Rituais

Meu joelho doí. Minhas costas latejam. Meu peito estala. Minha cabaça explode. Me jogo na cama derrotada. Encharcada. Pisoteada pelo dia que passou. Uma voz surge: “Você está suja, encardida. Precisa de um banho. Um banho de ervas.” É verdade, preciso.

Vou até o jardim, corto sete ramos de arruda, um grande de manjericão e outro de alecrim. Lembro-me de quando me virava com ervas secas e tanto almejava uma horta. Agora ela está aí, diante de mim. Fervo água. Agora a casa inteira cheira à arruda. É um cheiro de infância, que me pega no colo. Lembro-me de uma amiga dizendo que poucas coisas não se resolvem com um banho quente e com um chocolate-quente. Sorrio. Abro a torneira do chuveiro. Eu nunca estive, literalmente, tão só. Por mais que tente direcionar esta solidão, ela muitas vezes me abocanha, e me estilhaça. Ontem foi um dia bom, hoje impossível. É o fluxo. Não linear e raso, mas curvilíneo e côncavo. Instável. Insustentável.

Entro embaixo d’água. Afogar os tormentos não é suficiente. É preciso lavá-los. Esfregá-los. Até clarear o que antes não se via. Vai encardir de novo. Esconder é encobrir. Ignorar é alienar. É melhor desse jeito mesmo: sujando e lavando. Sujando e lavando… Fecho a torneira. Jogo o chá pescoço abaixo.

Hoje é lua minguante.

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