Por dezembros atravesso oceanos e desertos

Vivemos em ciclos. O tempo delineia isso. Demonstra. Dezembro parece um fim. Ando relembrando meu dezembro passado. O que pensava, o que esperava, o que queria. O que me iludia. É estranho não é. A gente muda tanto em tão pouco tempo. E continua igual.

Primeiro me lembro: prestava vestibular em dezembro passado. Mas não era só isso. Não sou só isso. Há anos minha vida gira em torno de uma vaga na faculdade, e isso parece tempo arrastado. Implorado. Estou tentando. Tentando. Como quem joga no bicho esperando a sorte. Não. Do contrário disso. Nos últimos ano me desconstruí. Saí de São Paulo, passei um ano no interior criando condições para invadir outra cidade. Recomeçar. Cheguei à Curitiba com objetivos desordenados. Vontades esparramadas. Horizontes escuros. Foi um ano louco aquele. Aquele que dezembro passado terminou. A busca incessante por trabalho. Depois, a insatisfação que não me cabia. A demissão. A perdição. O que estou fazendo aqui?  Sem trabalho. Sem faculdade. Sem condições. Que loucura. Quê loucura. Que vazio. A redenção. Humildade.  Aceitar a ajuda de tão bom grado de meus pais. Como sempre. Tenho 27 anos e sou sustentada. Valorizar e não me envergonhar. Usar a oportunidade. Assumir a condição de estudante. Iniciar este ano com uma pilha de apostilas. Reestudar o conteúdo do ensino médio. Depois de 10 anos. Isso era o que mais fugia. O que eu mais negava. E foi inevitável. A dificuldade. O desespero. No meio do ano chegou o ponto que eu abria a apostila e caia no choro. Não aguentava mais. Não aguentava mais aquele estudo corrido, abitolado, decorado. Sentia estar digerindo sem mastigar. Um tubo na goela. Agonia. Agonia. Agora também estou um pouco assim. Essas últimas semanas estudando para a UFSC foram assim. Mas agora, por uma questão de desesperança. Sei que não estou preparada e não dá mais tempo. Dezembro passado eu acreditava que com um ano de estudo eu passaria. Ou precisava acreditar.

Durante este ano eu fui constatando que a minha previsão estava equivocada. E que dificilmente eu passaria. Mesmo assim fui teimosa. Quis pagar pra ver. E vi. Mas coloquei cartas na manga. Agora elas estão na mão. Se meu truco vai funcionar ou blefar eu não sei. Admito totalmente não saber o vai ser do meu próximo ano. E a gente nunca sabe. Toda tentativa por mais possível que seja é improvável. Por muito tempo o meu maior problema foi excluir a porcentagem do fracasso. Neste dezembro amargo eu me lembro disso. E como tantos tombos me trouxeram até aqui. Arrastada. Mesmo que amargo, é um fim mais bonito esse. Pois plantei sementes, não só cavei. Sinto que por muito tempo só procurei. Não iniciei. Talvez porque nunca me submeti à começar de baixo. Partir do começo. Plantar e esperar brotar. Quando se tem quase 30 anos parece que ou é ou não é. A possibilidade de ser parece demorar um tempo que não temos e que não podemos esperar. Neste ano teve que ser diferente. Tive que abrir os livros do colegial, fazer diariamente lista de exercícios que jamais pensei em refazer; tive que encarar algo que eu fugia para alcançar o que eu queria. Há um peso nisso. O peso das escolhas, do dia a dia, do tempo gasto que desenha ciclos. Quando penso nisso me sinto bem, como se tivesse completado esse ano. Completado?  Sim. Atravessado. Dezembro parece um fim. Ou uma ponte.

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