Ocupe o meu tempo. Preencha minhas mãos.

Uma solteirona solitária e por isso triste. Mas sua tristeza não era exatamente falta de companhia, mas de vitalidade. Dona de casa, passava os dias na janela à procura de alguém, ou de algo. Foi quando conheceu um professor de piano e se apaixonou. Quis se apaixonar. O rapaz era muito feio e por isso ela o apelidou de “príncipe sapo”. Exatamente por ser feio o quis, pois achou que assim seria mais fácil ele também a querer. Para se aproximar contratou seus serviços e começou a aprender piano. E sua vida mudou. Não pela paixão pelo homem, mas pelo instrumento e de como isso preenchia o seu tempo, o seu vazio. Seus dias agora eram no piano, não mais sozinha na janela. No piano não estava mais sozinha, tinha sido encontrada, por ela mesma.

Esta é a história do conto “O Príncipe Sapo” de Caio F. Abreu.  Lembro-me deste conto muitas e muitas vezes, mas principalmente com a minha avó.

Minha vó caiu em grande depressão após perder o seu marido. Perder o seu companheiro era também perder a si. Durante cinquenta anos esta mulher viveu para a família, pela família. Cuidar do meu avô antes e depois de sua doença era a sua função, sua ocupação. Sem os filhos e sem o marido, só sobrava ela. E ela já não sabia o que fazer disso. A falta dele se derramava na solidão. E isso transbordava. Inundava. Minha vó só chorava, chorava e dizia: Fico o dia todo aqui sozinha. Sozinha comigo – ela queria dizer.

Foi então que um dia resolver fazer crochê. E sua vida mudou. Hoje ela não fala mais sobre a sua solidão, fala sobre o crochê. Daquele jeito incessante de quem já não se lembra do que disse no minuto passado, ou apenas sente necessidade de contar de novo. E de novo. Estava fazendo crochê! Faço até anoitecer! Preciso voltar pra casa para terminar a toalhinha… O crochê virou seu ofício, seu porquê. Preenchimento do seu dia. Esquecimento de sua dor.

Minha vó é velha, assim como um pouco já era a mulher do conto de Abreu. Mas isso nada vem ao caso. Todos nós somos seres derramados dentro de si; solitários e vazios, apenas à procura de algo que nos ocupe, que nos justifique. Só que fomos condicionados a procurar por fora, tornando-nos assim dependentes, insuficientes. Vivemos pelo outro, pelo trabalho, pela distração. E no silêncio nos perdemos por dentro. No espaço que já não conseguimos ocupar, no ser que já não se consegue habitar. A insaciável busca de entretenimento para se esquecer.

É preciso ter um piano ou um crochê ou qualquer outra coisa que de ninguém mais se precise. Só de si mesmo. Um momento com o nosso eu. Um encontro. Autopreenchimento. Algo que ocupe as mãos e direcione a mente. O bem-estar precisa disso. A sanidade também.

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