Adeus, adeus

Às vezes eu sinto o futuro como se pisasse em cima. Sinto com a segurança de um saber. E vejo tanta coisa pela frente. Meus sonhos transbordam, inundam o chão, e eu mergulho. Outras vezes sinto-me morrer diariamente. Constato minha saúde tão frágil, minha mente tão cansada, minha alma tão escura. Às vezes não consigo nem chegar ao final do dia, e o futuro se torna apenas uma história distante, quase fictícia, daquelas que costumávamos a ouvir quando criança, e costumávamos a acreditar.

Independente de minhas inconstâncias, todos os dias eu vejo o tempo passar. Vejo com a voragem de um sentir.

Hoje a vida é uma urgência. Hoje nada o que não seja vida importa. Porque não há tempo para isso. Hoje eu pego tudo o que me agride, tudo o que me esvazia, tudo o que me soterra e deixo para trás. Pessoas, principalmente pessoas. Hostilidade, para quê hostilidade? Para que falsidade? Para que toda esta falta de reciprocidade? Eu não sei. E não quero saber. Abandono não com rancor, mas com íntegra gentileza. Gentileza por mim, pelo outro e principalmente por nós.

Este ano foi ano de sangue. Nunca antes havia cortando tantas partes em tão pouco tempo. Partes que só apartavam, só apodreciam e não estancavam.

Eu quero tudo o que há de melhor. Eu quero proporcionar o melhor. O resto só ocupa espaço. Só sufoca e não preenche. Só prende.

Eu quero veracidade. Eu quero autenticidade. Eu quero nobreza. Eu quero o fascínio do extraordinário, não a falácia do ordinário. Não, eu não aceitarei mediocridades. Eu não fornecerei mediocridades.

E acima de tudo eu quero paz. Paz é energia. Energia nossa e daqueles que nos cercam. Então, se não há passionalidade, se não há mutualidade, se não há bondade… Adeus, adeus.

O único sentimento que quero possuir é carinho, o único sentimento que aceito receber é carinho. O resto é alheio.

Aquela Aline não existe mais. Nem aquela tolerância, ou mera resignação. Doí muito viver, a morte é vital para a continuidade do ser. Renascer é necessário. Reinventar-se é preciso.

A finitude da vida me habita os olhos. Tudo isso é tão frágil, tão fugaz, tão restrito. O mundo já parece grande demais e os limites pequenos o bastante.

Encontramos muitas pessoas no caminho. Elas estão lá para nos ensinar e para aprender. Tão importante quanto chegar é partir. Pessoas se vão, pois precisam continuar suas próprias jornadas. E muitas vezes, percorremos caminhos tão distintos e nos tornamos pessoas tão diferentes, que uma fatal incompatibilidade surge. A relação que antes acalentava agora congela. O contato que antes acrescentava agora esvazia. Por isso é necessário saber ir e deixar ir. Só assim conseguimos ficar em paz e proporcionar paz. Saber deixar faz parte de saber amar.

Precisamos continuar. Precisamos ir. Precisamos expandir.

Velo-te como um anjo. Nossa mortalidade tornou-se mortífera.

Adeus, adeus.

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