As fracas aventuras de uma moça em uma cidade toda feita contra ela

É assim que Clarice abre “A hora da estrela”. E é assim que também podemos abrir as nossas histórias e as tantas que ouvimos e igualmente se tornam nossas. Tal como o aprendizado é enraizado quando repassado, histórias precisam ser contadas para quem não as viveu conseguir vivê-las.

A gente sempre assimila aventura com emoção, mas esquece que emoção não é só positiva não. Aventurar-se é sempre perder. É deixar partes de si para buscar tantas outras. É uma mutilação. Não somente acréscimo como deduzimos. Como se fosse preciso tirar para colocar. Uma aventura é sangrenta, acima de tudo. Mas nós que crescemos entre filmes, promessas e proteções, estamos condicionados a abstrair o pejorativo em nome do idealizado. E somos soterrados quando a realidade desaba. E ela sempre desaba.

Vou contar as aventuras de uma amiga que não conseguiu perder para ganhar. O preço foi o fatal arrependimento. A maior perturbação é a lamentação. É o maldito “se”. Se eu tivesse ficado, se eu tivesse ido, se eu tivesse feito, se eu tivesse desfeito… Um passado que não aconteceu e não poderá mais acontecer. O passado que ditou o presente. Loucura e distorção. Confusão. Essa é uma história sobre o “se” e seus desacontecimentos.

Beatriz sempre viveu com a família em sua cidade natal. Ela é umas daquelas pessoas que podemos dizer que sempre possuiu uma vida reta. Desde a infância sabia a profissão que seguiria, saiu do colegial e diretamente entrou na faculdade, prontamente ingressou em sua área profissional e alcançou o provável sucesso dos focados e dedicados. Há anos namora e recentemente noivou. O que mais deseja é casa-se e ter filhos. A vida em suas mãos. Até que seu noivo recebeu uma proposta de emprego de uma multinacional em São Paulo. E a vida reta entortou-se. Ele foi, ela ficou.

Depois de um ano da mudança de seu noivo, Beatriz decidiu que também se mudaria. Ele tinha acabado de ser promovido e não tinha intuito de deixar o excepcional emprego tão cedo. O casamento então só seria possível se minha amiga se mudasse. Mas seu noivo não exigia isso. O combinado a principio era que ele ficaria alguns anos na empresa para consolidar carreira e depois voltaria para o interior. Mas vendo o descontentamento da companheira, ele aceitou a mudança.

Beatriz era educadora e dava aulas em vários lugares, pediu demissão de todos, fez as malas e com toda convicção mudou-se para SP. Seu noivo que dividia moradia com amigos arranjou um apartamento só para eles. Era o começo e o final de uma etapa. Mas como em tantas e tantas vezes, nada saiu como o planejado.

Desespero. Chegar em uma cidade sem emprego, sem família, sem amigos; sem ter ou conhecer nada. O noivo saía de manhã e voltava à noite. Solidão. Beatriz entrou em desolamento. Só chorava, e chorava e chorava. Emprego em sua área pagava pouco e estava muito difícil de conseguir. Os dias passavam-se arrastados e o arrependimento despencava. Passou três meses e Beatriz decidiu voltar.

Quando ela me contou sua decisão eu lhe disse que era muito mais difícil voltar do que ir. É preciso muito mais coragem para sair correndo do que ir correndo. Ir para frente é uma coisa, voltar para trás é totalmente outra. Achei maduro a minha amiga ter constatado que continuar não era benéfico e que voltar seria o melhor no momento. A gente precisa viver para ver, para saber, descobrir. Não existe vida ou caminho reto afinal, certo ou errado. Existem eternas possibilidades e descobertas. Se quer jogar tudo para o alto jogue. O que não pode é amargurar-se. Resignar-se dentro do da infelicidade. Acostumar é muito mais fácil do que mudar.

Beatriz voltou para Araraquara e conseguiu readmissão em todos seus empregos. Uma aventura essa ida à São Paulo, um experimento. Mais do que válido. Agora bola pra frente. Ou não. Arrependimento outra vez. Eu não deveria ter voltado. Eu deveria ter sido forte e persistido. Foi o que ela disse e continua dizendo. Ela tentou voltar, mas desta vez seu noive disse não. Ele novamente estava dividindo moradia e já tinha criado convicção que o melhor seria que postergassem o casamento até ele sair de SP. Mas Beatriz não, estava desesperada, novamente. Não queria mais ficar no interior, naquela vida, naquela distância. Por que tinha voltado quando tinha tudo na mão? Lamentação.

Eu tenho um árduo palpite sobre Beatriz. Creio que se ela tivesse ido novamente para SP, novamente desistiria e voltaria para o interior. Não sei se a palavra é desistir ou decidir. No interior Beatriz não tem ele, na capital Beatriz não tem todo o resto. É uma balança injusta essa: o noivo e o sonho do casamento de um lado e todo o resto do outro. O que Beatriz não entende, e todos nós também não costumamos entender, é a impossibilidade de se ter tudo, ou a vital necessidade de aceitar a perda em busca do ganho. O “se” do passado sempre assombrará o presente. Um fantasma que sempre habitará os becos escuros de nossa mente. É preciso aceitá-lo como parte inerente do humano que nunca estará contente e completo. Para todas nossas perdas e vazios colocaremos o “se” na frente confrontando o que foi pelo que deixou de ser. É impossível entrar por duas portas de uma vez. E a única certeza é que o ganho e a perda estarão ali, do outro lado.

Viver não tem cabimento, é sempre um desprendimento. Uma dualidade.

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