Quando você se foi antes de nos deixar

Meu avô faleceu antes de morrer. Talvez tenha ido quando começou a ver espíritos pela casa: – Lurdes! Vem cá! Meu pai veio nos visitar! – Lurdes! Diga para esta mulher sentada em minha cama ir embora!  Ele, tão contido, tão cético, falando sobrenaturalmente. Não diferenciava mais as coisas, os mundos, e nem sentia mais as dores. Ou os prazeres. Meu avô parou de comer, não sentia fome. Parou de andar, porque só dormia. Não havia depressão ali, não havia consciência mais. Quando a sua Lurdes estava o alimentando, ele adormecia. Sem perceber. Ele não conseguia mais se manter acordado. Ele não mais entedia, sentia. A vida lhe era um plano estranho, longe, rarefeito. Meu avô não mais estava ali, era só o seu corpo. Só o seu corpo dia a dia se desprendendo. Partindo.

Eu sempre soube como meu avô finalmente iria. Dormindo. Sem alarde. Minha vó, coitada, acordaria e não mais encontraria o seu marido, ou o que restou dele. E foi assim que aconteceu.

O vô morreu em paz vó. É o que todos disseram. O vô teve a dádiva de partir antes de morrer. Deveria ser assim, talvez. A gente não sabe quando nasce, bonito morrer sem saber. Talvez renascer seja isso.

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