Além do que se vê

A primeira amizade do meu pai foi depois de seu divórcio. Antes, ele não precisava de amigos. Ou assim achava, pois a minha mãe preenchia o seu vazio. Mesmo com a plena distância entre eles. A simples presença dela lhe era o suficiente, como uma cruz na parede do quarto, garantindo alguma proteção. Meu pai era a pessoa mais fechada que eu conhecia; se não estava no trabalho, estava lá no fundo da casa debruçado sobre algum livro, em silêncio. Por este seu jeito eu demorei muito para conseguir entendê-lo; entender não exatamente ele, mas o amor que ele sentia por mim. É engraçada esta condição humana, nossos cinco sentidos nos limitam, não conseguimos sentir além deles. Nossos raciocínios nos prendem, não conseguimos compreender por trás deles. E sempre existe tanto além.

Por ironia, os primeiros amigos de meu pai foram os amigos de minha mãe; pessoas que meu pai nunca quis contato. E foram exatamente estas que o ajudaram a se levantar do fundo poço que o divórcio lhe lançou. Para minha surpresa, estas pessoas não lhe foram apenas muletas, ou meras distrações; meu pai firmou uma nobre amizade com elas, algo que me comove. Acho lindo a maneira como ele pega o celular no natal, no ano novo, e liga para seus amigos; lhes desejando o melhor e dizendo o quanto eles lhe são importantes. Ou quando ele prepara alguma de suas especialidades na cozinha e separa uma forma para algum deles: “Porque fulano adora pratos apimentados, irá gostar bastante deste”. Mesmo hoje, já com uma namorada, ele continua cercado de poucos e queridos amigos.

Meu pai nunca foi de se sentar ao meu lado e perguntar como eu estava; quais eram meus sonhos, o que eu fazia para alcançá-los, quais eram meus medos, o que eu fazia para espantá-los. Mas hoje, nitidamente vejo como ele sempre esteve presente, independente do lugar do mundo em que eu pudesse estar. Neste ano em especial, o qual eu passei na mesma cidade que ele, eu pude enxergar isso melhor do que nunca. Ele me ajuda em tudo, não importa o que seja. Desde me socorrer quando meu carro quebra – e como isso acontece – como vir me trazer comida, comprar remédio quando estou doente, pregar um mísero prego na parede, plantar uma muda de árvore comigo. Ainda faz questão de me levar e me buscar na rodoviária quando preciso viajar, entre tantas outras coisas. Hoje eu tenho certeza que possuo o melhor pai do mundo, e esta é a minha maior sorte. Quando jovem, eu não compreendia a sua maneira de amar, e achava que por não ser a maneira que eu queria, não era a correta; não era suficiente. Estamos sempre buscando um ideal de perfeição, nos esquecendo de que isso não existe; isso não é humano. Talvez seja este o nosso maior erro com com o amor: não conseguimos valorizar o que ele nos oferece, pois estamos ocupados demais buscando o que ele poderia nos oferecer.

Sabedoria me parece a capacidade de enxergar além da superfície, de compreender não o que parece ser, mas o que pode ser. Cada pessoa possui uma história a qual só se consegue visualizar a capa. Ler alguém não é fácil, os olhos não conseguem isso. É preciso enxergar além do que se vê. E sempre existe tanto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s