Por trás do balcão

Carlos sempre chega depois das 4 da manhã no bar. E paga o valor do cover para entrar, mesmo não havendo mais banda. Normas da casa. Mas ele sempre contesta isso. Quando o atendo na bilheteria, eu não consigo entender o que ele diz, mas suponho que esteja tentando me persuadir sobre a possibilidade de entrar sem pagar, ou pagando menos. Então digo: 15 reais. Apenas. E ele paga.

Todos o conhecem no bar, todas as noites ele religiosamente vai lá, minutos antes do bar fechar, travado de bêbado ou sabe lá do que. Eu ainda me questiono se seu estado é proveniente de um aditivo químico externo ou interno mesmo. Acho interessante o fato de ele aparentar estar tão alterado, mas se manter tão controlado. Não passa mal, não faz escândalo, não explode. Ele um pouco me arremete aos moradores de ruas, os quais claramente mostram estar fora de si; como se isso fosse uma resultante daquela vida. Uma necessidade daquela vida. Mas,Carlos nem de longe parece um mendigo.

Eu sou nova no bar, pergunto para meus colegas se sabem algo dele; se ele é drogado ou apenas perturbado, porque chega todos os dias naquele horário… Ninguém sabe nada ao certo, mas acreditam que seja bebida mesmo – muita bebida. A primeira coisa que ele faz ao entrar é ir ao caixa comprar a ficha de algum destilado. Ontem comprou tequila. Ele faz o pedido e diz para a atendente: “Eu sempre chego sozinho né”. Ele sempre diz isso. E vai para o balcão pegar a bebida. A bartender deve ter dito alguma vez que gostava de Anne Rice. Ele começa a puxar assunto com ela, de uma forma incoerente e inaudível, sobre livros e filmes de vampiros. Achei muito legal ele, daquele jeito, se importando em conversar sobre algo que a menina goste.

Vejo sua mochila, com a estampada: História – UFPR. E continuo a imaginar o tipo de pessoas que possa haver por trás daquela máscara de bêbado e louco, deveras moldada pela solidão. Ou será que a máscara já está ali por tanto tempo que se sedimentou à pele? As luzes se acendem e mais uma vez o segurança o pede para sair. – Até a próxima – ele diz.

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