Maior Abandonado

É difícil se livrar de algumas coisas. Como o peso de um móvel velho demais. Quando me mudei de São Paulo, praticamente todos os meus poucos móveis estavam em ruínas; guarda-roupa em pedaços, sofá-cama em retalhos, cômoda e escrivaninha que eram pura serragem. Não dava nem para doar naquele estado. Era jogar fora mesmo. Em São Paulo, como na maioria das cidades, há o serviço de coleta de entulho da prefeitura. Só que há datas específicas e eu não consegui conciliar a coleta com a saída do apartamento. Acabei precisando contratar uma empresa de descarte ecológico, mas, não cheguei a usá-la.

Quando contei para a minha vizinha que iria me mudar, ela prontamente perguntou se eu iria descartar algum móvel. Mesmo depois de ver o estado, ela quis ficar com todos. Eu possuía dois guarda-roupas pequenos e um grande que utilizava na cozinha. Eu não conseguia imaginar como ela iria conseguir tirar aqueles armários destroçados de meu apartamento, mas ela disse que daria um jeito; disse que ela e o marido dariam um jeito de subir com os armários escada acima, já que era impossível desmontá-los devido aos danos. Para mim ruim o bastante, para ela bom o suficiente.

Esta vizinha, a Rosana, o seu marido já idoso e suas três filhas pequenas, conseguiam morar ali naquela sobreloja na rua Augusta trabalhando para o proprietário. Era um cortiço onde morávamos, mas hipervalorizado pela localização. Rosana era tipo síndica do lugar; lavava as escadas, corredores, estregava as correspondências, e mais o que precisasse. O dono que tinha um restaurante em baixo também a ajudava dando a comida diária que sobrava. Ela me contou que precisava morar ali pois o Tito, seu marido, trabalhava a poucas quadras. Ele não teria condição de pagar transporte público se morasse longe, explicou. E pela sua idade, ninguém o contrataria mais. Então, conseguiu negociar com o proprietário e se ajeitar ali, no muquifo de ouro. Em 2009, quando eu me mudei para ali, aquela região não era tão valorizada; a rotulada baixa Augusta era uma zona decadente de prostituição e tráfico. Havia dois bares na minha rua e o resto, prostíbulos. Com o passar dos anos aquilo rapidamente mudou. Os prostíbulo fecharam e no lugar baladas abriram e prédios residências foram construídos. Com isso veio a hipervalorizarão do local. Meu aluguel dobrou em 2012, chamaram isso de “correção mobiliária”, ou algo do tipo. Foi quando me mudei.

Rosana chegou a ter uma ordem de despejo. Mesmo com o desconto que o proprietário lhe concedia, já não conseguia pagar o aluguel. Tentou abrir um negócio próprio como costureira para aumentar a renda, se meteu com agiotas e quase morreu por isso. Uma de nossas noites de terror foi quando o seu marido fora esfaqueado, ali mesmo, onde morávamos. O motivo: 200 reais atrasados. Felizmente não foi nada grave, os cortes foram supérfluos, mas as marcas profundas. Por sorte uma grande amiga estava comigo, ela ficou com as meninas na minha casa enquanto eu tentava fazer algo; chamar a polícia, a ambulância, fazer algum curativo, dizer qualquer coisa, prometer qualquer paz… Rosana estava em choque. Sentada na escada se balançava e chorava. E chorava. Era um choro de vergonha, de culpa. Parece que quanto mais nos defendemos, mais a vida ataca. Aquela mulher fazia um esforço sobrenatural para conseguir viver e manter a sua família. Era uma rocha nos ombros e um desabamento vindo do céu.

Rosana também trabalhava de faxineira nos apartamentos. Ela limpava às vezes a minha casa e gostava muito de minhas flores. Quando fui embora a dei um vaso de azáleas. E ela chorou, emocionada. “Você é muito boa” ela dizia, em lagrimas. Não, eu não sou. Não mesmo.

Em Curitiba, todos os dias vejo móveis abandonados na rua. É difícil se livrar de algumas coisas. É sempre mais fácil abandonar, desejar e acreditar que alguém dará um jeito nisso. Alguém dará um jeito em nossas vidas ao relento, destroçadas, abandonadas.

Lembro-me de Rosana, de sua força, de sua necessidade. Meus entulhos tornam-se diamantes quando penso em Rosana. O peso de minhas costas, uma pluma. Somos todos desamparados nos mais diversos níveis e perspectivas. A felicidade é sempre uma relatividade. A época que mais fui feliz em minha vida foi quando trabalhei na área social como professora de dança. Além da vital sensação de utilidade, todos os dias eu presenciava uma dor fora do meu dialeto. A dor que eu conhecia não era dor. A minha tristeza não era triste, era só tristeza. Para alguns um móvel velho demais, para outros, bom o bastante. Olhar fora de nossas janelas particulares parece ser a única forma de salvação, nossa e do mundo.

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