Mas pai a sua filha…

Uma moça estava no banheiro da biblioteca falando ao celular. Ela falava empolgada, contando detalhes de sua rotina. Parecia falar com a melhor amiga até dizer “pai”.

Aparentemente, ou obviamente, não moravam juntos, porque se morassem a maior probabilidade é que mal se falassem. O que dirá compartilhar delicadezas como vontades e receios: – Mas pai, a sua filha é alguém que gosta de tudo! E quer fazer tudo! Eu adoro matemática e biologia. Mas também queria me focar na música… Então estou nesta perdição!

Quando moramos com a família dificilmente conseguimos estabelecer um laço de amizade, principalmente com a figura do pai, usualmente distante com o seu papel social de garantir segurança financeira, não exatamente emocional. A questão não é exatamente o parentesco, mas a intimidade e o seu poder de banalização e alienação. Isso tende a ocorrer com qualquer relação sobre tal circunstância: dividir a casa com amigos, namorado, marido. Se vejo a pessoa todo dia, qual a necessidade de dar boa noite? Perguntar como foi seu dia? Ou como se sente? A rotina transforma pessoas em objetos, como se a sua função fosse estar ali, apenas. Quando ocorre o distanciamento, principalmente no contexto familiar, os laços costumam se apertar pela falta, pela perda da constância que fazia daquele um pilar imóvel, e que agora anda e se vai. Como a língua espanhola expressa com exatidão: “Te estraño!” Estranho a sua presença, não mais aqui. Precisamos perder para conseguir ganhar. É engraçado isso. Precisar se afastar para conseguir se aproximar.

Eu saí do banheiro muito emocionada. Lembrei fortemente do meu pai, de como tudo isso que acabei de descrever ocorreu conosco, de como sou grata hoje por poder ligar para ele e dizer: Como você está pai? E ouvir: Como você está filha?

A arte de conviver. Não existe nada maior. Ter uma relação harmoniosa à distância é fácil. O desafio está naquela relação constantemente minada pelos desgastes do dia a dia. Se eu tiver um filho quero me lembrar disso a todo o momento. Quero me sentar em qualquer canto da casa e conversar com ele, não apenas falar com ele, quero saber como foi o seu dia e assim, ensiná-lo a fazer o mesmo. Porque a tendência é tratar como fomos tratados. Amar como fomos amados. Não há nada mais determinante do que o contexto familiar.

Acredito que a superação pessoal seja a engrenagem de nossas vidas. Hoje o meu maior orgulho é ter resgatado e transformado a relação com os meus pais. Não importa se precisei sair de casa para isso. Importa o que somos hoje. Hoje somos uma família não porque temos um sangue em comum, mas porque temos uma sólida relação à base de amor, amizade e companheirismo.

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