Defeituoso Hardware Humano

Rack Piso A: Quant.: 55 – Cor: B – Larg.: 09 – Alt.: 30 – Comp.: 10 – Preço: 55
Rack Piso B: Quant.: 18 – Cor: D – Larg.: 16 – Alt.: 16 – Comp.: 16 – Preço: 32
Rack Piso C: Quant.: 07 – Cor: F – Larg.: 13 – Alt.: 30 – Comp.: 17 – Preço: 26
Rack Piso D:…

8h por dia na frente de um computador, lançando dados num sistema. Há uma pilha com incontáveis folhas sobre minha mesa, as quais outra pessoa redigiu, mecanicamente, e agora sou eu quem, mecanicamente, as digito numa outra aba de uma outra planilha. Sou um scanner humano. Sou paga para isso. Sou isso. Sou?

Minha gerente chama minha atenção. Fiz um lançamento numérico errado. Toda planilha está errada por isso. Minha gerente novamente chama minha atenção. Esqueci-me de especificar os lançamentos dos boletos no sistema. Todo o sistema está errado por isso. Minha gerente faz o mesmo que faço. Há 10 anos. A mocinha do meu lado responsável pela produção faz o mesmo que faço. Todos do escritório fazem o mesmo que eu faço. Um trabalho robótico e operacional. Todos são formados, alguns graduados. Todos estão há anos lá dentro. E me pergunto se eles se sentem como eu: berrando por dentro.

Trabalho num emprego privilegiado, o qual me capacitei para obtê-lo, o qual batalhei meses de entrevistas para consegui-lo. Trabalho sentada e com um café na mão, sendo que a maior parte da empresa constitui-se em “peões”; funcionários da produção; encaixotando coisas, arrastando peso, soldando ferro. E no meio de tal privilégio, sinto-me a pessoa mais infeliz do mundo.

Saio de casa às 7 da manhã. Volto às 7 da noite. O que eu estou fazendo com o meu dia? Ontem um amigo meu faleceu. Acidente de moto. Um dia ele estava aqui, no outro não mais. Entre a dor e a revolta deparo-me com a fugacidade da vida. O que eu estou fazendo com a minha vida?

Este é o melhor emprego que hoje sou capaz de conseguir. Não possuo capacidade para sobreviver fazendo o que gosto. Não possuo sanidade para sobreviver fazendo o que preciso. Eu estou explodindo por dentro. Uma dor desesperada me apossui: a dor que parece irresoluta. Não sei o que fazer. Não sei como suportar. Não sei ignorar.

Sou uma vagabunda. Sou não capaz de trabalhar. Sou uma fraca. Não sou capaz de aturar o presente e suas consequências. Meu hoje é um lamento inconsolável. E eu não sei o que fazer para reverter isso. E esta impotência está enlouquecendo-me. Há um cavalo de troia em meu sistema o qual totalmente o impossibilita de servir a qualquer outro. Estou em pane

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