Bianca é assim porque tem Boderline

Ela costuma se cortar quando briga com o namorado. Eu estou me cortando! – grita. E está. Da última vez os cortes foram profundos. Se eu não tivesse chego a tempo ela teria morrido! – desespera o namorado. Ela, foi diagnosticada com Síndrome de Boderline. Está tomando três medicamentos controlados: um antidepressivo, um ansiolítico e um estabilizante de humor. Mas, nada muito diferente do que sempre tomara. Bianca há tempos faz uso de psicoativos. Sem efeito. É porque pensaram que ela tinha depressão! – explica o namorado. Agora descobriram que é Boderline. E depois? Pergunto. Quando as atuais drogas não fizerem mais efeito? O que dirão que ela tem?

Bianca é assim porque tem Boderline. Ler a descrição da doença é ler a Bianca. Comportamento autodestrutivo, mudança repentina de humor, agressividade, possessão, pânico de abandono, mutilação, instabilidade… Tudo bate. Pobre Bianca, se não fosse o Boderline seria uma pessoa feliz e normal. Seria?

Pergunto-me se o psiquiatra que diagnosticou Bianca quis saber sobre a vida dela. Sobre como ela saiu de casa ainda adolescente porque era agredida pelo padrasto. Sobre o pai ausente. Sobre a mãe desinteressada. Sobre o trabalho que odeia. Sobre a falta de condições para estudar. Sobre as tantas mudanças de casa. Sobre os tantos problemas da república em que mora. Sobre a solidão que a devora. A falta de amigos. A falta de perspectiva. Bem, eu acho que não. O psiquiatra deve ter perguntando sobre os sintomas, não sobre as causas.

Todos nós somos doentes mentais segundo os manuais de transtornos psiquiátricos. Todos nós possuímos alguma depressão, síndrome, anormalidade. Nossos problemas são tratados como patologias. Nossas marcas como desiquilíbrios. Somos assim porque estamos doentes. Se não fosse tal doença não seríamos assim. É mais fácil deste modo pensar. É mais confortante não se responsabilizar. A culpa é do transtorno, da síndrome, da depressão… Não nossa, não da vida que tivemos e temos. Curar a vida é muito mais complicado do que curar uma doença. É esta a lógica da medicalização das emoções; da medicalização da vida. Tome aqui esse lítio que tudo se resolverá. Dois prozacs por dia e irá melhorar! Terapia para quê? Para quê compreender e superar nossas dores, traumas e vícios, se podemos engolir um comprimido e acreditar que tudo ficará bem. Só que não, quase nunca fica, quase sempre piora. Precisando assim de doses maiores, remédios mais potentes e novos transtornos que justifiquem nossos desatinos.

Bianca não é assim porque tem Bodelirne. Bianca tem Boderline porque é assim.

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