Intuição e Ilusão

Sempre quis ter igualmente sensibilidade e racionalidade. Mas estes sempre me pareceram terrenos contrários; se piso em um, não alcanço o outro.

Quando adolescente perguntei para um professor que muito gostava o que compensava mais: seguir o coração ou a razão, principalmente quando ambos se contradizem – como sempre. Sem pensar respondeu: “- A razão, porque o coração é traiçoeiro, ele costuma ver apenas o que quer ver.” Eu fiquei bem frustrada com a resposta. Esperava a opção mais espirituosa. Mais corajosa. Seguir a razão parece óbvio demais. E o fantástico não acontece no óbvio. Assim, não ouvi o meu professor, e me dei muito mal. Ele tinha toda razão em escolher a razão. Esta e tantas outras experiências me tornaram alguém mais calculista e menos impulsiva. Só que não foi o suficiente. Ainda não sei viver. A vida ferozmente me cobra a tão obscura percepção da intuição. Que parece contrapor a tão lúcida visão da razão.

A intuição, a princípio, me parece a deturpada voz da emoção: do coração que quer não importa como e age impulsionado pelo desejo de obter, e pelo medo de não conseguir. Eu tento racionalizar a intuição e aí que escorrego, e me quebro.

Toda matéria fragmentada se desfaz, vira pó, um punhado de átomos soltos e desordenados. Verdades marteladas arrebentam. Convicções vasculhadas desintegram. O que dirá da frágil epifania da intuição? Do saber desprovido de explicação. Só sei porque sinto. E toda matéria não é antes energia em transformação? Partículas invisíveis em junção. O sentir então não seria um genuíno saber? Saber de quem pressente o futuro pois sente o presente.

A programação mental coordena as emoções. Quando um negativismo é forjado em relação à uma situação ou acontecimento, o cérebro associa isso com algo ruim e um bloqueio emocional sucede, influenciando ou mesmo definindo nossas ações. Da mesma forma o positivismo age. Mas é aí onde me burlo. Desconsidero a intuição a julgando mera emoção desordenada, subestimando sua origem e manipulando seu significado. Não considero que pode suceder o contrário também: a intuição pode ser a emoção que estrutura e direciona a ação, o acontecimento.

É complexo e relativo este assunto. As situações são inúmeras e variantes. Mas a ligação entre emoção e razão é inexorável. “Penso porque sinto. Sinto porque penso.” Essa analogia de coração x cabeça é poética. Desvencilhar emoção de pensamento não é nada fácil quando se admite que ambos se originam no mesmo lugar. Mas há uma tênue diferença. O descontrole demonstra isso. Quando estamos tomados pela emoção não conseguimos agir com razão. Mas não seria melhor proferir que a razão neste momento seja a emoção?

Intuição sobre fatalidades é oráculo. Um campo fora de nosso domínio. Mas a intuição sobre vontades é dedução. O sentir que formata o agir.  É o autoconhecimento que persuade, surgindo como sussurros no meio do vendaval. A mente ansiosa grita e não ouve, a própria voz.

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