Vicissitudes

Há meses tive uma densa conversa com uma amiga sobre seus projetos de vida. Esta amiga cursou duas faculdades e desistiu de ambas profissões. Sua atual situação é uma busca por caminhos. Ela contava-me sobre sua ideia de fazer graduação em Artes Visuais, mas ainda estava apenas tateando, estava naturalmente insegura a respeito, confusa e dividida entre outras opções e interesses. Ao desenrolar da conversa, ela me mostrou sua grande vontade de capacitar-se como tatuadora neste momento. Vontade que na verdade vem de anos. Mas que só agora ela decidiu tirar do papel. Mesmo a graduação em Artes Visuais, parecia ser algo extremamente abstrato para minha amiga, uma vaga cogitação, o que ela mesma esclareceu: “algo para daqui a um tempo”. Por enquanto, o interesse de minha amiga é a especulação, não a decisão.

Prontamente eu a repreendi muito. Disse todo aquele discurso moralista sobre postergar o hoje em função do amanhã, sobre o perigo de deixar a insegurança nos paralisar diante da escolha… Expus também a minha desaprovação à prioridade de torna-se tatuadora: “Olhe onde uma faculdade poderia te levar! Quais são as possibilidades de sucesso trabalhando com tatuagem? Há um tatuador em cada esquina! Isso é uma necessidade de ego apenas…”. Por fim, minha amiga alegou que esta era a sua vontade de agora e que se sentiria mal abandonando isso, por mais leviano que pudesse ser.

Hoje eu vejo que a leviana fui eu, não ela. Esta é uma ordinária mania: a de julgar a vida alheia em função da nossa própria vida; de nossa própria verdade. Diferentes vidas possuem diferentes verdades. E principalmente: diferentes tempos. A pausa é tão precisa quanto a ação. Do que adianta buscar se não soubermos o quê? A ação é a maturação do pensamento. Antes de definir, é preciso refletir. E acima de tudo, não existe convicção. Existe tentativa. Não há certezas. Há suposições. Mais do que nunca vejo que a veracidade parte do questionamento. Esta minha amiga está no tempo de descoberta dela. Se ela quer fazer outra faculdade, um curso livre, ou apenas trabalhar em um serviço qualquer; é só com ela. É a necessidade dela. E mesmo que tudo isso seja um erro, como dita leis maiores é preciso errar para acertar. Só descobrimos o caminho ao caminhar. Ou melhor, caminho não há. Caminho é construído, não descoberto.

“Caminante, no hay caminho / se hace camino al andar.” – Antonio Machado

Esta amiga é só um exemplo de tantos outros julgamentos errantes que fiz ou tenho feito. Aos outro e a mim. Muito mais que errantes: indevidos. Meu ex-namorado, por exemplo, escolheu ser engenheiro por status. Ele se quer gostava de exatas, gostava de humanas, queria estudar psicologia, mas, isso não dá dinheiro, dizia ele. Então optou por engenharia e seu poder. E logo quando começou a faculdade já se apaixonou pelo curso, e tornou-se o melhor aluno da classe. Isso se chama programação mental. A convicção parte da sugestão e transforma-se na afirmação. Eu pessoalmente jamais faria uma faculdade em cima destes alicerces, mas esta é uma verdade minha, uma razão minha. Não dita nada a mais ninguém. Precisamos soltar nossos porquês para agarrar os dos outros. Sempre.

Escrevi alguns textos sobre a minha experiência de trabalho neste ano no setor administrativo, e me posicionei com a mesma prepotência de julgamento. Não é porque eu acho o trabalho em escritório horrível que este seja horrível. Possuo vários amigos formados que ralaram em concursos para entrar em cargos administrativos e fazer o mesmo que eu fazia. Eu costumava a olhar com calafrios: “Meu Deus, tanto estudo para isso?! Para digitar dados numa planilha no Excel?!”. Quanta leviandade Aline…

Há pouco tempo também, uma amiga me disse uma árdua frase. Ela contou-me que poderia fazer tal coisa pois: “Até os 30 anos minha mãe falou que me sustenta.” Aquilo me chocou. Como se confortar com isso? Como permitir isso? E mais uma vez, agora, vejo quão ridícula eu fui. Na verdade, hoje já penso totalmente o contrário: Quê bom que ela pode contar com o apoio da mãe! Quê bom que ela pode fazer o que quer sem preocupar-se ou podar-se por dinheiro. Tem mas é que aproveitar isso! Mas claro, eu conheço o caso desta amiga, sei que sua mãe pode a ajudar financeiramente sem assim lecionar-se. Errado mesmo é o que prejudica; a si e principalmente aos outros. O resto é livre arbítrio. Apenas.

Minha vida até agora fora embasada em diretrizes forjadas pelo orgulho. Sem dramas, posso e preciso reconhecer isso. A veracidade de minha essência foi esmagada pelas necessidades de aparência. Hoje, admitir isso é imprescindível. Sinto-me artificial. No meio da escuridão eu paro e indago estar seguindo a direção errada. E entendo que o caminho é feito pelos passos. O erro está em mim, não fora. É escuro porque minhas mãos estão vazias, não há vela, não há lanterna. É escuro porque meus olhos estão fechados. Não era o caminho que me levava para baixo, era eu que cavava com os pés. É escuro porque me mantive num buraco.

Como um clarão deparo-me com a frase: “Sonho é destino” – Waking Life. O destino é a consequência da vida. A consequência de nosso modo de viver. Se não definirmos para onde estamos indo, caminharemos rumo a qualquer lugar. Independente de quantas vezes mudarmos de foco, de escolha, de opção; sem sonhos, sem direcionamento, estamos perdidos.

Caminante no hay caminho /sino estelas en la mar.”

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