Solidão Maior

Minha avó há anos tornou-se gagá. Sim, assim meio biruta. Normal, meu tio sempre diz, gente velha é assim mesmo. Ele sabe que não, que não é assim mesmo. Principalmente aos 70 anos. Mas é melhor pensar que é normal. Dói menos. Minha mãe já resiste:  – Ela faz de propósito. Quer chamar atenção! – Diz sempre. Também assim é mais fácil, ou menos difícil. Já para mim, fantasias incomodam mais do que realidades.

Ano passado gritei. Vamos buscar ajuda para a vó! Agora! Ajuda pra quê menina? Ajuda pra cabeça! Minha avó está ficando louca e ninguém faz nada! E sozinha sai atrás de médicos. Geriatra, neurologista, psiquiatra. O primeiro diagnóstico ponderado foi demência vascular. Mas os exames negaram. A demência era mental, uma ferida muito mais profunda e invisível. Não havia cura, apenas paliativos. Remédios, os médicos impotentes receitaram. Remédios para mascarar. Dopar. Antipsicótico. Ansiolítico. Minha vó tá meio gagá mas se vira muito bem Dr.! Com todas estas drogas aí que ela não vai nem conseguir levantar da cama! Ela não é agressiva, não tem graves transtornos. Só é triste porque é só. E a tristeza foi tanta que levou uma parte dela para não sei onde. E nunca mais trouxe de volta.

Envelhecer é difícil. Quem tem a saúde física costuma não ter a mental e vice-versa. Difícil demais ver um velhinho íntegro. Isso porque a vida dilacera demais. Se à beira dos 30 eu já me sinto aos pedaços, o que dirá daqui 30 anos. E mais 30… Que loucura! Desligar-se acaba sendo uma salvação. Escapar-se. Eu e a minha mãe sempre paramos no meio de algum cômodo, entre alguma conversa sobre a vó, e tentamos nos lembrar em que ponto exatamente ela começou a ir, a nos deixar. Foi depois do derrame? No começo da doença do vô? No final da doença… Não sabemos direito. Da mulher mais forte e bondosa do mundo restou uma velha triste, amargurada e infantil. Ela tem um ódio do mundo absurdo. Como se caminhasse sobre facas e ninguém lhe estendesse a mão. Estou presa aqui, esquecida aqui, sangrando aqui. E ninguém se importa! É como se dissesse. Tudo é hostil. Tudo é abandono e solidão. Assim, ela se volta contra o mundo, forjando pequenos delírios que transformam qualquer um em um agressor.

Ela repete tudo. A cada minuto. Relata o dia mecanicamente. Acordei, tricotei, tomei banho, coloquei o lixo. E depois conta tudo de novo. E de novo. Entre um relato e outro começa a sessão de agressões inventadas. Com toda seriedade relata – e repete – como todas aquelas pessoas a destrataram. Amigos, familiares, conhecidos e estranhos. Todos são inimigos. Todos agridem. Se a gente revida, chora. Não entende. Quando se sente triste, é raivosa. Precisa xingar, ofender, fazer um pouco com os outros o que sente sendo feito com ela.

O que ela mais gosta é de passear e ser ouvida. Principalmente ser ouvida. Quer contar, inúmeras vezes, sobre o seu dia, sobre as histórias que inventa sobre seu cotidiano, já que não tem nada de novo para contar. E especialmente, relembrar memórias, seu bem mais precioso. Exatamente igual aqueles típicos velhinhos já gagás, os quais a gente visita uma ou duas vezes no asilo em algum projeto de caridade, acha bonitinho, nos sentimos fazendo o bem e vamos embora. Mas, agora a gente não pode ir embora. A solidão dela é também a nossa. Estou sozinha com a minha vó. Diante dela.

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