Não há tempo de ser quem sou

O urgente e O importante

Fabiana se formou em psicologia. Ela sempre quis ser psicóloga. Quando iniciou a graduação, ela trabalhava durante o dia em uma loja de shopping para financiar os estudos. Fez o estágio obrigatório aos finais de semana, em um centro de atendimento social. Quando se formou, ela começou a ir atrás de emprego na área; ainda trabalhava como vendedora e obviamente queria atuar no campo. Mas não conseguiu. Até hoje, após 3 anos de conclusão de curso, não conseguiu exercer a profissão. Hoje Fabiana se encontra obsoleta perante o mercado de trabalho. E sem escolha, ainda trabalha como vendedora. Ela sabe que precisa se reciclar. Precisa e quer fazer urgentemente uma pós, mas não possui condições de pagar. Ela apenas conseguiria ingressar em um mestrado se conseguisse uma bolsa. E para isso, precisa estudar. Há muito tempo Fabiana não estuda. Ela trabalha das 14 às 22, 6 dias por semana. Até chegar em casa, jantar, tomar banho… Ela dorme tarde, acorda tarde. Quando percebe, seu dia já se foi. E ela ficou. Retida entre sua sobrevivência e seu cansaço. E quando percebe, anos se passaram. E seus sonhos sobraram.

Gisele praticou Karatê na adolescência. Nunca se sentiu tão completa. Devido às urgências da vida, “prioridades”, Gisele precisou deixar o Karatê. Formou-se em administração. Há 8 anos trabalha em um escritório de contabilidade. Gisele odeia o que faz. Mas “precisa” – ela diz. O seu grande sonho é abrir uma escola de Karatê. Ela nunca esqueceu a paixão da adolescência. Primeiramente, ela quer retomar a prática. Há anos Gisele descobriu que tinha desvio na patela, então, começou a fazer musculação para fortalecer a perna. Sua ideia era resolver isso para depois voltar ao Karatê. Até hoje não voltou. Até hoje quer voltar. Ela já não faz musculação, mais tem uma casa para cuidar, responsabilidades para arcar… Coisas urgentes para resolver. Ela diz que assim que tiver tempo, voltará ao Karatê. E um dia abrirá uma escola.

Eduardo praticou dança flamenca anos atrás. Eu não sei por que ele parou, nunca perguntei. A foto de perfil de seu facebook é ele dançando flamenco, sua capa costuma ser uma espanhola. Eduardo é louco por flamenco. Desde que o conheci, ele me diz que quer voltar a dançar. Isso foi no início do ano. Na época, seu emprego mudara para um lugar distante de sua casa. E ele se lamentou: “Justo quando eu iria retornar ao flamenco! Agora não dará tempo.” Há alguns meses Eduardo sofreu um acidente de moto o qual provocou graves fraturas em uma perna. A primeira coisa que ele me disse foi: “Agora que eu iria voltar a dançar…”.

Existe muito do Eduardo, da Gisele e da Fabiana em mim. E creio que exista na maioria de nós. Infelizmente vivemos numa época onde o presente é anulado pelo futuro. Achamo-nos imortais. Pensamos ter tempo o suficiente para nos tornar o que quisermos. Amanhã faremos isso. Amanhã seremos isso. Assim que tivermos tempo para.

Muitos de meus amigos estão vivendo a difícil transição da adolescência para a fase adulta. Alguns deles têm 20 e poucos anos, outros 30 e poucos Não há idade. Amadurecer é encarar as inúmeras responsabilidades de manter-se vivo. Biologicamente um animal se torna adulto quando está apto para caçar e proteger-se. Somos animais, mas não estamos mais sob a lei da selva, mas sim sob a dos homens. A nossa sobrevivência é demasiadamente pesada e soterra. É difícil sonhar em um mundo onde ter um prato de comida é privilégio. Onde pessoas morrem por falta de atendimento médico. Onde incontáveis famílias residem sob um teto de papelão. A nossa sobrevivência é árdua e exige muito tempo. É um mérito de poucos conseguir embutir no sobreviver o viver. A vontade tende-se a ser aniquilada pela fatalidade. A relevância demandada pela circunstância.

Vivemos cercados – massacrados – por fatores externos que confinam nosso querer e determinam nosso viver. A conversão da realidade apenas é possível quando os fatores internos sobressaem aos externos. É um contexto delicado e complexo, principalmente em âmbitos sociais. Delimitando beiras individuai: é água mole em pedra dura. Só com muita insistência e esforços conseguiremos mudanças estruturais. Não há outra maneira. É preciso domar o tempo que nos arrasta. É preciso encarar a mortalidade que nos delimita. Só assim conseguiremos definir nossas existências.

O importante é sermos quem somos. A urgência do mundo pode esperar. Ou deve.

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