O 1° semestre. O 1° passo.

Hoje eu sonhei com pessoas que desconhecia. Eram jovens, vários deles. Estavam brincando numa rua, correndo, alegremente gritando e gargalhando. Havia o que parecia ser um córrego contornando esta rua, para se atravessá-la era preciso saltar sobre este pequeno pedaço de rio, mas não tão pequeno no comparativo de seus pés. Um a um os jovens foram saltando até que um deles caiu, e o córrego se transformara numa veloz correnteza, a qual o sugava e o arrastava. Atrás dele um amigo se jogou no intuito de salvá-lo. Agora os dois eram violentamente levados rio abaixo. No final, como esperado, havia uma represa com uma alta queda. O córrego então virava um gigantesco rio. Sem limites. Sem volta.

Ao acordar e lembrar-me deste sonho, recordei de uma frase preferida na infância:

“Ele costumava sempre dizer que só havia uma Estrada, que se assemelhava a um grande rio: suas nascentes estavam em todas as portas, e todos os caminhos eram seus afluentes. É perigoso sair porta afora, Frodo, ele costumava dizer. Você pisa na Estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado”. – Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel – Tolkien

Este meu primeiro semestre foi extremamente difícil e danoso, como o imaginado no caso de tal recomeço. Mas não como o ponderado. Acho que a minha coragem se concentra em minha inconsequência. Nunca cheguei a racionalizar sobre o que seria chegar aqui sem nada nem ninguém, talvez se tivesse feito, não viria.

Eu ainda não consegui digerir tudo o que ocorrera-me nestes seis meses, e acredito que momentaneamente não conseguirei. Mais importante do que entender me está sendo ser. E não ceder. Por muito tempo o medo de errar e os próprios erros não assumidos paralisaram por completo a minha vida. Hoje, tento estar tão aberta para o erro quanto para o acerto, pois só assim conseguirei discernir ambos.

O problema não está em errar, viver é estar suscetível ao erro, o problema é a resignação perante tal erro. É isso que atrofia, é isso que cega e paralisa. Talvez o que mais tenha feito nesta mudança tenha sido errar. Acho que agora conseguirei acertar, ou não. A possibilidade do acerto está no risco do erro, sempre. E numa maior perspectiva, nada é uma totalidade, apenas um emaranhado de pedaços os quais nos fincamos e rotulamos. Basta um simples movimento de retinas para nos depararmos com outras partes e recriarmos outros rótulos para uma mesma coisa, até então.

Percebo que amadurecer é acima de tudo conseguir enxergar na perda a possibilidade de ganho, que só existe unicamente através desta. É nesta transcendência, nesta turbulência, nesta voragem que a vida circula e se renova. Muitas vezes desejamos paz e estabilidade, e abstraímos o fato de isso ser matéria morta. Não é real. Não é funcional. Parados nada de ruim nos acontece, nem de bom. Gostaríamos que a vida nos carregasse sobre um barco a passeio como num canal de Veneza. Mas não. Ao contrário disso remamos com nossas próprias mãos num agitado rio que por tantas vezes nos exausta, nos afoga. É preciso ponderar acima de tudo nossas forças; saber nadar, saber repousar e decidir quê direção remar para não percorrer círculos. E talvez seja a inevitável remessa rio abaixo o único meio de nos expandirmos, de nos transformarmos. Perdemos muito tempo pedindo que as coisas sejam leves e gentis conosco. Perdemos muito tempo postergado, esperando, lamentando a falta de momento e circunstância propícia. Não tenho fórmulas ou certezas, mas me parece que exatamente as circunstâncias adversas que nos impulsionam. Sem correnteza não há movimento. Não há vida.

Neste final de julho minha vida está em pedaços. Um caos define meu envolto. Mas uma força indescritível surge de dentro me dizendo o que Nietzsche com sua maestria afirmou: “É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela”. Ou para enlouquecer; para se perder. Afinal, todo encontro parte da constatação da perda. E no quê resolvemos fazer desta.

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