Em terra de fome quem tem comida não se importa

Uma de minhas melhore amigas se alimentou à base de ração de cachorro uma época. Porque não tinha dinheiro pra comprar comida. Ela tinha dois empregos. Trabalhava de dia e à noite. Mas o salário, não dava para sustentar ela e o filho. Era ou ela comendo bem ou o menino.

Eu nunca antes tinha visto alguém passar fome, não perto de mim, não alguém que fazia parte da minha vida. Infelizmente, muitas coisas é preciso ver para conseguir entender.

O que mais me entristeceu nesta eleição foi perceber através do facebook quantos amigos meus desconhecem por completo a realidade social de nosso país. E me doeu muito constatar que estes amigos são os mais bem criados. Os que tiveram os melhores estudos, as melhores oportunidades, as melhores vidas. Estão confinados dentro de suas realidades e não conseguem olhar por cima dos altos muros de suas casas de luxo. Estes amigos estão preocupados com a economia, com a bolsa de valores, com o dólar, com o mercado internacional. Estão preocupados com a viagem ao exterior que farão em dezembro, preocupados com o rendimento da poupança e do CDB, preocupados com o alavancar de suas carreiras, com o lucro de suas empresas, com os seus investimentos imobiliários. Estão preocupados com si mesmos e abstraem por completo que eles, nós, somos a minúscula parcela privilegiada do país. Como priorizar economia em um país onde milhares de pessoas morrem de fome? Ou de falta de atendimento médio? Como mandar estes miseráveis trabalharem se onde vivem nem saneamento básico existe, quiçá emprego? Como almejar mais empresas no Brasil de 13 milhões de analfabetos? Fora os alfabetos funcionais. Não há profissionais qualificados. Não há se quer educação básica qualificada! Como priorizar o capital perante tal calamidade social? Como colocar o individual a cima do social? Não penso que estes meus amigos sejam más pessoas, até porque os conheço, só posso deduzir que estejam desinformados. Como ensinar a pescar onde não há água? Literalmente.

Este país é muito grande para sermos tão pequenos.

Concluo com o admirável relato da escritora e publicitária gaúcha Maya Falks.

“Quando eu me envolvi em causas sociais, fiquei chocada no quanto eu era cega para a minha própria sociedade. Fiquei chocada como eu choramingava por não poder comprar o celular mais caro do mercado enquanto não muito longe de mim uma criança dormia choramingando de fome.

Na ocasião vi um documentário que mostrava uma criança que devia ter uns 7 anos, mas parecia ter 4 pela desnutrição exagerada. Na imagem, a criança saía de um barraco estupidamente precário, andava uns 4 passos e caía morta.

Morta. De fome.

Eu nunca me recuperei do choque de saber que no mesmo país que eu vivo bebês morrem porque o leite da mãe não existe, porque ela está anêmica. Porque ela, desdentada e fedorenta por não ter água e esgoto, fraca pela fome, não tem como conseguir emprego, quem daria emprego a ela? QUEM?

Eu vi nesse mesmo documentário, criança chupando pedra pra enganar o estômago. Criança pegando com a palminha da mão um pouco de água de uma poça enlameada. Eu vi criança de 7 anos descascando cana a 2 reais por semana porque pelo menos com os dois reais de cada irmão, dava pra comprar arroz. 7 anos, 12h por dia de trabalho, sem tempo pra escola. Vão morrer jovens porque o corpo não aguenta, e vão morrer sem jamais ter comprado nada que não fosse estritamente necessário pra se manter minimamente vivos, minimamente fortes para voltar às 12h de labuta pesada no dia seguinte.

O que os sobra de bom na vida é o sexo. Ele é natural, é primitivo, não precisa de posses nem de ensino. O que precisa de ensino é a prevenção, isso eles não tem. O governo distribui camisinha e anticoncepcional, mas o padre da vila não deixa usar porque Deus mandou procriar. Eles nem imaginam como usa. A gravidez acontece, a lei não deixa tirar. O bebê nasce e toda a gente que não liga pra nada disso ajuda a matar.

Eu também era contra programas assistenciais do governo. Hoje eu não tenho estômago para achar absurdo que centavos do meu imposto caiam no prato dessas crianças.

Quando a vida real de milhares de pessoas te estapeia as fuças, não tem mais volta.”

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