No início no meio em qualquer parte tinha uma pedra

A gente sempre tenta fazer as coisas da melhor maneira possível, a gente sempre tenta acertar… Mas intenção não define resultado. Então, se angustiar por um erro não seria tolice? Se a gente soubesse que não daria certo, teríamos feito de outra maneira. Mas a gente nunca sabe. Agora vamos, pare de chorar, fique calma…

Isso foi o que ela me disse depois, em outro telefonema, quando já se havia passado alguns dias e muitas emoções. O que ela me disse da primeira vez foi algo mais duro e seco, usando aquele seu habitual pessimismo, que como qualquer característica, hora é defeito e hora é qualidade. Ela disse:

– Mas você está assim porque as coisas estão difíceis? O estranho seria se elas estivessem fáceis não? As coisas sempre serão complicadas. Sempre. O que precisamos é encarar a realidade para conseguirmos modificá-la, e não ficarmos imobilizados se lamentando sobre ela…

Quando eu era criança, bem criança, o que eu mais odiava era quando me chamavam de “chorona”. E todos assim me chamavam. “- Ah, aí está a pequena chorona!”. Eu sempre chorei muito, confesso, mas nunca chorei para alguém. Era sempre para mim. Mas nesta idade era difícil esconder. Depois eu passei fazer isso com maestria. Até hoje. Aos 25 anos adquiri a mania inusitada de ligar para minha mãe aos prantos, sem dizer coisa com coisa, apenas chorando, como se apenas quisesse dividir aquela dor, talvez, com a inconsciente esperança de assim torná-la menor.

E foi com esta assumida fragilidade que consegui percebe a distorcida concepção que sempre carregara: a de que ninguém pudesse jamais me ajudar. Sempre achei que apenas eu poderia isso fazer. Nessa primeira semana em Curitiba, minha mãe me ajudou muito. Seus ouvidos e suas palavras me ajudaram muito. Ela me ajudou a entender que passamos muito tempo desejando que coisas boas se aproximem e coisas ruins se afastem, mas esta é uma sentença utópica. Vivemos num mundo dual e não unilateral. Acho que seria mais sensato desejarmos a difícil habilidade de saber lhe dar com o pejorativo e não apenas a fácil alegria de receber o positivo.

Hoje sem querer fui num parque daqui. Meu carro não está muito bom e temendo isso decidi estacionar e aguardar um pouco para continuar. Acabei estacionando na frente deste parque, um lindo parque. E acabei ficando horas lá, debaixo de uma árvore, diante de um lago, vendo a serenidade dos patos a nadar. Acho que aquilo foi um tipo de troca. Eu doei o meu carbono em troca daquele oxigênio. Eu transbordei a minha enchente e o lago me transbordou a sua paz. Seja lá o que for, aquele momento me fez sentir vergonha; vergonha de minhas lágrimas, de minhas queixas, de minha pequenez. Aquele momento era tão bonito que a minha feiura morreu de vergonha. E pensar que um dos motivos que me levaram a Curitiba foi a sua quantidade de parques…

No início do caminho tinha uma pedra, e um lago muito maior. Desejo que assim continue.

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