Meu 2014

Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto
. – Alberto Caeiro

Demorei, demorei, demorei para entender o que é mudança. Mudar é recomeçar. Recomeçar é surgir. Surgir é vazio, antes de tudo. Mas eu não queria o vazio, totalmente ao contrário; o meu desejo de mudança era guiado pela necessidade de preenchimento. Assim, sempre parti ao encontro do oposto do que procurava. A lei do eterno retorno. Novamente recomecei, novamente desabei, dentro de mim mesma.

2014 foi um ano de sangue. Como nenhum ano fora antes. Houve a exaustão, em 2013 me mudei/voltei para Araraquara-SP, em menos de um ano parti/fugi para outro estado, em uma cidade a qual eu não tinha nada ou ninguém. Em uma cidade onde eu esperava encontrar tudo. Mas tudo surge do nada. Uma amiga escreveu que todo recomeço é um parto, com sua espera, sua dor, sua adaptação e provavelmente sua depressão. A expectativa gera a angústia. Porque o sonho não cabe na realidade. A realidade é pequena, é segmentada, é lenta. Já o sonho é tudo e é todo. Meu sonho asfixiado sangrou, e sangrou, e sangrou.

A novidade é processada lentamente pela mente. Por isso uma semana viajando tende-se a parecer um mês. Por isso quando conhecemos alguém e nos apegamos, parece que o conhecemos toda vida. 2014 é uma vida. E uma morte. Eu não sou a mesma que cheguei. Neste ano eu mudei de ideologia, eu mudei de meta, eu mudei até de cabelo. Esta é a parte mais fascinante e válida de partir: é impossível não se transformar. Partir para o desconhecido é partir de si mesmo.

Há uma crucial diferença entre metamorfose e inconstância: a primeira vai enquanto a outra fica. Por toda a minha vida eu sempre vivenciei uma interna transcendência; minhas cascas caíram porque aumentei, não porque descamei. Sempre uma mudança foi o complemento, o acerto da outra. E hoje, exatamente hoje, consigo perceber e compreender isso. É preciso se lançar para poder voar, e o princípio sempre será um precipício. O medo de cair, de errar, é o que paralisa. E a inconsciência da queda é o que frustra. Saber voar é aprender a cair.

A minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai”. Lispector me traduz. Eu cheguei aqui cega, de olhos fechados e corpo aberto. Em 2014 eu apreendi a enxerga, porque a visão já não é a mesma.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s