Depois da Lei Áurea escravo não tem cor, tem carteira de trabalho

– Aline, recebi seu currículo, você pode vir aqui hoje à tarde para conversarmos?
– Hoje eu não teria disponibilidade, poderia ser amanhã?
– Não, amanhã não. Obrigada
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– Bom dia Aline, recebi seu currículo, poderíamos agendar uma entrevista?
– Sim, apenas precisaria saber antes alguns dados sobre a vaga não informados.
– Ah… Como quais?
– Como salário e jornada de trabalho.
– Olhe, Isso apenas na entrevista.
– Bem, estas informações são fundamentais, sem saber sobre isso me fica complicado fazer a entrevista…
– Então ok, obrigada.
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(Na entrevista)
– Bem Aline, estou vendo aqui em seu currículo que você acabou de se mudar para Curitiba, o que veio fazer aqui?
– Perspectivas pessoais. Já planejava há tempos me mudar para cá.
– Mas… Por quê? Por que decidiu deixar São Paulo?
– Metas pessoais.
– Mas… Mas você tem família aqui, namorado?
– Não…
– Veio sozinha?
– Sim.
– Nossa… Mas onde está morando?
– Eu aluguei uma casa.
– Mas, mora sozinha? / E quanto você paga de aluguel? / – Seus pais te ajudam? / – Com o salário da empresa você vai conseguir se bancar? / – E como você me garante que irá realmente permanecer na cidade e não outra vez se mudar? / – Por que você tem tantos cursos, mas não fez nenhuma faculdade? / – Me fale sobre suas qualidades, defeitos, manias, fraquezas…
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Há quase 2 meses estou procurado emprego na área administrativa. Em 100% das entrevistas estes diálogos se repetem. Os processos seletivos costumam constituir-se em 3 fases: primeiro no escritório de RH, depois com a responsável por gestão de pessoas da empresa e por último com o gerente ou proprietário. Desde que comecei a entregar currículos faço em média 2 entrevistas por dia. Em nenhuma destas entrevistas e de suas etapas eu recebi uma prova funcional para fazer. Em nenhum momento entregaram-me uma prova de cálculo, pediram-me para programar uma planilha no Excel ou montar um balancete. As entrevistas constituem-se unicamente em perguntas sobre a minha vida pessoal. A situação para mim se complica logo no início quando respondo a primeira pergunta: “O que você veio fazer em Curitiba¿”. Eu não sei mentir. Tenho consciência que a minha resposta é subjetiva, mas é a única que tenho. Dizer que vim para Curitiba sozinha por “metas pessoais” soa como se dissesse que vim prostituir-me ou traficar aqui. Os entrevistadores me olham incrédulos e a partir daí um questionário abusivo e impertinente se desenrola. Eu entendo a necessidade da empresa de garantir-se sobre a integridade do futuro funcionário, mas há outras maneiras de se fazer isso do que esta invasão pessoal. Não interessa quanto eu pago de aluguel, não interessa meus sonhos, minhas metas, minhas razões. Não, estas questões não condizem à psicologia de RH, estas questões são um abuso de poder. Devido à alta concorrência por vaga, os empregadores criaram requisitos distorcidos de seleção para escolher o funcionário perfeito; idealizando cada vez mais uma máquina e desprezando cada vez mais o humano.

Uma vaga de auxiliar administrativo hoje exige ensino superior, capacitações e experiência. O salário: R$800 em média aqui em Curitiba. Menos que um faxineiro ganha. O menor aluguel que consegui aqui na cidade foi em uma casa de fundos por R$700, na saída da cidade. Apenas decidi alugar uma casa pois um quarto em pensão ou em república estava este preço. Como sobrevier? Como?! Esta é a realidade brasileira. Esta é a realidade trabalhista brasileira: um regime escravagista mascarado. O resultado da abolição, nossa eterna marca da escravidão. Até quando?

Ontem eu chorei numa entrevista. Aos soluços. Sem motivo. Ou com muitos. Cheguei ao meu limite. Depois de 3 horas fazendo entrevista numa empresa, sendo bombardeada por intermináveis perguntas sobre minha vida íntima, eu não aguentei. Desabei. Estava diante à dona da empresa, creio que fora no momento em que ela me perguntou: “Enumere suas qualidades e defeitos”. E eu caí no choro. Bem, acho que foi a resposta mais franca que eu poderia ter dado. Ela manteve-se intacta, olhando para mim incrédula sem entender nada. Afinal, para ela aquilo era normal. Ela era a patroa e eu uma estranha qualquer que a implorava emprego. Função dela se certificar sobre minha pessoa. Mas eu não estava ofertando minha pessoa; e sim o meu trabalho. Levantei-me e fui embora.

Para mim, esta exploração chegou ao fim. E já foi tarde. Não sou uma miserável, tenho a sorte de não ser, pois a maioria em nosso país não possui tal privilégio. Render-se à exploração trabalhista tende-se a ser uma primordial necessidade. Mas fazendo jus a minha favorável condição, decidi tornar-me intolerável à esta questão De ontem para hoje recebi três propostas de entrevistas, nenhuma quis me falar o salário. Não, obrigada. Amanhã tenho uma entrevista agendada, não responderei mais nenhuma pergunta sobre minha vida íntima. Direi: “Assunto pessoal.” Apenas. De uma vez por todas: eu não estou vendendo a minha pessoa, eu estou vendendo o meu trabalho. Há uma grande diferença nisso, mesmo que nosso corroído regime não perceba. Basta! Basta.

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