Coisa Frágeis

– Alô? Oi, você tem um gato branco e preto? Ele acabou de ser atropelado… Mas já está morto.

Esta pessoa me contou mais tarde, que três gatos dela já tinham morrido atropelados naquela mesma rua, uma movimentada avenida perto de casa. Isso não é surpresa. Um gato morando numa casa com acesso à rua está suscetível a morrer a qualquer momento, ou atropelado ou envenenado. Uma vizinha quando viu que arrumei um gato, veio me falar para ficar esperta, pois na quadra de baixo mora uma família adversa a gatos. “Envenenam todos”, ela disse. Quando criança mesmo já tive vários gatos que morreram na rua. Criadores e protetores sérios apenas destinam seus gatos para pessoas que moram em apartamento telado. Não estão errados. Mas aí me deparo com um dilema pessoal: eu não suporto ver um animal preso, independente das condições. Sou doente por gatos, mas depois que vi tantos morrerem em minha casa não quis mais nenhum, por coerência mesmo, não por trauma. Quando me mudei para um apartamento tampouco. Um bicho fechado entre paredes me é agoniante, não estou repreendendo este tipo de criação, estou apenas contando como funciona comigo. Sou tão extrema neste âmbito de liberdade, que nem um cachorro em uma casa eu teria. Nem em zoológico eu entro… Quanto mais, prender um gato já adulto dentro de casa. Um gato o qual se quer adotei, mas sim fui adotada.

Quando Bast apareceu em casa, estava com verminose e estava letárgico. Ficava o tempo inteiro deitado na varanda. Quando melhorou, ele já ficava aqui dentro de casa, mas nunca fechado, podia sair e entrar quando queria, e começou a frequentar a rua. Ele costumava passar a noite e a manhã aqui dentro e à tarde saia para suas andanças. De maneira alguma eu ficava sossegada com isso, sabia que era uma roleta russa. Mas não iria trocar sua liberdade por sua longevidade. E foi o que aconteceu. Ontem, no final da tarde, uma mulher me ligou contando que ele tinha sido atropelado em frente de sua casa. Quando cheguei lá, tive uma grande surpresa e comoção: o gato não estava mais na rua, estava dentro de sua casa, numa pequena caixa nos braços de sua filhinha, aos prantos. Ela me contou que antes de ser atropelado ele estava brincando com a menina. Bast estava encolhido como costumava ficar enquanto dormia, se não fosse o sangue que o circundava acharia que estava de fato dormindo. Ela ainda me perguntou se eu não queria deixar o cadáver lá, que amanhã ela chamaria a prefeitura para buscá-lo. Mas disse que não, que preferia levá-lo para minha casa. E como se já não tivesse ajudado o bastante, me pediu para esperar que iria anotar o telefone deste serviço de coleta para mim. Enquanto isso, eu e a menina ficamos lá em sua varanda, sentadas ao lado da caixa ainda aberta, chorando em silêncio. Antes de eu ir embora a criança me perguntou se poderia se despedir dele. Ela se debruçou na caixa afagando o pequeno corpo e começou a soluçar. Neste momento a mãe a abraçou forte e disse: “- Calma calma, ele não está mais aqui, já está longe, lá no céu.” Curiosamente, ouvir aquilo me fez muito bem. Talvez pelo consolo materno, talvez pelo pranto compartilhado, ou ainda talvez; pela sugestão que ele não estava mais ali, asfixiado dentro daquele corpo imóvel e ensanguentado, mas além. A morte exige isso do ser humano; esse apoio na ciência ou na fé que nada morre, mas sim se transforma.

Cheguei em casa, peguei algumas ferramentas de jardinagem e comecei a cavar um buraco no jardim. Isso deu um certo trabalho e levou um bom tempo, e acabou me fazendo muito bem. Enterrar sua caixinha em meu quintal em vez de entregá-la a mãos estranhas me foi o grande alívio. Pude fazer um pequeno velório, pude enterrar um pouco da minha dor também. E pude imaginar que, a partir daquele momento, ele se transformava no guardião daquela casa. Por que não? Por que não…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s