Quase trinta anos

Amadurecer e Apodrecer

Surpreendi uma conversa entre minha irmã e sua amiga no início deste ano, elas comentavam sobre a idade que iriam fazer: 21 anos. E divagavam sobre como o tempo passa rápido e como estavam ficando velhas. Elas não estavam realmente falando sério, era apenas uma conversa descontraída entre duas amigas comentando sobre a passagem avassaladora do tempo. Ontem tinham acabado de sair da infância, hoje são praticamente adultas. O tempo costuma proporcionar tal concisão. O que é realmente sério é a bomba-relógio que o tempo costuma tornar-se depois dos 20 anos. Após sair da adolescência as pessoas encaram os anos a mais como anos a menos. A explicação disso não está exatamente no sentir-se velho, mas no sentir-se incapacitado perante a passagem do tempo. Há uma idealização coletiva que formata a idade adulta como uma fase de colheita, não de plantação. Quando adolescentes, idealizamo-nos na casa dos vinte com a vida “feita”: teremos independência financeira, moradia própria, carro, um relacionamento estável, um cachorro lindo… Mais do que uma idealização, isso é um inconsciente coletivo proveniente do senso comum de uma sociedade que extingue o individual em função do social. É preciso produzir, é preciso trabalhar, pagar impostos, sustentar o Estado, ter filhos, assegurar a espécie… Somos animais racionais ainda muito presos no instintivo. Quando por fim nos tornamos adultos e vemos que a realidade está à milhas do esperado; frustramo-nos, e começamos assimilar a passagem do tempo dentro de uma ampulheta, levando os grãos que afirmam o resto de nossa juventude e o respaldo do árido solo em que ainda pairamos.

Tanto eu como a maior parte de meus amigos, estamos nos distanciando dos vinte e nos aproximando dos trinta, isso para a maioria é desesperador. Exatamente pelos mesmos motivos da crise dos vinte, agora exaltados. E imagino que esta circunstância se repetirá nos quarenta, nos cinquenta, até o fim. Somos a geração Peter Pan; desejamos mais do que tudo continuar jovens e isentos da responsabilidades do amadurecimento – do envelhecimento. Em gerações atrás a vida era muita mecânica e primitiva, o dever da mulher era cuidar dos filhos e da casa, o dever do homem era sustentar a família. Hoje os valores mudaram e com isso a liberdade individual. Não há um roteiro a ser seguido, não há regras a serem cumpridas, e assim tão soltos; perdemo-nos.

Em “O diário Íntimo de Kafka”, o escritor expõem que há dois pecados capitais dos quais todos os outros decorrem: a Impaciência e a Preguiça. Ele diz que por causa da impaciência o homem foi expulso do paraíso e por causa da preguiça não voltou. Acho isso extremamente analógico. Somos desesperados e relaxados. Queremos tudo agora, na badeja e com um cafezinho por favor. É pedir demais? Não, é pedir de menos. O tempo é uma resultante. Se tememos o tempo é porque tememos nós mesmos. Há uma escolha intermitente a se fazer: escolher apodrecer ou amadurecer. É necessário estabelecer isso a todo o momento; se iremos definhar perante as dificuldades cotidianas ou nos fortalecer, se iremos nos exaustar perante o esforço requerido ou calejar, suportando assim ainda mais esforços – ainda mais vida. A reação é proporcional à ação, abstrair isso é imaturidade. Apodrece é o contrário de envelhecer; é não conseguir amadurecer.

Eu sempre fui uma entusiasta do antigo, sempre possui grande fascino por tudo o que é velho e vivido. Uma árvore, um móvel, uma quadro, uma música, uma pessoa; coisas com muita idade parecem possuir muita história. E eu quero conhecer o máximo de histórias o possível. Envelhecimento para mim é aprimoramento. É a chance de tornar-me melhor e maior. Seguindo a regra de arredondamento, se alguém hoje me perguntar quantos anos tenho, irei de boca cheia responder: “Quase trinta anos!”. E talvez achem estranho alguém parecer tão feliz por isso.

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