A moradora da Biblioteca Municipal de Araraquara

– Sobre o não lugar do doente mental

Quem entra na biblioteca municipal Mario de Andrade em Araraquara-SP encontra no saguão a seguinte cena: uma mulher dormindo em cima da mesa de leitura de jornais cercada por vários grandes sacos. Sob a sua cabeça debruçada nos braços, jornais e revistas abertos.

Passei uma semana em Araraquara frequentando a biblioteca todos os dias para estudar, chegando de manhã e indo embora à noite. Segunda-feira foi o primeiro dia que a vi, pensei em se tratar de uma catadora que entrou na biblioteca para descansar um pouco, ou quem sabe ler mesmo. Mas à noite ela continuava lá, intacta dormindo sentada sobre a mesa. Fui embora achando estranho. Apenas.

Terça-feira eu já nem me lembrava da cena. Até chegar à biblioteca. Ela estava ali, com a mesma roupa, os mesmos sacos, a mesma posição. Era como se fosse uma estátua. E os leitores também pareciam assim a ver. A mesa estava sempre cheia, todos lá lendo, concentrados, abstraindo por completo a mulher de pedra centímetros à distância.

Quarta-feira já foi demais para mim. Fui conversar com os funcionários a respeito de chamar a Assistência Social. “Não faça isso!” – disseram. E foi aí que fiquei sabendo a primeira história da moradora da biblioteca.

“Ela fugiu de casa porque era agredida pelo marido. Tem pânico total dele! E foi internada à força sabe. E pensa que a qualquer momento farão isso novamente! Então ela suplica para ninguém contar que está aqui. Uma vez viu um policial na rua, pela janela, você não imagina o desespero dessa mulher! Ela começou a chorar, gritar, saiu num correrão e só voltou dias depois! Largou todas as sacolas até. Ela é bem agressiva também sabe. Não deixa perguntar muita coisa não. E ela é bem lúcida sim! Conta para todo mundo a mesma história! E se preocupa se está atrapalhando. Pergunta todo dia se está atrapalhando, se pode ficar aqui. Aonde ela vai quando a biblioteca fecha? Se prostituir! Vários funcionários já a viram aí transando, na rua mesmo. Sabe como é né, tem tanta gente maldosa nesse mundo! E se aproveitam da situação da pobre coitada… A gente a vê com um bolo de nota de dois. Deve se prostituir por 2 reais…”

Voltei para a casa mais cedo e liguei para a Assistência Social. Combinamos de eu entrar em contato no dia seguinte para confirmar se ela estava novamente na biblioteca. Certificando-se disso, eles enviariam assistentes para averiguar o caso. E como o esperado, ela estava.

– Bom dia Kátia! Não meu bem, não vim buscar você! Calma, calma, eu não vou te levar! Eu alguma vez já te fiz algum mal? Não Kátia, Não! Não foi o seu pai quem me mandou aqui! Algum frequentador da biblioteca te viu aqui dormindo, pensou que você estava precisando de ajuda e me ligou! Eu nem imaginava que era você!

A segunda história é diferente da primeira. Porque não foi Kátia quem contou. Quem contou foi a assistente social que contou o que o pai de Kátia contou. Kátia não contava. Não contava porque era uma doente mental. E com o pior tipo de doença mental: esquizofrenia.

“Bem, acompanhamos a Kátia há tempos, mas não imaginávamos que ela estava aqui. Esse é um caso complicado, bem complicado. Primeiro porque ela é mental e segundo porque ela tem família. Ou seja, ela não é uma moradora de rua, ela está na rua. Entende, são coisas distintas. A prefeitura não pode oferecer abrigo à ela, não há estrutura para receber casos assim na casa transitória. E principalmente, ela tem família. Se pegamos um indivíduo nesta situação e oferecemos proteção, a família abre mão. Para a família já é um fardo lidar com isso, se souberem que a pessoa foi resgatada pela assistência, acabam por achar que o caso foi resolvido, que a pessoa ficará para sempre sob os nossos cuidados. Entende, não funciona assim. Não podemos contribuir para mais um morador de rua. Não podemos correr o risco dela perder o estreito laço que ainda resta à família. O que estamos fazendo é ajudando o pai dela com o pedido de internação através do Ministério da Saúde, mas isso é demorado, não há vagas para todos. Se ela precisa mesmo ser internada? Mas é claro! Ela precisa ser internada para ser estabilizada para assim poder receber tratamento. Aonde ela será internada? No Hospital Psiquiátrico Caibar Schutel, mas isso é temporário, apenas para ser estabilizada mesmo, depois será transferida para uma clinica especializada, um lugar que ofereça maior proteção à ela, o Caibar não é totalmente fechado, ela pode escapar…”

Eu perguntei por que ela tinha tanto medo do pai. Porque é esquizofrênica e distorce a realidade. Eu perguntei por que foi internada à força, pois isso é proibido – a própria assistente confirmou. Porque é esquizofrênica e estava em total descontrole. Eu perguntei se não haveria como ela se consultar com um psiquiatra, psicólogo, se a prefeitura não viabilizava isso… Ela fez tratamento com o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), mas sem resultado – explicou. Perguntei se não era um direito dela não querer voltar para a casa, e sendo assim, ela já seria uma moradora de rua, pois estava em total desolamento. Não, ela não tem faculdades mentais para decidir isso. – explicou. Porque é esquizofrênica.

Sexta-feira entrei em contato com Caps. E soube de mais uma história. Ela se quer chegou a por os pés no Caps. O pai procurou o Centro, mas ela recusou-se a ir. Nesta caso, segundo o Caps, a única medida que resta é a internação compulsória para que ela consiga receber o devido tratamento. Há uma ironia aqui, escrita pelo próprio Ministério da Saúde:

“Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são instituições brasileiras que visam à substituição dos hospitais psiquiátricos – antigos hospícios ou manicômios – e de seus métodos para cuidar de afecções psiquiátricas.”

Faltou especificar que isso apenas se aplica para casos brandos, onde o indivíduo possui consciência de sua patologia e busca ajuda. Para casos severos e complexos como o da esquizofrenia, a exclusão social ainda é a resposta; a única resposta.

Kátia irá certamente apodrecer num hospício. Ela será “estabilizada”, como a assistente explicou, ou seja: dopada de remédios que em tempos e tempos perderão o efeito e precisarão ser substituídos e potencializados. Esquizofrenia não tem uma cura fácil, rápida ou específica, assim; não tem cura para uma sociedade condicionada a resolver tudo aqui e agora com uma cápsula milagrosa. Qual a paciência e persistência direcionada a um esquizofrênico em um hospício público?

A solução é a internação. É a solução para a família, para a Assistência social, para o Caps, para a prefeitura. E para Kátia? Kátia não tem faculdades mentais para saber sobre isso – diriam. A solução para Kátia é a solução para os outros; a exclusão da realidade que ela não vive. É ser isolada da nossa realidade. É ser trancada, escondida e adulterada em sua própria fantasia. Para sempre.

 

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