Te falta

Quando criança eu costumava dizer que ela era a pessoa mais infeliz que eu conhecia. Não existe nada pior que à resignação ao sofrimento. Entrega. Desistência. Esconderijo. Dizia-me não poder sair da caverna onde vivia pois não enxergava saída. Manter-se na escuridão não era uma escolha, mas uma defesa. Um delírio. E se a gente se acostuma a tudo, como não nos acostumaríamos a nós mesmos? O perigo de se acostumar é deixar de perceber. Você se atira a cada segundo e eu não posso impedir, pois você não enxerga o abismo que cava.
Eu sempre acreditei, sempre afirmei, que o seu problema é a falta de amor a si. Há um masoquismo em seu cotidiano, um sangue que a cada dia escorre pelo corpo rasgado pelas próprias unhas. Porque para suportarmos a vida precisamos de amor, e não falo de altruísmo, mas amor no sentido selvagem e nato. Amor por si, acima de tudo. Porque não dá para viver sem querer. Querer o outro é fácil. O externo sempre parece mais alcançável e concreto. E pela dificuldade de aparar o interno, queremos que o outro apare. Quero que costure este buraco, dissolva esta solidão. Ilusão. Impotência. Só conseguimos amar; qualquer coisa, qualquer vida; quando nos amamos. E é isso que te falta. Falta você. Acima de tudo.
Quando criança costumava te ver em manchas. Marcas secas. Eu não compreendia e talvez nunca compreenda. Mas sinto.
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