Desculpe-me, mas você não existe

Ele disse que eu precisava o ajudar, precisava urgentemente de dinheiro para quitar uma dívida. Eu o olhei incrédula, ao mesmo tempo apática, e pensei: “O que um morto quer fazer com dinheiro?” Ele prontamente respondeu: “Não é para mim, mas para minha família.” E eu não disse nada, a qualquer momento ele sumiria e por questões de dias me esqueceria daquele episódio, até acontecer o próximo. Mas isso não importa, há muito tempo já deixou de importar. Há muito tempo aprendi a ignorar. Eu ignoro sabendo que a mutabilidade entre realidade e fantasia é apenas uma questão de afirmação – ou negação.

Mas instintivamente eu sempre peço desculpas, digo que não, que não posso ajudar. E peço que desapareçam. E eles desaparecem. Eu fico assustada na hora, depois, é como se nada tivesse acontecido. É como se aquele momento recém-acontecido fosse um sonho distante, uma lembrança remota desalinhada pelos confins da memória. Já não incomoda, já não alcança.

A realidade é feita por camadas sobrepostas. Há de se escolher a qual se fixar. Ao contrário pairamos pelos ares, sem chão, sem razão. Mas qualquer fixação é movediça, a concretude é sempre derretida, é preciso que seja garimpada e pressionada até que se torne palpável. Tudo que passa pelo vulcão da mente requer plena manutenção e convicção. Ao contrário se dissolve. O que se mantém é o que se fortalece. Fantasmas não passam de lençóis suspendidos – por nós mesmos.

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