Solidão a dois

Eu gostava de sua companhia, não de sua presença. Constatar isso não foi fácil. Ou rápido. Adorava entreter-me junto a ele, não com ele. Íamos ao cinema, ao teatro, a concertos. Adorava fazer isso, mas só isso. Quando estávamos a sós, num restaurante, num parque e principalmente em minha casa; um abismo me circundava, e me sugava. Era vazio. Era líquido. E eu me afogava.

Mas eu insisti. Sempre especulei que a origem do problema estava em mim. Acho que estou tão acostumada a estar sozinha, que privatizei minha solidão. Não sei dividir isso, não sei compartilhar isso. Minha irmã costuma dizer que eu espero demais das pessoas, e que pessoas são só pessoas. Talvez eu procure isso mesmo: o extraordinário e sua raridade. Não só em alguém, mas na vida. Não quero ser miserável como Cazuza critica e viver a espera de alguém que caiba nos meus sonhos. Mas tampouco quero possuir a piedade do conformismo. Ou o masoquismo da compaixão. Tenho muitas dúvidas, mas minha total convicção é preferir a solidão a um ao vazio a dois.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s