamos para um bar na Paulista; outro grande reflexo de SP. Sentadas numa mesa na calçada presenciamos um bizarro desfile da classe média alta adornada por mendigos. Aquela mescla de aromas me é tão característica àquele lugar: porções de frituras, perfumes e dejetos humanos. Obviamente, não conseguimos passar muito tempo lá e nos levantamos a procura de algum outro refúgio. Vamos ao parque Ibirapuera. Já é noite, o parque está tranquilo e muito agradável, a não ser pelo nosso pleno sinal de alerta perante seus circundantes. Mania de paulistano. Necessidade de paulistano. Ao retornar para rodoviária, lembro-me da vida tão fácil que hoje levo no interior: 1 hora de ônibus + 1 de metrô. E nem pegamos trânsito.

Deparar-me com tantas dificuldades de São Paulo de maneira alguma me fora pejorativo. Muito pelo contrário. Foram exatamente estas adversidades que me moldaram tanto, que me mudaram tanto e converteram todos meus significados. Presenciar tanta desumanidade me fez mais humana, viver em cima de tanto concreto me fez menos leviana. Eu cheguei ali uma menina, com a inocência perdida sai de lá uma mulher. Eu e São Paulo somos cúmplices. Toda a minha degradação, meu afinco desespero, minhas tantas mortes e nascenças: tudo isso esta cidade presenciou. Dentro de minha janela só havia caos, fora também. E assim, eu me consolei em seu manto, eu me fortaleci em seu chão. Por mais que eu tente, São Paulo me é inexplicável. Uma espécie de joia rara, uma pérola negra, gravada no peito.

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