Renascer

A minha primeira lembrança não é uma visão, é uma necessidade: Sede. A sede bruta é como facas engasgadas. Ela rouba qualquer percepção. Apenas existe você e o seu corpo fechado, seco, áspero, implorando água. Ao tentar falar, percebi que havia um tubo em minha boca, com muita dificuldade o tirei e com a mesma dificuldade falei: “Água, água”. Uma enfermeira aproximou-se, recolou o tubo em minha boca e disse: “Você não pode beber água.” Mecanicamente retirei o tubo e voltei a pedir água. Ela, já impaciente, voltou a colocar o tubo e novamente disse, só que mais alto e compassado: “Você, NÃO pode, beber água!”. E mais uma vez, retirei o tubo e murmurei as mesmas palavras. Um médico agora se aproximou, pegou uma gaze, mergulhou-a num copo d’água e umedeceu meus lábios. Recolocou o tubo. Foi neste momento que percebi que algo grave tinha acontecido comigo. Mas ainda não ousava a questionar o quê.

Sempre quando estou bebendo água me lembro disso. E um mero copo d’água ganha tanto significado. As lembranças do acidente surgem sempre, mudando todos os significados. Numa aula de ballet, no alongamento já recuperado e nos movimentos que já não doem. Na varanda do meu quarto à noite, naquele céu estrelado e infinito. Nas conversas de família, meu pai contando uma historia qualquer, daquelas que ele costuma contar tantas vezes e eu não me canso de ouvir. Eu, minha irmã e mãe reunidas em qualquer lugar, falando sobre qualquer coisa, entre petiscos, risadas e sonhos. Num acorde de violão, numa partitura de piano; numa certeza que dissolve qualquer incerteza. Em uma daquelas canções de rock que traduzem a vida – e a preenchem. Na segurança dos braços de minha avó. Na concretude do olhar de um amigo. Na beleza de um entardecer. No afago de um banho quente.

O acidente não quase me tirou a vida, mas mostrou-me a vida que eu tirava-me. O presente suprimido pelo futuro não vivido. Desculpas em formas de esperanças. Sonhos resignados. Identidade soterrada. Tempo perdido para que pudesse ser encontrado. Redirecionado. Eu pude renascer. E o mais importante não era a vida que me voltava, mas a forma de viver que eu reconstruía.

Ainda estou engatinhando, entre tropeços, descobertas e enganos. Muitas vezes durante esta nova fase eu me esqueci disso. Quis ser mulher feita, desumanamente perfeita. Quis resultado antes de colheita. Há esta euforia de crescer, de voar. E por não aceitar que o tempo seja maior que a vontade, eu me arrebentei no duro chão ao tentar planar. Nenhum tempo fora mais difícil que este posterior ao acidente. Nem mais significativo. Hoje consigo enxergar que todo este caos fora necessário. Eu tive que me desfazer para me reconstituir. Há tão pouco tempo atrás minha vida era uma mentira. Havia um tampão em meus olhos colocado por mim mesma que me impedia de ver qualquer coisa a qual eu não quisesse ver. Ainda retiro tampões diários sobre meus olhos, e com certeza, sempre precisarei retirar. O que mudou foi a consciência disso. Consciência. A valorização do tempo que não volta mais e só diminui. Sempre pensamos que vamos ter muito tempo para ser o que quisermos ser. Mas não, não temos. O tempo se gasta, não se ganha. Precisamos começar hoje. Ser hoje para nos tornar amanhã.

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