Encontro

Final do dia no centro de Curitiba. Meus passos apressados se encontraram com os seus debilitados. E me fizeram parar. Aquele era um personagem não condizente àquele cenário. Seus cabelos brancos, sua pele enrugada, seu suéter, sua bengala. Suas mãos trémulas tateando o chão que ofegantemente pisava, e se arrastava. Não, aquele frágil senhor não condizia àquele chão imundo, àquela calçada onde mendigos e pombos disputavam alguma migalha de alimento, algum sopro de atenção. Minha vontade foi de pegar o velhinho no colo, de poupar a tamanha dificuldade de seu andar e levá-lo para algum lugar longe e seguro daquele caos. E talvez, ele pensara o mesmo ao me ver. Pobre jovem apressada, desesperada tentando sobreviver nestas ruas. Em vão. Havia suor na testa do senhor como havia na minha, a diferença era que ele se esforçava para caminhar onde estava e eu, para chegar aonde queria estar.

Aquele senhor, se pudesse, iria me pegar pela mão e me convidar para caminhar com ele. E na câmera lenta em que o mundo se tornaria, mostraria que a vida é uma repetição escondida atrás da veloz rotina do dia a dia. É preciso ir devagar para se enxergar longe, ele diria. E, pausadamente, explicaria que a vida não é linear como em nossos confinados desejos, mas que se expande em círculos, em uma sabedoria que confronta a limitada compreensão humana. A pressa cansa e não alavanca. A rotina cega. Ouvindo tudo isso daquele silencioso andar, eu me senti envergonhada. Vencida pelos meus deletérios, diárias inversões e invenções que me atropelam. E me arrastam.

Enquanto ele se afastava eu imaginava o que aquele velhinho fazia naquela calçada com sua sacola de mercado na mão. Será que ele precisou sair para comprar o que comer? Ou apenas quis passear um pouco? Descansar de suas paradas paredes. Sua fragilidade agora se destoava em fortaleza, minha pena se convertia em admiração. Quantos idosos como este estariam caminhando a sós por alguma rua? A destreza de sua vontade parecia diluir qualquer dificuldade. Como sempre deveria ser. Sua paz não condizia àquele lugar e isso me mostrava quanto o indivíduo pode manter-se à parte ao meio que lhe cerca.

Aquela pureza apoiada em um pedestal borrava as calçadas. Não existia mais podridão, mais lixo, mais o trânsito em seu pico diário. Existia ele e eu. E a finitude de nossas vidas momentaneamente entrelaçadas. Eu já não corria. Já não sabia que horas eram ou para que eram.

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