Frágil

A minha mesa estava vazia, a padaria estava cheia. E mesmo assim ela me escolheu. Sua assimilação canina já a ensinara que quem senta é porque espera comida. E sua sensibilidade instintiva, tão acima da nossa racionalidade errante, talvez, já tinha me reconhecido, farejando a minha empatia transbordada. A pequena cadela com suas grandes e murchas tetas sentava-se ao meu lado, como fosse minha, como eu fosse dela. Seus olhos caramelos profundos olhavam os meus com serenidade e confiança. Eu estava triste demais para agradá-la; triste por sua necessidade, triste por minha impotência. Meu lanche chegou, ela, ao invés de pedir, deitou. Fizera de minha presença uma efêmera segurança. Uma certeira espera. Acabei de comer e fui ao caixa pagar. Ela aguardava no mesmo lugar. Pedi um pão de leite. Saí, fiz sinal para me seguir e dei o pãozinho. Ela não comeu, apenas delicadamente o mordeu, como um bem valioso que precisasse guardar. E me acompanhou até o fim da calçada. Por um momento me preocupei, só faltava esta cachorra me seguir! Mas não, foi apenas se despedir, rapidamente virou-se e correu com o pão entre os dentes para um terreno logo ali, onde a sua ninhada a aguardava.

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