Partir-se

“Índice de homicídios por bairros” – Diz o site. Descubro que o bairro onde ponderava morar teve 20 assassinatos neste ano. Um dos números mais altos. Me deparo com a última notícia: Menina estuprada e esfaqueada pelo primo. Sabe, eu pensei que escolheria minha casa pelo tanto de árvores que encontraria em volta, quem sabe, uma linda araucária na minha calçada. Ou pela proximidade de algum parque onde pudesse ir passear nos fins de tarde. Não imaginei exatamente isso daqui: dados funerários como critério.

Morar sozinha, numa casa, pois se não estou tocando “barulho”, estou o ouvindo. Eu não posso morar num apartamento, e nem quero. E quem me garante que aquele primo pedófilo e assassino não morava num apartamento? Lembro-me de um crime que muito me abalou em SP: um menino morto em frente da portaria de seu prédio a tiros, porque demorou em entregar o celular a seu assaltante de 16 anos. Imagino que sua mãe ao alugar/comprar seu apartamento, pensava estar investindo em segurança para sua família. O que é segurança afinal? Eu não sei.

Quando criança, uma de meus passatempos favoritos era folhear o Atlas. Eu passava horas explorando cada canto de página; especulando cada continente, fantasiando cada país, mergulhando em cada mar. Escolher morar em Curitiba foi mais ou menos assim. Eu não conhecia a cidade quando a elegi como destino. Foram vários os meus motivos e isso me fora inusitado; algo friamente calculado em meio de minha natureza impulsiva e tempestiva. Nas outras cidades onde morei, eu cai – ou me joguei – de paraquedas; quando dei por mim, já estava em outro lugar, vivendo uma outra vida. Devido ao vestibular, pude conhecer Curitiba antes de me mudar. E o que senti ao conhecer o meu futuro lar foi apatia. De maneira alguma a cidade me desapontara, mas, é só uma cidade. Só mais uma cidade.

Estas ruas me parecem todas iguais. Por favor, me conte algo extraordinário sobre elas! Alguma pessoa especial que se esconde dentro de alguma casa, algum fóssil debaixo de algum concreto, algum tesouro enterrado que meus olhos não podem ver. “Desenha-me um carneiro” para enfeitar estas paredes tão paradas. Me mostre um lugar a céu aberto onde eu possa me deitar à noite, sem precisar sentir medo.

É confusa esta sensação de recomeço. Uma estrada nova não leva a lugar nenhum. São os passos que levam. Curitiba é o tablado. Tudo o que vier por cima, será posto por minhas mãos. Elas estão um pouco calejadas e doloridas, mas nada que uma salmoura não resolva. Minha alma também assim se encontra, e ela nem cabe numa bacia. O cansaço muito me incomoda, mas de muito também me serve. O cansaço nos coloca entre extremos: ele pode ser aquilo que nos paralisa ou aquilo que nos move. Porque cansaço também é desespero; desespero cansado de assim ser. Meu desespero quer paz, não conformismo. É hora de partir, e não daqui, mas de mim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s