Uma Toledo só minha

Como descobri o slow travel

Uma sugestão: Vá para Toledo! – ele disse. Expliquei que estava sem dinheiro para viajar. – Mas com 3 euros você vai para Toledo! É pertinho. Um lugar mágico, você precisa conhecer!

Já me foge da memória alguns detalhes, como o dia em que levantei e decidi seguir a dica do vendedor ambulante, do Aladim. Era um indonésio baixinho de roupas coloridas e semblante amável. Falava inglês e isso foi o primeiro vínculo. Éramos imigrantes e este foi o maior vínculo. Aquela Toledo que nunca antes tinha ouvido falar me ficou na cabeça. Então, um dia, peguei um trem e pra lá fui, sem ter pesquisado nem nada, sem ter a mínima ideia pra onde estava indo ou o que iria encontrar. Seria uma surpresa. Uma descoberta. Tudo que uma adolescente sonhadora queria.

Desci na estação de trem que ficava na entrada da cidade. Saí andando. Onde eu estava ainda era rodovia. Pensei em perguntar como fazia para chegar… Chegar aonde? Em pontos turísticos? Eu não sabia de nenhum. No centro talvez… Achei que não adiantava muito perguntar. Melhor andar. E andei. Uma escadaria imensa surgiu, de pedra. Coisa linda. A cidade parecia estar lá em cima. Enquanto subia já conseguia ver uma paisagem incrível: um grande rio circundava a cidade com pontes antigas, algumas em ruínas e um castelo lá no fundo. A cidade parecia ser toda de pedra. Parecia de mentira, um lugar montado para receber turista. Ou tipo set cinematográfico. Na parte de cima encontrei grande movimento: uma praça com restaurantes e cafés em volta e muitos turistas. Ruas estreitas se enraizavam dali, os pequenos quarteirões formavam um labirinto de pedra. Escolhi uma rua e segui. Não havia carros naquela parte, para se locomover só à  pé. Nem caberia um carro ali! Ruazinhas que se fundiam com a calçada. Tudo de pedra, tudo antigo, tudo soturno. Este seria o centro supus. Lojas, pensões, muitos souvenirs. E pessoas vindo e indo.

As lojas foram ficando dispersas, os quarteirões vazios, um paredão surgia e conduzia o caminho que se afunilava. Arcos medievais apareciam transformando cada vez mais a cena. E uma catedral gigantesca surge. Enorme, inteira esculpida e adornada. Parecia não ter fim. Magnifica. Aquele local parecia ser o marco da cidade. Havia um gramado que parecia servir de limite, turistas se aglomeravam arredor. Construções históricas e museus ali se concentravam. Gente de mais. Havia filas para entrar nos museus e na catedral. Mas a cidade continuava logo ali atrás, numa parte esquecida e quieta. Algo já bem residencial. E sem pensar duas vezes para lá fui, continuando a seguir ruas estreitas e já vazias.

Tudo era muito diferente naquela região longe dos holofotes. Tudo silencioso e misterioso. Eram casas antigas e pequenas de alvenaria, pareciam desabitadas, todas rentes à rua, nem se quer calçada mais havia. Tudo muito íntimo, muito próximo. Era um costume colocar panelas penduradas na janela, fiquei fascinada. Logo ali crianças brincavam na rua vazia, numa cena que mais parecia uma lembrança solta. E foi naquela altura que comecei a ver o cume de um morro bem verde por cima das casas, e já era para lá que meus passos me conduziam.

Será que era neste morro que estava o castelo? Talvez. Andava me orientando por aquele pico, e às vezes ria pensando em como faria para voltar. Eu não tinha a menor ideia de onde estava. Não havia internet no celular naquela época. E meu celular era totalmente nulo, pois, se quer havia alguém para ligar. Estava eu e o acaso que me conduzia. Um mapa não traçado eu percorria. Há um desbravar nisso, um encanto. Uma genuína sensação de viver o agora pelo agora. Eu tinha 18 anos e todas as vontades do mundo. Aquela cidade sabia disso e me abrigava.

As casas agora se tornavam esparsas e as ruas não mais asfaltadas. Carros surgiam dificultosamente estacionados diante de algumas casas. E comecei a ouvir barulho de água! O morro cada vez maior diante a mim. O caminho já era íngreme, sinuoso e foi tornando-se vazio. As casas já iam sumindo e a cidade se transformava em campo. Então, como uma cortina que se abre, o morro apareceu, mostrando um dos lugares mais lindos que já pude ver. Um rio imenso, com águas confusas entre a pressa e a tranquilidade, talvez perdidas no tempo entre aquelas ruínas que fincavam suas margens. Havia uma antiga casa abandonada no meio do rio, criando uma atmosfera surrealista. O morro acompanhava todo o trajeto do rio e um caminho entre o planalto surgia, com uma placa: “La Ruta de Don Quijote de La Mancha”. E era só eu e tudo aquilo.

Segui o caminho, num transe de vislumbre. Era tudo incrível demais e eu sabia que aquele era um momento único na vida. A magia se fazendo realidade. E me lembrei do Aladim… E sorri forte.

No final do caminho havia uma ponte toda medieval, acho que a mesma ponte que conseguia ver lá da escadaria principal. E do outro lado: o castelo! Sem querer encontrei o castelo. Ou o castelo me encontrou.

Eu não me lembro porquê, mas eu não podia entrar no castelo. Havia apenas um grupo de pessoas no local aguardando a entrada. Creio que era preciso agendar entrada, algo do tipo. Mas o quê? Tinha chego até ali para não entrar no castelo? Jamais. Prontamente me infiltre no grupo que também entrava, e antes de confirmarem meu nome saí de fininho para os fundos, sem ninguém me ver. E ao chegar aos fundos, outro véu caiu: Um jardim imenso de rosas com um mirante atrás. Já era crepúsculo e vi o sol se pôr naquele lugar que mais parecia uma pintura que eu ilogicamente penetrava. Sentada ali, estando ali, mais nada fazia sentido. Todo o resto era muito pequeno. O mundo era muito maior.

Voltei para Toledo várias vezes após isso. Sozinha e com amigos. Sempre voltava para as ruínas de La Mancha, explorando lugares inesgotáveis. Também outras partes da cidade mais turísticas, como seus tantos e maravilhosos museus. Cheguei a passar noites lá, dormindo em pensão. Quarto grande, antigo, simples. Escadaria rangendo. Portas imensas. À noite jantava em restaurantes com mesas na rua, vinho na jarra, prato feito. Nada de luxo, mas tudo muito intenso. Muito verdadeiro. Eu me sentia parte daquele lugar, daquela vida. E aquela Toledo, para sempre se tornou parte de mim.

A filosofia “slow travel” incentiva a jornada e não a chegada. Incentiva desacelerar para observar, assimilar. Vivenciar. O valor está na profundidade não na distância. Está na intensidade não na quantidade. Destinos colecionados, fotos compartilhadas, souvenirs ajuntados, roteiros comprados… O slow travel propões o inversos disso tudo. Uma maior autenticidade e concretude. Singularidade. Uma maior calma para degustar, sentir. Aproveitar. Ser viajante na vida, não passante.

Toledo me ensinou isso.

“Os turistas dirão muitas coisas: lugares, preços, estações de metrô. Os turistas sabem coisas práticas. Os outros [os viajantes] sabem que onde as informações acabam é que a vida começa.” – Cecília Meireles

Fotos: https://www.flickr.com/photos/alinecastanhari/albums/72157661337184001

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