Desejo pela Queda

Nós estamos aqui jantando, na cozinha mesmo, em casa mesmo. Você pega uma cerveja. Outra cerveja. Está com a pressão alta. Muito alta. E sabe que precisa maneirar com a bebida. Mas não liga. Muito pelo contrário. Eu te repreendo e você ataca: “-Trabalhei o dia inteiro que nem uma condenada! Mereço pelo menos uma cerveja!” Sim, todos os dias merece. Como diz merecer todos os cigarros que consome. Incontáveis cigarros. Justifica que fez não sei que exame em seus pulmões e está tudo bem. Não, não está. Você sabe. Você sabe que fumar era a última coisa que poderia. Mas não liga. Quer é esquecer. E se entregar.

Aqui na mesa mesmo, estragando a descontração que conversas de jantar deveriam ser, eu tento, pela vigésima vez, sugerir alguma mudança em sua rotina autodestrutiva: – Vi uma marmita gourmet, por que não liga lá pra ver? Assim você comeria melhor, comida pronta! Não precisaria fazer, poderia levar para o escritório também! Mas não. É murro em ponta de faca. Eu sei, eu sei, já decorei: você não tem tempo para comer. Trabalha o dia inteiro e não tem tempo nem para almoçar. Todos na sua empresa têm, mas você não; a patroa não. Também não resta tempo para ir numa academia ou andar no parque. Muito menos poderia chegar um pouco mais tarde para preparar um café da manhã. À noite, está demasiadamente cansada para cuidar de si. Precisa sair, beber, esquecer. Esquecer o hoje que teve, e o amanhã que terá.

Eu te vejo caindo, caindo, afundando. Nenhuma mão pode te segurar porque são suas mãos que te arremessam. Mas não é sua culpa você grita. Ninguém entende! Ninguém vive a sua vida. Eu sei, eu sei. Você já não controla mais nada. Só se entrega. Só continua. Só vive a vida que nunca quis viver. Então, se mata aos poucos, como fuga. Será que você se vê? Será que vê a vida que vive? Será que vê as próprias mãos que te prendem? Você tornou-se puro vitimismo. É esse o problema. Nada depende de você. Nenhuma mudança cabe a você. Lembro de quando me contou sobre um senhor querido que frequenta a praça do Zinho. Um velhinho de quase 80 anos com toda a saúde do mundo. Você disse que queria ser igual a ele. Mas age exatamente ao contrário. Segue os passos do seu falecido pai, que teve paralisia renal por causa do tabagismo, e passou os últimos anos de vida vegetando numa cama. Isso aos 70 anos. Ou da sua mãe que teve um acidente vascular cerebral e ficou para sempre demente. Os médicos afirmam que o cigarro contribuiu para este avc. Mas nada disso despertou qualquer mudança em sua conduta. Apenas mais dor para carregar. E derrubar. Vamos esquecer de tanta desgraça né! Vamos ir lá para o bar beber e fumar! Mas fumar e beber muito! Para logo dar um treco e a gente terminar de vez. Cair de vez. Sumir dessa vida que só arrebenta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s