Letargia

Um dos meus principais problemas, ou talvez o principal, é a indisposição. Todos os dias quando acordo, independente de quanto tenha dormindo, parece que voltei de uma guerra – ou que estou indo para uma. Meu corpo inteiro doí, minha cabeça doí, meu estômago doí. Qualquer pedaço de pano a ser levantado parece pesar toneladas. Qualquer coisa a ser feita parece suficientemente inútil. Sem graça. Sem por quê. Se me permitisse, ficaria o dia inteiro na cama, escondida, protegida. Meu relógio biológico é noturno, mas não é isso que estou abordando. Durante a noite me sinto melhor, mas o ânimo ainda não desperta. Durante minha vida inteira sempre, sempre, foi assim. Não me interessa o nome disso, não me interessa rótulos, me interessa conteúdo. Apenas desvendando o interno que a gente consegue lidar com o externo.

A indisposição do antes não tem nada a ver com o durante. Quando começo a fazer algo por fim, seja o que for; desde faxina a tocar violão; aquilo se torna imensamente prazeroso. Lembro-me da época de cursinho quando pela primeira vez estudei matemática com afinco, e comecei a amar aquilo. Ou mais tarde quando fiz contabilidade. E não, não são conteúdos que me interessam nem um pouco, mas a simples ocupação da mente me faz um bem danado. É por isso que trabalho operacional é um tipo de morte para mim, pois é mecânico. Não há racional nisso. É robótico. É maquinário. É vazio. A mente vazia me exausta. E cheguei à conclusão que é este o problema da letargia: a inércia propagada pela falta de impulso. É um círculo vicioso. Como um quarto fechado onde o vento não entra. Nosso corpo é uma junção muscular coordenada pelo cérebro. Se esta cabine de controle não for exercitada, atrofia. É tudo energia, é tudo imantação. Uma grande carga energética proporcionará uma grande produtividade. Baixa energia proporcionará baixa produtividade. E energia é espira, é movimento induzido e mantido. Enquanto não for mexido, continuará no chão.

Eu sou extremamente nervosa. Este é o problema de ficar desocupada. Quando possuo um afazer, minha mente é direcionada e assim acalmada. A meditação se aplica nisso; na ocupação direcionada dos pensamentos. É uma tarefa árdua. O não pensar é um constante pensar. Para esvaziar a mente, é preciso preenchê-la.

Quando adolescente eu ia num psicólogo que me dizia algo muito interessante sobre isso. Ele dizia que o meu problema é a minha altíssima carga de energia interna. Seria como um animal selvagem numa jaula. Obviamente, o animal se tornará extremamente estressado e deprimido. O que eu precisava religiosamente, ele dizia, era usar esta energia; gastar esta energia. Só assim conseguiria bem-estar. E naturalmente isso se aplica a todos nós, em diferentes intensidades. Exatamente pela questão do magnetismo. Ou numa delimitação biológica, pela adrenalina desprendida da energia.

Diariamente, estou indo estudar na biblioteca municipal. Estou sem trabalhar, esta é outra situação bem perniciosa para mim. Estou sem trabalhar e estudando por conta. Não ter compromissos externos me deixa totalmente perdida. Exatamente por esta questão de disposição. Isso também está vinculado com aquele conceito que já expus aqui antes: mais tempo é menos tempo. A autodisciplina é de grande autosabotagem, e quase sempre sucumbi à procrastinação. Enfim, visando uma melhor disciplina, estou indo até à biblioteca estudar. Quando chego lá estou extremamente incomodada. Desanimada, cansada, sonolenta e irritada. Até começar o processo de indução. Depois de meia hora mais ou menos, e algumas idas ao banheiro para lavar o rosto, consigo por fim concentra-me. E aí me esqueço do mundo. E esta é uma das melhores sensações do mundo.

E esta reflexão não se refere só ao estudo acadêmico, mas a tudo. Ontem, domingo, tive um péssimo dia, estava totalmente triste e exausta – como quase sempre. Até que no fim da noite forcei-me a trabalhar num quadro que estou finalizando. Comecei a fazer isso arrastada. Não tinha a menor vontade de pintar. Mas quando comecei a fazer, morri de tesão. Pintar é uma das coisas que mais me despertam prazer. O desanimo como sempre, é antes. Durante é energia, não mais letargia.

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