Liberdade individual x Liberdade social: Quem decide?

Um indivíduo é induzido a impostar as suas crenças por dois motivos: pela ignorância ou pelo egoísmo. E há uma linha muito tênue entre ambos, onde um acaba convertendo-se ao outro, gravemente. A ignorância sucede como uma deficiência, uma impotência de percepção, como uma lanterna que só consegue iluminar um círculo, inalcançado toda a magnitude ao redor. Já o egoísmo surge da mesquinharia, da necessidade de autoafirmação e arquitetação. O apelo de impostar provém da necessidade de acreditar. A convicção se fragiliza sozinha, quando somada se concretiza. É neste quadro de carências que a intolerância surge necessitando atacar e ditar. E dita.

Na última eleição presidencial, durante um dos debates do primeiro turno, Aécio Neves afirmou ser contra a alteração da legislação sobre o aborto, como justificativa disse: “- Uma posição pessoal que tenho”. Apenas. Este é um exato exemplo de valores individuais impostando direitos sociais. O moralismo pessoal no lugar da ética política. Outro grande exemplo é a recente aprovação do Estatuto da Família pela Câmera, a qual excluiu os casais homoafetivos. Uma decisão determinada pelas crenças pessoais dos deputados, abstraindo e negando um imenso quadro social – pois este diverge e confronta tais particularidades.

Livre arbítrio significa liberdade de escolha própria em relação à própria vida. O indivíduo possui o livre arbítrio sobre as suas opiniões e escolhas íntimas, estas oriundas de valores sedimentados durante sua construção intelectual e moral. A autodeterminação é um direito e um dever, mas a ignorância, ou o egoísmo, exige que valores pessoais tornem-se imposições sociais; adulterando a liberdade de um todo desconhecido e imenso.

Sobre a urgente questão do aborto, o problema – o absurdo – não é ser contra, mas proibir. O indivíduo tem todo o direito de ser contra a prática de aborto para si, mas a sua liberdade de decisão acaba quando a liberdade de outro começa. Principalmente se este outro chama-se sociedade, chama-se 1 bilhão de abortos clandestinos feitos no Brasil por ano. Abortos feitos com remédios contrabandeados, com ervas ou com um pedaço de pau, em clínicas privadas ou no fundo do quintal. Mas feitos. Até hoje o aborto foi proibido no país, até hoje foi imensamente praticado. Proibir não proíbe. Quem quer abortar irá abortar. De um jeito seguro, se houver instruções e condições financeiras, ou de um jeito desesperado e arriscado. E principalmente: o aborto não acontece só no útero, acontece muito mais do lado de fora, quando a criança nasce. Recentemente o país se chocou com a notícia da doméstica que abandonou sua filha recém-nascida na frente de um prédio em um bairro nobre de São Paulo. Prontamente esta mulher parece um monstro, mas, o que a levou fazer isso? Qual a história por trás de uma cena? Qual a escuridão por trás do estreito feixe que nossos olhos alcançam? Esta mulher, Sandra Maria dos Santos Queiroz, uma migrante nordestina que mora no apartamento onde trabalha, em um quartinho que divide com a sua filha de 3 anos. Quais as condições desta mulher para criar mais um filho? Quais os motivos que a fizeram abandonar o seu bebê? Não sabemos. Porque não é a nossa vida. Como julgar o que desconhecemos? Ou pior: como ordenar?

A dificuldade de debater o aborto no Brasil constitui-se e na omissão da diferença e na imposição da igualdade. É absurdo falar de igualdade quando falamos de particularidades. Crenças e valores são particulares. O embrião ser ou não uma vida, ter ou não uma alma, possuir ou não o direito de nascer; são concepções pessoais e variantes – condizente apenas a quem o porta. Mas é aí que entra a incompreensão que cega. A impotência de alteridade. O alcance falta, a intolerância sobra. Muitas religiões impõe seus paradigmas acreditando contundentemente que assim devem agir pois assim fazem o bem. Os militantes contra o aborto acreditam também que fazem o bem impondo suas convicções íntimas, as quais consideram únicas. A limitação aqui reside. Aqui impossibilita. É este o aprisionamento da ignorância e o exílio do egoísmo. Os olhos estão trancados para dentro.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s